O consultor económico e professor universitário, Gadi Lipiner disse que Angola caminha a bom ritmo para a diversificação da sua economia. Sublinha que o processo deve assentar no fomento das micro e pequenas empresas. Para ele, a experiência de Israel, que já viveu vários momentos de crise, pode funcionar em Angola

A Focus Education participa, no próximo Sábado, num seminário internacional sobre gestão e administração estratégica em tempo de crise. Qual é o objectivo principal?

O objectivo deste seminário é o de partilhar com o público angolano a vasta experiência de Israel em cenários de crise, como lidar com as crises. Para os israelitas as crises são sempre fontes de oportunidades.

Porque decidiu a Focus associar-se a este evento?

Na qualidade de consultor da Focus Education, empresa do Grupo Mitrelli e parceira estratégica do Governo de Angola, fui convidado pelo Dr. Nazário Vilhena, do Ministério da Administração do Território, para dar uma palestra neste seminário. Aceitei prontamente o desafio já que, tanto para mim como para a Focus, esta será uma oportunidade única de partilhar a experiência de Israel nesta matéria, mas também uma óptima oportunidade de conhecer uma grande parte dos gestores de Angola.

Olhando para a realidade de Angola, que estratégias devem ser adoptadas para a saída da crise?

Creio que a experiência de Israel, país que vive crises sucessivas e tem conseguido superá-las, será muito importante para Angola. Em Israel também houve crise económica, sobretudo, em 2008, mas a forte diversificação da sua economia permitiu superar essa crise sem grandes dificuldades.

Houve também anos de crise por falta de recursos hídricos mas, recorrendo à alta tecnologia, Israel desenvolveu processos de dessalinização da água do mar, conseguindo assim uma alternativa viável para garantir o abastecimento de água. E é preciso não esquecer que Israel tem conseguido superar crises recorrentes na área da segurança.

Desde a sua criação, em 1948, que o país tem vindo a enfrentar as ameaças externas com o recurso, uma vez mais, à alta tecnologia. Angola terá mesmo que diversificar a sua economia, desenvolvendo a agricultura, para não depender das importações de bens alimentares. E deve também, a meu ver, investir em altas tecnologias, o que contribuirá decisivamente para o desenvolvimento do país.

Sabemos que tem experiência da realidade israelita. Como podemos aplicar o mesmo modelo na realidade angolana?

Israel pode, naturalmente, auxiliar Angola em todas as áreas citadas. A Focus Education, em particular, trabalha em Angola há mais de 20 anos, um longo período em que a empresa tem levado a cabo projectos estruturantes em áreas-chave como as da educação e formação, com fortes componentes de transferência de tecnologia e partilha de muita da experiência de Israel naquelas áreas. E a educação e a formação são a base para o desenvolvimento de um país.

Em que consiste esse modelo?

Creio que o modelo de Israel pode ser resumido numa simples equação: Dificuldade/Problema = Oportunidade, ou seja, as dificuldades e os problemas constituem oportunidades e essas oportunidades têm sido bem aproveitadas por Israel. Angola pode e deve fazer o mesmo.

O que pensa da forma como tem sido dirigido o processo de diversificação económica em Angola?

O processo de diversificação da economia angolana começou e isso é bom, mas creio que é preciso ir mais longe e criar as condições para que a economia do país atinja o enorme potencial de que dispõe.

O que a Focus já identificou como principais desafios no ambiente de negócios em Angola, face à conjuntura actual?

Para nós é importante actuar em várias vertentes ao mesmo tempo, a começar, naturalmente, pelo desenvolvimento do sistema educacional, que é, reitero, a base para o desenvolvimento de uma nação, mas sem esquecer, por exemplo, o fomento do empreendedorismo, que a Focus também promove. É ainda necessário desenvolver infra-estruturas, dinamizar e aperfeiçoar o sector agro-pecuário, desenvolver as áreas tecnológicas e melhorar os sistemas de gestão, entre muitos outros sectores.

Além da falta de uma agro-indústria forte, uma indústria transformadora forte, a falta de infra-estruturas é apontada como um dos principais problemas de Angola. Concorda?

Concordo plenamente. Angola precisa de uma agricultura desenvolvida e de uma indústria transformadora adequada aos desafios que o país enfrenta, designadamente no que se refere à capacidade de se tornar auto-suficiente e até exportador.

Pensa que além da agricultura e da energia e águas, é imperioso que se aposte mais nas infra-estruturas de logística?

As infra-estruturas logísticas são condição necessária para o desenvolvimento da indústria e dos sectores produtivos em geral e é necessário investir nessa área. Angola é um país muito grande, com grandes distâncias a vencer, necessita de infra-estruturas que permitam um adequado escoamento de produtos, redes de transportes, criação de parques industriais, etc.. Está em curso um processo que visa a redução das importações, apostando na produção nacional.

Onde é que se devia começar, nas micro e pequenas indústrias ou nas grandes indústrias?

Na minha opinião, as micro e as pequenas indústrias são a chave para uma verdadeira diversificação da economia, pois essas indústrias constituem, em média, mais de 95% da economia de um país. As médias e as grandes empresas virão depois, naturalmente, e parte delas será baseada, precisamente, em micro e pequenas indústrias. Mas é nestas que é preciso investir primeiramente. E, naturalmente, apostar na educação e na formação.

PERFIL

Professor universitário na área de empreendedorismo e administração de empresas em várias universidades em Israel, Gadi Lipiner obteve o grau de Doutoramento e Mestrado em Business Administration pela Universidade Hebraica de Jerusalém.

Ao longo de 30 anos de carreira, acumulou vasta experiência profissional, assumindo cargos executivos de alto nível em empresas multi-nacionais como a Sigma-Aldrich- Fluka, Bromine Compounds Ltd.

(ICL Group) e Inventech-Venture Capital. Desenvolve estratégias de longo prazo, metas e modelos de receita, possui vasta experiência em negócios, tendo implantado, no processo, uma ampla rede de conexões na Europa, América do Norte e América Latina.

Fundou cinco empresas start-up nas áreas da biotecnologia e dispositivos médicos e no campo das energias renováveis. Trabalha como consultor do Grupo Mitrelli e da empresa subsidiária Focus Education Ltd, em Angola desde 2012.

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