Cracóvia e Mbanza Kongo, cidades geograficamente muito afastadas, passaram a estar muito próximas desde o dia 8 de Julho do ano em curso, na ressaca da 41ª sessão da Comissão do Património Mundial da Unesco que declarou o Centro Histórico da antiga capital do Reino do Kongo como Património Mundial da Humanidade. Esta distinção resulta de uma proposta do Governo Angolano com candidatura submetida à Unesco no ano de 2015, após levantamentos arqueológicos efectuados no âmbito do projecto “Mbanza Kongo cidade a desenterrar para preservar”, sob alçada do Ministério da Cultura desde o ano de 2007. É, por si só, uma grande conquista da nossa diplomacia cultural.

A classificação científica das ruínas e edifícios seculares da antiga sede do Reino do Kongo congregou os factores técnicos com a aplicação das mais avançadas ferramentas de investigação no campo da arqueologia e também uma profunda revisão ao capital antropológico. O simbolismo material dos monumentos e sítios e das referências etnográficas e iconográficas só subsistem no tempo por conta da capacidade exemplar das várias gerações que habitaram e habitam aquele território em preservar a matriz cultural, sem agredir, no entanto, o espaço natural para as novas abordagens sociais em função das diversas correntes do modernismo.

A linguagem apropriada para consignar, a cada um e ao colectivo, a responsabilidade pela defesa e protecção das marcas e do espectro intangível que se repercurtem automaticamente, resulta do reencontro obrigatório com o passado. É um percurso essencial para nos orientarmos. É a mesa principal para nos alimentarmos. Pois, só sabemos onde poderemos chegar se tivermos a capacidade de olhar para trás e analisar o que já percorremos e de onde viemos.

A euforia não nos pode levar à cegueira ao ponto de deixarmos de lado a missão chave de divulgar para dentro e para fora os propósitos das nossas apostas. A divulgação dos porquês da elevação de Mbanza Kongo a Património Mundial da Humanidade não devem ficar reservados para as ocasiões especiais. É importante disseminar a informação inventariada, atribuindo desde modo a todos os cidadãos angolanos o direito de orgulhosamente replicá-la nos mais diversos espaços de interactividade. É natural defender a sistematização da comunicação à volta deste assunto para não abrir brechas e ocasionar outro tipo de aproveitamento.

Yala Nkuvu (a árvore sagrada), Lumbu (o tribunal tradicional), Kulumbimbi (a antiga Sé Catedral), devem ser referências permanentes nos postais físicos e orais, quando nos predispomos a falar de Angola e das suas maravilhas. Tal como são as Colinas de Tsodilo no Botswana, a Reserva de Fauna de Dja nos Camarões, A cidade de Lamu construída com pedra e cal no Quénia, o Parque Nacional de Tsingy de Bemaraha no Madagáscar, as Onze Igrejas de pedra de Lalibela na Etiópia, O Monte Kilimanjaro na Tânzania, as Mesquitas de Timbuktu no Mali, as Cataratas Mosi oa Tunya, também conhecidas como Victória Falls na fronteira entre a Zâmbia e o Zimbabué, ou ainda os Túmulos, Templos e Palácios da cidade de Ménfi s no Egipto. Como é óbvio, há também a destacar a infl uência moral de certas personalidades.

No Reino do Kongo, por exemplo, apraznos sempre assinalar a proeza do príncipe Nfuta. O primeiro Embaixador Africano a chegar ao Vaticano, em 1608, após quatro anos de viagem como emissário do Rei Nimi a Lukeny. Não sendo bastante nos vangloriarmos pelo feito conseguido com a elevação de Mbanza Kongo à categoria de Património Mundial da Humanidade é, pois, avisado começar a empreender uma etapa de construção de uma estratégia de comunicação sólida e acutilante.

Afinal, os agentes da mudança são as pessoas e hoje são muitos os recursos para fazermos valer e divulgar essa resiliência cultural a bem de todos. Se calhar, podem juntar-se a essa acção nacional aqueles que aproveitam mal as arenas públicas fora das nossas fronteiras e mancham o nome de Angola em defesa de interesses inconfessos. É apenas um apelo ao patriotismo e à defesa da nossa rica herança cultural.

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