O frenesi diário do jornal algumas vezes não permite muito. Deixa-nos distantes da família, dos convívios sociais e até mesmo da informação. Parece mentira, mas é verdade, diria, se calhar, o músico Matias Damásio, um dos mais aclamados da actualidade. E foi o que terá acontecido comigo nos últimos dias, quando não havia ainda dado de cara com a reportagem transmitida pela Televisão Pública de Angola sobre as inundações na centralidade do Dundo, na Lunda- Norte. Há mais de um ano, a convite de um amigo, tive a oportunidade de visitar essa centralidade.

À primeira vista temos uma cidade de fazer inveja, com prédios pintados em cores capazes de despertar os mais dormentes, com edifícios mais altos do que os da centralidade do Kilamba ou do Sequele, dois dos principais cartões postais que regularmente são – e muitas vezes foram – exibidos aos dignitários estrangeiros que visitassem o nosso país. Em tempos, um amigo propôsme que abordássemos nas páginas deste jornal – ou num outro espaço – o ‘RIGOR’. Ou seja, a resistência à tensão, rigidez, dureza ou força com que nos entregamos aos projectos em que estamos envolvidos.

Nas entrelinhas, penso que o meu amigo me sugeria que falássemos sobre o que temos feito para não termos estradas mal feitas, ao invés das que temos e que num curto espaço de tempo estão deterioradas, à semelhança daquela que encontrei no último fim-de-semana no Golungo-Alto… ou então que, no mínimo, conseguíssemos manter a beleza que nos últimos dois anos obtivemos no projecto Baía de Luanda, cuja relva ganha hoje uma outra coloração e nem a reposição das lâmpadas fundidas temos conseguido. Não acredito que ele me estivesse a sugerir medidas mais difíceis, tais como para que evitássemos doenças como a cólera, a febre-amarela e outras epidemias que vezes sem conta nos batem à porta, como acontece agora no Zaire, e rezemos para que não irrompa nas demais 17 províncias que integram este belo país.

Mesmo que se tenha partido de uma situação de fragilidade, como aconteceu em momentos posteriores ao fim do conflito armado, em 2002, tínhamos a obrigação, no mínimo, de saber negociar os contratos e as empreitadas em que nos envolvemos com os nossos compatriotas chineses. A negação dos países ocidentais para apadrinharem uma conferência de doadores, como a inicialmente marcada para Bruxelas, na Bélgica, não pode ser justificação para que caíssemos em erros como os que se estão a manifestar nos últimos dois anos. O tempo vai-nos mostrando que tivemos nós mesmos, os angolanos, inúmeras insuficiências, que se espera sejam colmatadas nos novos investimentos que vão sendo feitos ao abrigo dos novos acordos financeiros com a República da China.

Das estradas quase nada se pode dizer. Um responsável da Empresa Nacional de Elaboração de Projectos disse tudo e mais alguma coisa quando frisou que mais de 40 porcento das vias encontram-se completamente danificadas, a maioria das quais reabilitadas recentemente. Recentemente, num outro encontro promovido pelo Ministério da Construção e Urbanismo, apercebemo- nos de que só agora se começará a implementar algumas infra-estruturas que inicialmente tinham de ser feitas nas centralidades, entre as quais a ex-libris Kilamba (sobretudo na sua parte sudeste, vulgo KK 5000) e noutras espalhadas pelo país.

Não se pode acreditar que alguém tenha construído uma casa e se tivesse esquecido do WC, da cozinha ou de outros compartimentos! Até mesmo nas conhecidas casas evolutivas, apelidadas hoje no Zango pejorativamente ‘Tchuna Baby’, os cidadãos mais modestos têm consciência de que nos próximos tempos deverão erigir estas partes da casa.

Curiosamente, em algumas centralidades onde era suposto assentar aqueles angolanos, que na fase das vacas gordas eram identificados como pertencendo a uma chamada classe média, esqueceram-se dos esgotos, escolas, hospitais de referência, lojas e outras instituições de apoio, importantes para que uma determinada comunidade leve uma vida normal, numa cidade que se supunha ser normal também. As enchentes que vi ontem em algumas zonas da centralidade do Dundo, as que têm ocorrido regularmente no KK 5000 e noutras construções no nosso país, levamnos a pensar e a reflectir duas, três, quatro, cinco ou mais vezes sobre que tipos de projectos temos negociado para o país ou para os angolanos…

Há poucos meses, num encontro com um alto responsável do Ministério Chinês das Relações Exteriores, em Beijing, decidimos questioná-lo sobre as imperfeições existentes em algumas empreitadas que envolvem as suas empresas em Angola. Esperançado de que o responsável chinês, que já visitou Angola algumas vezes, incluindo a Centralidade do Kilamba e outras empreitadas, pudesse fazer uma «mea culpa», ele simplesmente atirou: “algumas das coisas estão assim porque foi o vosso desejo”.

Engoli a resposta em seco. Pura e simplesmente. E procurei um canto na sala onde me pudesse esconder, mas não encontrei. Afinal quem dizia aquilo, com pormenores sobre coisas que dizia terem sido solicitadas pelas entidades angolanas, não poderia estar enganado. Mesmo que se tenha manifestado como grande amigo de Angola e dos angolanos, para ele os negócios têm que ser levados longe desta esfera. Como, aliás, se recomenda sempre!

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