O juiz da causa garantiu que os acusados incorrem nos crimes de associação de malfeitores, atentado contra o Presidente da República e posse ilegal de arma de fogo

A 14ª secção de crimes comuns do Tribunal Provincial de Luanda adiou para a próxima Sexta-feira, 2 de Dezembro, o julgamento dos 37 cidadãos suspeitos de terem tentado invadir o Palácio Presidencial e atentar contra a vida do Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

Sob o número 058/16-D.6TPLDA, o julgamento será dirigido pelo juiz João António Eduardo Agostinho. Pesam sobre os acusados, dois dos quais se encontram em fuga, três acusações, nomeadamente de associação de malfeitores, atentado contra ao Presidente da República e posse de arma de fogo.

Segundo apurou O PAÍS, o referido grupo era coordenado pelo cidadão Raimundo Chiquete, coadjuvado por Paulo Cabalamba e Celestino Leonardo.

O grupo dirigido pelos três, segundo informações postas a circular ontem em Luanda, era constituído inicialmente por 60 pessoas, apresentados como sendo ex-militares, alguns dos quais provenientes de tropas especiais das extintas Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA).

Nos momentos iniciais, ter-se-ão reunido nos arredores do mercado do Kikolo, no município de Cacuaco, em Luanda.

Informações avançadas indicam que as fileiras eram constituídas maioritariamente por indivíduos provenientes de províncias como as do Huambo, Benguela, Huíla e Bengo.

Nos dias em que foram detidos, 30 e 31 de Janeiro deste ano, alguns dos seus membros estavam estacionados demoradamente em partes de Luanda, como nas imediações do Hospital Josina Machel, Largo 1º de Maio e Rádio Nacional de Angola.

Os dois supracitados órgãos de comunicação social públicos são indicados como áreas que os acusados pretendiam invadir momentos depois das acções que seriam desenvolvidas no Palácio Presidencial.

A detenção dos mesmos, prosseguem as fontes, foi feita sequencialmente. Terão caído inicialmente na alçada da Polícia Nacional os supostos responsáveis de equipas provenientes de Benguela, posteriormente os de Luanda e só mais tarde os do Huambo.

Dados avançados ontem indicavam que alguns dos elementos do grupo terão sido encontrados com armas e munições. Por outro lado, uma outra fonte assegurou que parte destes meios terão sido adquiridos com apoio do núcleo de Luanda, embora se suspeite que os próprios terão feito contribuições para suprir determinadas necessidades que encaravam, incluindo na aquisição de uniformes.

Na senda desta detenção e anúncio do início do julgamento, circulam também informações de que o grupo pretendeu desenvolver uma primeira acção durante a abertura do ano parlamentar no ano passado. Ao contrário deste ano, o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, acabou por não comparecer à cerimónia, onde deveria apresentar o Estado da Nação. Para o seu lugar foi indigitado o vice-presidente Manuel Vicente. Na altura, a ausência do Presidente deveu-se a “indisposição momentânea”.

É uma forma de intimidação, diz Marcolino Nhany

A UNITA considera que a acusação de que estaria por detrás da suposta tentativa de assalto ao Palácio Presidencial visa desencorajá-la de participar na manifestação de amanhã contra a indicação da engenheira Isabel dos Santos para o cargo de PCA da Sonagol, que está a ser promovida por um grupo de figuras políticas e da sociedade civil.

“É uma das formas de intimidação” afirmou o seu secretário para os Assuntos eleitorais, Victorino Nhany, em declarações a OPAÍS.

Contudo, o dirigente da UNITA descreveu como sendo “séria e preocupante” a acusação que, “de forma indirecta”, é feita ao seu partido como estando por detrás do suposto grupo de ex-militares que pretendia assaltar o Palácio Presidencial da Cidade Alta e ocupar as sedes da Rádio Nacional e da Televisão Pública de Angola.

Nhany disse que o seu partido vai pronunciar-se publicamente sobre o assunto nas próximas horas, mas aproveitou para lembrar que tinha sido a UNITA que, na sua pessoa, denunciara a existência de um grupo de ex-militares das FALA que estariam a ser preparados para realizarem uma acção militar que seria posteriormente atribuída à UNITA.

“Eu fiz duas conferências de imprensa, uma em Agosto, outra em Outubro de 2015, no dia 14, na véspera da abertura do ano legislativo”, lembrou. O dirigente da UNITA disse que já naquela altura o seu partido sabia da existência de tal plano, no qual estariam envolvidos alguns ex-militares. “Sabiámos muito bem que o objectivo era atingir a UNITA. Foi nessa base que nós nos antecipamos denunciando a situação através de duas conferências de imprensa”, disse.

Segundo declarou, o assunto tinha sido entregue à Polícia Nacional “para que pudesse acompanhar e investigar o que se passava”. Acrescentou que o seu partido sabia que “havia algo por detrás contra a UNITA e que, tarde ou cedo, podia vir à tona”. Victorino Nhany concluiu: “não vale a pena arranjarmos situações de intrigas contra o partido que em nada ajudam para o processo de reconciliação nacional”.

 

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