Queridos cidadãos do globo. O espírito de “novo ano” torna-me honradamente grato, para endereçar-vos mais uma, das Cartas Credenciais, mediante as quais sois acreditados como destinatários extraordinários e plenipotenciários em manter e desenvolver relações de estima e cordialidade entre os homens e peço-vos que transmitais a força de espírito e capacidade dos angolanos para uma vida civilizada entre os todos os povos e nações.

Escrevo do Jardim da Cidade Alta. Daqui vejo Luanda como uma cidade de vocação e missão internacionais. Plantada à beira- mar exibe um sorriso azul na cor do Atlântico. Radiante quando observada da janela do avião, acolhe Papás, donos das principais corporações do mundo, executivos, banqueiros, membros da realeza europeia como Princesa Dianna, Secretários Gerais das Nações Unidas, Prémios Nobel, figuras históricas, a elite global em sua plenitude, até Presidentes dos países que são membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas como Sarkozy e François Hollande da França já cá vieram.

Isto torna Angola mais perceptível e viável nas relações internacionais – como terra do diálogo – para o respeito mútuo e idóneo por um mundo mais comunicável de valores, isto é, de tributos, de negociações que emoldurem prestígios fundados no “fair play”. Ora, “fair play” é diplomacia. Um testemunho em receber gente de todos os lugares, distantes e diversos. É assim o pulsar de Luanda, não só na morfologia da sua “luandensidade”, mas sobretudo na confiança que ela inspira, no carácter sincero e forte dos governados e seus governantes, conscientes e serenos.

E lá está a diplomacia como um ritual de linguagens e códigos, cujas mensagens representam signos explícitos e implícitos da esfera internacional e não só, um ritual construindo e trocando ideias entre emissores e receptores sobre uma articulação político-estratégica ou até mesmo comercial e cultural. Sinceramente, pela diplomacia de um país, tanto se mede a política externa, como a política interna, embora na prática não seja assim tão linear como parece. As vezes é chata e trivial, alteia-se de gorduras e rudezas iguais as que se usam na política.

Assim, fazendo um balanço da segunda missão de Angola como membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas, durante o mandato de dois anos (2015-2016), encontramos um fio condutor entre Luanda e a Ordem Mundial, tendo como marca a fórmula conservadora dos Cinco Países Permanentes, liderados, pela hegemonia dos Estados Unidos da América (EUA). A agenda de Angola no CSONU enfatizou três objectivos: defesa dos interesses africanos, por meio do paradigma construtiva capaz de colocar um “deputado” do continente na condição de membro permanente; Paz à base do diálogo, com realce a pedagogia da “diplomacia da paz”; e, na base da Carta da ONU, formular alicerces dotados de autoridade idónea que se configure uma verdadeira governance.

Entre a agenda de intenções e a realidade há um “semáforo” que sugere desagrupar. O Conselho de Segurança opera a regra do realpolitik, comparável a um “jogo de sueca” dos Cinco Membros Permanentes, onde os EUA detêm o “Ás”, o Reino Unido, a “Manilha” e a França, o “Rei” e depois a Rússia com o “Conde” e a China com a “Dama”. Como se pode ver há uma hierarquia de poder, interesse e força, cuja acção é matizada de jogadas de mestre. Logo, o tal “realismo multilateralista” tem assimetrias e precariedades, que mostram que “é tudo truque”. Os outros dez países que gravitam provisoriamente na órbita jamais hão-de decompor tamanha colmeia. E então: Qual foi o “Poder” de Angola no CSONU? Sobre seu o primeiro mandato em 2003-2004, o livro intitulado “Um Século de Sangue, 1914- 2014, As Vinte Guerras Que Mudaram o Mundo”, a diplomacia angolana foi considerada “flutuante”, diante dos debates relativos ao uso de força contra o Iraque no mesmo período.

Entretanto, o livro omite que poucos dias antes desta odisseia dos EUA, Luanda recebeu Collin Powel na altura Secretário de Estado dos EUA, o então ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Dominique de Villepin e diplomatas britânicos, bem como da Rússia. Os EUA como uma “velha raposa” fez com que a votação não ocorresse no CSONU, o que levou Angola a “não flutuar”, mas, prontamente contrapôs. O Ministro das Relações Exteriores, George Chicoti, na altura vice- Ministro em pleno Washington DC proferiu: “não deveriam ser os países menos fortes a carregarem o ónus de uma decisão desta natureza”.

Os actores deste livro, se tivessem que reflectir o mandato que ora termina, teriam mudado de opinião, pois, o país mostrou coerência e compromisso. Participou do “creme” que eleigeu António Guterres a Secretário- Geral da ONU e mais, mostrou “cartão amarelo” ao Tribunal Penal Internacional que só “apita” falta contra a África e por fim, votou contra os colonatos de Israel na Palestina. Em dez anos, Angola protagonizou dois mandatos, o que em termos formais só seria possível dentro de trinta anos. Agora, atendendo, ao “fecho” do ciclo do Presidente José Eduardo dos Santos, apontado para 2018, seria de justiça, conduzir uma das reuniões do CSONU. Mas, na vida como na diplomacia, quem muita abarca pouco aperta. Se isto é bom ou mau, só o tempo dirá.

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