Rui Isaac, que se apresentou como membro do Conselho Presidencial da CASA-CE, decidiu abandonar ontem esta formação política e teceu duras críticas ao líder Abel Chivukuvuku, incluindo a falta de lealdade. Lindo Tito nega que ele ocupasse cargos de relevância na coligação e desejou-lhe apenas ‘boa sorte na nossa missão’

O presidente da CASA- CE, Abel Epalanga Chivukuvuku, foi acusado por um antigo responsável desta formação, Rui Isaac, de ter conspirado contra a UNITA enquanto membro deste partido durante o último congresso em que este participou.

De acordo com Rui Isaac, que decidiu ontem, Quinta-feira, 2 de Fevereiro, romper com a coligação, o líder da terceira força política na Assembleia Nacional já fazia reuniões para formar a CASA enquanto concorria para a presidência da UNITA contra Isaías Samakuva, em 2011.

Na altura, mesmo depois de ele e outros actuais responsáveis da CASA-CE terem sido contactados para ingressarem neste projecto político, Chivukuvuku garantira que aquele seria ‘o seu último ano na UNITA, razão pela qual não se deveriam incomodar com o facto de estar a concorrer para a presidência’.

No dia da eleição, em que o actual número um da CASA perdeu contra Samakuva, Abel ainda lhe terá dado garantias, através de uma ligação, para que continuasse em busca de novos membros para o partido que tencionava criar.

‘Ele vai ao Congresso da UNITA. No último dia ligou-me às 21 horas para saber como estava. Disse-me: não te preocupes, este é o meu último Congresso. Assim que sair virás até minha casa’, contou Rui Isaac, explicando que no dia do encontro o antigo líder parlamentar da UNITA ‘pediu-lhe ainda que contactas-se alguns partidos políticos, assim como cidadãos independentes que se encontravam descontentes com o regime’.

Conhecedor dos meandros da formação da CASA, cujos encontros iniciais ocorreram numa quinta no bairro Benfica, descritoa como pertença de Chivukuvuku, Rui Isaac explicou que umas das primeiras missões que lhe foram incumbidas foi tentar convencer o advogado e líder do Partido Popular, David Mendes, a coligar-se com o responsável máximo da coligação amarela e azul, propondo-lhe um lugar de vice-presidente e outro cimeiro na lista de deputados.

Com ambições próprias, David Mendes, que também não esconde a sua ambição de um dia chegar à Presidência da República, recusou o convite de Abel Chivukuvuku. Preferia esperar por uma ‘aventura eleitoral’ este ano, 2017, não se sabendo se concorrerá com uma outra força política.

“Com a rejeição”, continua Isaac, “a estratégia foi urdir um formato que integrasse entidades provenientes dos principais grupos étnicos do país, entre os quais os kimbundu, umbundu, tchokwé e kikongos. Foi neste âmbito que políticos como Manuel Fernandes, líder do PALMA e antigo presidente dos Partidos da Oposição Civil (POC), e o Partido Independente Revolucionário (PIR) aderiram ao projecto, alicerçados pela criação de delegações independentes, uma delas dirigida por um dissidente da UNITA (com Leonel Gomes à cabeça), assim como Sikonda Lulendo Alexandre (Partido Nacional de Salvação de Angola- PNSA) e Alberto Manuel Muanza.

Devido ao seu percurso atribulado no Partido de Renovação Social (PRS), onde chegou a liderar uma ‘facção’ contrária a Eduardo Kuangana, o nome de Eduardo Muatchicungo não foi aprovado para se juntar aos promotores da CASA, tendo posteriormente recorrido a Lindo Bernardo Tito.

‘Falei com o (Lindo Bernardo) Tito no Bellas Shopping. Disse-me que iria contactar primeiro a família e que eu poderia dar o número telefónico dele ao Abel (Chivukuvuku)’, contou Rui Isaac, acrescentando que ‘nós é que trabalhamos nos acordos que fizeram a casa”.

Acordos ‘secretos’

O demissionário, acabado de regressar ao MPLA, explicou que após o Congresso Constitutivo da CASA foi nomeado secretário executivo nacional adjunto, numa fase em que Abel Chivukuvuku garantira ao grupo que as suas previsões apontavam para um máximo de 35 deputados nas eleições de 2012, o que não veio a acontecer.

Não tendo sido cooptado para os oito lugares conseguidos no último pleito eleitoral, Rui Isaac apresentou este facto como uma das razões que o levaram a abandonar a coligação, uma vez que se sentiu defraudado. Por ter supostamente contribuído para a afirmação da coligação, não viu de bom grado o seu nome ser arrastado para o longínquo 18º lugar, muito distante até da então aspirante à Presidente da República Luizete Araújo (n.º14).

A não ida de alguns integrantes da coligação ao Parlamento, de acordo com Rui Isaac, terá resultado na feitura de alguns acordos secretos entre o presidente Chivukuvuku e líderes de alguns partidos políticos.

Estes, entre os quais responsáveis do Partido Pacífico Angolano (PPA) e do Partido Nacional de Salvação de Angola (PNSA), terão solicitado ao líder a entrada de algumas quantias em dinheiro, assim como meios automóveis para uso pessoal e apoio às suas residências, à semelhança do que acontece com os parlamentares.

‘Chegaram à conclusão de que cada um deveria receber 500 mil Kwanzas/mês e os partidos igual montante. Fez-se uma concertação sem comunicar aos independentes’, explicou ainda, realçando que ‘Abel (Chivukuvuku) disse-me que era uma chantagem e não tinha outra alternativa, se não aceitasse, a situação ia descambar numa crise’.

Inconformado com o que se passou, o político diz-se defraudado com o seu antigo presidente, que antes pensava ser ‘um homem de princípios’. Passados cerca de cinco anos desde as eleições, considera-o ‘não humano’ e ‘alguém capaz de não se sentir sensibilizado com o sofrimento das pessoas’. ‘Salvar Angola, realizar Angola e fazer uma Angola melhor é uma tarefa que a CASA-CE não vai conseguir.

Abel é refém destes partidos. Ele nunca vai conseguir transformar a coligação num partido político’, garantiu. ‘Hoje a CASA-CE não tem seriedade nem honestidade. Aos comissários eleitorais exige-se um pagamento de 20 por cento dos subsídios que recebem na Comissão Eleitoral. Os do PALMA têm que pagar 30 por cento, caso contrários são ameaçados de terem os cargos em risco e serem substituídos’.

‘Desejamos apenas boa sorte’

Contactado por este jornal, Lindo Bernardo Tito rejeitou inicialmente ter sido convidado por Rui Isaac para ingressar à CASA-CE, salientando que o processo foi contrário. O político, que hoje ocupa a vice-presidência para a Informação, salientou que não é intenção da força política a que pertence rebater as acusações feitas.

‘O que aconteceu foi uma manifestação de interesse no quadro dos seus direitos. Ele pode escolher o partido que quiser gozar dos seus direitos, porque na CASA-CE, tal como ele entrou, também pode sair’, disse Tito.

O deputado negou que ele pertencesse aos órgãos de direcção, ao contrário do que apregou, e até que tenha ocupado o cargo de secretário executivo adjunto. Reconheceu que era sim comissário do seu partido na Lunda-Sul, o que aconteceu a seu pedido, “mas há cerca de sete meses que não pisa no referido território, razão pela qual a sua posição junto do secretário provincial não é das melhores”.

‘Posso garantir que não há acordos secretos. Os acordos estão no Tribunal Constitucional e Abel (Chivukuvuku) tem sido aberto’, ripostou Lindo Tito, atirando que ‘ele próprio também não prestou contas’.

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