No Cuito, o candidato do MPLA a Presidente da República voltou a falar do emprego, da reconciliação nacional e lançou farpas à UNITA, “causadora do cemitério monumento daquela cidade que alberga mais de sete mil corpos caídos “no cerco ao Cuito”, imposto por este partido durante a guerra civil angolana.

enviadoJoão Lourenço proferiu, esta Terça-feira, 1 de Agosto, no Cuito, capital da província do Bié, na Praça da Solidariedade, perante 120 mil pessoas, segundo a organização, um discurso assente essencialmente em quatro pilares: a mulher, a produção camponesa, energia e industrialização e reconciliação nacional. Com efeito, e tendo-se comemorado no dia anterior, 31 de Julho, o Dia da Mulher Africana, o candidato do MPLA aproveitou para “render uma homenagem especial à mulher doméstica rural, que produz para o sustento familiar e cria excedentes que são evacuados para o comércio”.

Antes tinha já saudado as mulheres bienas, angolanas e africanas. A biena em especial, que considera corajosa, que nos dias mais difíceis da cidade, quando faltava a coagem a muitos, ela atravessava a cidade, debaixo de fogo para procurar pelos seus, alguns tombados heroicamente para que Angola vivesse hoje em paz. O governo do MPLA que sair das eleições de 23 de Agosto, prometeu, criará condições que facilitem a vida da mulher rural, com programas para a agricultura familiar e com a distribuição atempada de sementes e fertilizantes.

“Vamos fazer com que a entrega atempada de adubos e de sementes seja uma rotina, que cheguem sempre e atempadamente”. O propósito, explicou, é a redução da pobreza com o desenvolvimento da agricultura familiar, já que os empresários agrícolas, estes têm outras soluções e meios, como a obtenção de créditos bancários para a exploração de extensas áreas de terra. Os camponeses, estes sim, precisam da ajuda do governo para melhorar a cesta básica dos angolanos. Mas avançou, “não se pode falar de camponeses sem se falar do Bié, situado no planalto central angolano, e que, tal como o planalto de Camabatela, tem um clima propício à agricultura e, sobretudo, gente com tradição de trabalhar o campo”.

De seguida, João Lourenço abordou outro tema, o da industrialização, que precisa de energia. Referiu que o Governo tem investido na energia barata, a hidroeléctrica, nomeadamente com os investimentos que têm sido feitos ao longo do curso do rio Cuanza, um rio que nasce no Bié e que Lourenço considera pertença dos bienos e, como tal, também os bienos devem beneficiar da energia das centrais de Capanda, Laúca e Caculo Cabaça, cuja construção, esta última, deverá ter início brevemente. Capanda, Laúca e Cambambe, como se sabe, já estão em operação, sendo que as duas primeiras e o alteamento da terceira são obras deste Governo. “Podemos dizer que vocês são os donos do rio”, disse. “Se o resto do país tem energia eléctrica é graças ao vosso rio, é justo que a energia produzida nestas barragens alimente também o Bié.

É justo fazer esta exigência”, avançou. Entretanto, para o esforço de desenvolvimento e industrialização, o país, considerou, não pode abandonar a energia térmica. Depois, João Lourenço referiu-se à indústria, dizendo que o país já teve pólos industriais fortes que produziam quase tudo. Luanda já foi uma praça industrial forte, tal como Benguela e o Huambo (vizinho do Bié). “Deixamos de ter essa indústria porque os que hoje se dizem democratas dinamitaram a nossa indústria”.

Destruíram a indústria angolana. Enquanto a missão de uns foi destruir, a nossa missão é repor a indústria destruída”. E continuou: “Vamos repor a indústria para produzir bens e também para resolver o problema do emprego”. Continuando a lançar farpas ao segundo maior partido angolano, e líder da Oposição, a UNITA, embora sem a referir explicitamente, Lourenço continuou: “Os que destruíram a nossa indústria e, como tal, os postos de trabalho, são os mesmos que hoje vêm dizer que a juventude não tem emprego. Mas só falam a verdade incompleta, deveriam dizer que a juventude não tem emprego porque lhes tiramos esta possibilidade, lhes tiramos os postos de trabalho”.

E continuou dizendo que o seu Governo vai repor os postos de trabalho, investindo na indústria. Ainda sobre o desemprego, referiu que muita gente se deslocou do Bié e de outros locais para Luanda, entre eles camponeses, o que os impossibilitou arranjar empregos numa área essencialmente urbana, onde estavam mais seguros, embora alguns tivessem fugido apenas com a roupa que tinham no corpo, no tempo da guerra. “No dia 23 de Agosto, votar no MPLA e no seu candidato é votar no emprego. Não votem nos que acabaram com o emprego”, alertou.

Cidade do perdão

“Mesmo sem ser padre, hoje vou dar um nome a esta cidade, vou baptizá-la. Para mim, esta cidade deveria chamar-se “Cidade do Perdão”. É a cidade da tolerância”. João Lourenço falava da contribuição do povo do Cuito nos esforços de reconciliação nacional, tendo como ponto de partida os milhares de corpos que jazem no Cemitério Monumento, vítimas do cerco imposto ao Cuito na guerra civil angolana. “Vocês souberam perdoar, contribuíram para que a reconciliação nacional vingasse. Os que sabem perdoar no dia 23 vão votar no MPLA”, disse. E depois mais uma farpa à UNITA.

“Se o Presidente da República não fosse o Presidente do MPLA, os causadores daquele cemitério teriam perdoado? Eles perdoariam se as coisas fossem invertidas?”, questionou, para depois dizer que ‘o MPLA é o partido da tolerância’. Antes de chegar ao local do comício de ontem, João Lourenço visitou o Cemitério Monumento dos Mártires do Cuito” e fez questão de o referir quando falava aos bienos. Tendo dito que gostaria de pedir aos eleitores do Bié que tivessem bem presente a imagem daquele cemitério quando forem votar. “Esta cidade não precisava de ter aquele cemitério, mas houve a necessidade de o visitar para honrar os milhares de cidadãos que disseram não a balcanização do país”. Depois, fez questão de dizer que as duas localidades com o nome Cuito, em Angola, coincidem em terem escrito “algumas das páginas da história da nossa resistência”. “A melhor forma de honrar a memória dos mártires do Cuito é votar no MPLA”.

A visita aos mártires

Segundo uma fonte deste jornal, um alto dirigente do MPLA, a visita do vice-presidente do seu partido e candidato a Presidente da República ao Cemitério Monumento do Cuito (Bié) “não se tratou de um olhar ao conflito armado, mas sim um reconhecimento aos heróis e mártires da pátria, que com o seu sentido de dever para com o país e para com o povo, com a sua coragem, bravura e estoicismo contribuiram decisivamente para a salvaguarda de uma Angola em liberdade e em democracia. O nosso reconhecimento e gratidão aos que mantiveram a alma do país que somos”.

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