O Governo disponibilizou, em 2013, mais de 423 milhões de kwanzas para apoiar as actividades artístico-culturais em todo o país. Todavia, este valor não tem conhecido efeito algum na vida dos criadores e da sociedade, pelo facto de não se exercer uma gestão adequada e rigorosa dos respectivos fundos. Este problema, segundo António Tomás Ana “Etona”, transforma a esfera cultural num autêntico “Roque Santeiro”

A questão do apoio às actividades artísticas e culturais tem sido tema da actualidade, debatido nas rádios e em diversos encontros entre artis­tas. Ciente dos problemas existentes, o secretário-geral da União Nacional dos Artistas Plásticos, António Tomás Ana “Etona”, realçou que o Ministé­rio da Cultura deveria trabalhar com as tradicionais associações, a exem­plo da UNAP, da União Nacional dos Artistas e Compositores, da União dos Escritores Angolanos, entre outras, para auxiliarem o referido ministério.

“Actualmente o sector da cultu­ra angolana transformou-se num autêntico Roque Santeiro. Quando alguém aparece na media é para falar do lançamento do seu livro, do seu CD ou da sua exposição de artes plásticas, porém, precisamos de indivíduos que defendam com unhas e dentes a essência da nossa cultura”, rematou Etona. O desa­parecimento físico de Gabriela An­tunes, Henriques Abranches, Vítor Teixeira “Viteix” e de Tírcio Ama­ral, segundo ele, deixou uma lacuna gritante na vida dos artistas nacio­nais, porque foram indivíduos que sempre defenderam a melhoria do tecido associativo cultural, com as suas contribuições valiosas, tendo sustentado que é por essa razão que agora ‘cada um faz das suas’ sem que ninguém diga absolutamente nada.

Por ser um processo antigo, a con­cessão do Fundo de Apoio do Estado às Actividades Artísticas e Culturais (FAEAAC), Etona sugere a criação de novos métodos de distribuição dos referidos incentivos com vista a ala­vancar resultados benéficos para to­dos os criadores, assim como para a sociedade angolana, o que não acon­teceu nos últimos anos, tendo sus­tentado que a falta de uma comissão de gestão e fiscalização permite que os artistas invistam as tais verbas em projectos pessoais.

Essa triste realidade obriga a mu­danças nas estratégias e nos métodos de aplicação do FAEAAC, relativamen­te aos dos anos transactos. No seu en­tender, o Ministério da Cultura deve fazer um balanço relativamente à ges­tão dos apoios, desde a sua instituição, para que se possam avaliar os respecti­vos ganhos e perdas, muito antes de se apostar noutros projectos, para que os mesmos gozem de credibilidade jun­to da classe artística. “O que acontece é que se dá um milhão de kwanzas a um artista plástico e essa quantia serve apenas para comprar alguns materiais para uma determinada exposição. E outros, adquirem fatos novos, con­certam o carro, enfim, esbanjam o dinheiro”, desabafou, tendo ainda re­conhecido que, mesmo assim , houve algum aproveitamento, mas que deve mesmo haver mais controlo para que os resultados justifiquem o investi­mento do Estado.

Segundo apurou OPAÍS, o Governo disponibiliza, anualmente, mais de 423 milhões de kwanzas, através do Fundo de Apoio do Estado às Activi­dades Artísticas e Culturais. Porém, deste valor beneficiam 10 artistas, que individualmente recebem um milhão de kwanzas, absorvendo assim 10 mi­lhões. Portanto, da mesma forma que se desconhece o destino dos respecti­vos apoios, também não se conhece o paradeiro dos excedentes.

‘Não se pode trabalhar com os falecidos’

 EtonaA outra questão levantada pelo secretário-geral da UNAP con­siste no facto de haver inúmeros projectos culturais geridos por indivíduos que, na sua opinião, se encontram mortos artisticamente, sem terem o domínio do sector em que laboram.

“Essa situação permite que os apoios, ao invés de beneficiarem os artistas angolanos, beneficiam os estrangeiros, com todo o respeito”, sublinhou o interlocutor, tendo sugerido um encontro entre os diversos promotores, associações e agentes culturais, a fim de debate­rem, de forma clara, as políticas do sector, cujo objectivo se centra na promoção e valorização da cultura nacional.

Frisou também que injectar simplesmente dinheiro num indi­víduo não resulta em investimento. Importa, refere, mas termos a ca­pacidade de nos avaliarmos e não esperar que o brasileiro o faça, por isso, a cultura está nesta desordem total”, reconhecendo que a sua as­censão nas artes plásticas se deveu ao referido fundo. Neste contexto, gostaria que os seus correligioná­rios seguissem o seu exemplo.

Sem avançar nomes, o entre­vistado disse que não se justifica que, tendo sido contemplado pelo apoio, passados alguns meses ou anos alguém venha a merecer novamente de apoios do mesmo programa; o que mostra claramen­te que alguma coisa não está bem, salientado que existem pessoas que beneficiam do programa há quarenta anos, cabendo ao Governo conscien­cializá-las dado que, em condições normais, tal não se admite.

“Não é o Governo que tem de fazer cultura, mas sim tem a responsabi­lidade de acompanhar e gerir. En­tretanto, a execução dos programas é uma tarefa das associações e dos agentes culturais. Quando o Ministé­rio da Cultura quer igualmente ven­der ‘cabaças’, ficamos nesse cenário deprimente”, desabafou, tendo lembrado que já sugeriu inúmeras vezes a criação de uma comissão de gestão, mas a mesma proposta foi mal interpretada, resultando nesse ‘lenga-lenga’.

Solicitado a resumir a situação, Etona declarou, em alta voz, que todos os artistas nacionais bene­ficiaram do Fundo de Apoio do Estado às Actividades Artísticas e Culturais, alegando que o Governo sempre “meteu” dinheiro, cabendo aos seus colegas aproveitarem do mesmo incentivo, reiterando, mais uma vez, ser necessário haver mais controlo com vista a proporcionar melhores condições aos agregados à UNAP, à UNAC, à UEA e a outras associações culturais. Os referidos apoios abrangerão a música, artes plásticas, dança, teatro e outras manifestações artístico-culturais. O fundo visa comparticipar no plano financeiro do processo de desenvolvimento de projectos dos agentes culturais, artistas, edito­res, livreiros, escritores, associa­ções e investigadores.

‘Não se entende as políticas culturais em Angola’

 A equipa desta reportagem percorreu os diferentes municípios da urbe lu­andense com o intuito de ouvir alguns artistas que enviaram os seus projec­tos para o Ministério da Cultura, bem como para a União Nacional dos Ar­tistas e Compositores (UNAC-S.A). A maioria dos criadores, contudo, recu­sou-se a prestar qualquer informação.

Preocupado com a morosidade da concessão dos apoios, João Mário, guitarrista, morador do município de Viana, descreveu que já remeteu dois projectos às supracitadas instituições, cujo teor se resume na construção de uma “Escola de Música Popular Ur­bana” mas, até à data, não recebeu qualquer resposta, o que o deixa sem entender as políticas do nosso siste­ma cultural. “Fundos como esses, de Apoio às Actividades Artísticas e Cul­turais, são uma forma de o Governo incentivar os talentosos. Todavia, o Ministério da Cultura deveria priorizar aqueles projectos que visam conser­var o património imaterial da nossa cultura, mas não é isso que se tem ve­rificado”, deplorou o guitarrista, que tem mais de 30 anos de carreira.

A par de João Mário, estão Chico Madne, Simão N’Singi “Tedy”, entre outros artistas, que esperam o aval do órgão gestor do fundo, o Ministério da Cultura. Para o interlocutor, contri­buir para o resgate da “pura música angolana” é o único elemento que o enche de força para continuar a es­perar, enquanto passa o seu conheci­mento aos jovens cantores sem nada cobrar, porque, segundo ele, estão a executar de forma errada a nossa mú­sica.

De referir que o projecto da “Es­cola de Música Popular Urbana” fora entregue ao Ministério da Cultura e, consequentemente, à União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-S.A) no ano passado e que os propo­nentes se encontram arreliados por desconhecerem o seu paradeiro. Segundo apurou OPAÍS, o referido esboço esteve entre os seleccionados mas, mesmo assim, não houve qual­quer resultado.

‘A música angolana está a mor­rer a cada dia que passa’

João MárioQuando o assunto diz respeito à música popular angolana, João Má­rio, Tedy, Quintino, entre outros executantes, encontram-se no cimo da questão. Porque, desde tempos remotos, a aprendizagem da músi­ca popular sempre ocorreu espon­taneamente. Nessa espontaneidade, Mário e outros instrumentistas estão dispostos a salvar essa expressão artístico-musical de elevada sensi­bilidade. “Hoje vê-se no mercado musical nacional um vasto leque de estilos que não valorizam a nossa ri­queza linguística, muitos menos os nossos traços histórico-culturais. O resgate desses valores consubstan­cia-se na minha luta diária”, afir­mou João Mário, tendo acrescentado que a falta de escolas viradas às so­noridades nacionais, como o Semba, a Rebita, a Rumba, o Merengue, a Kazukuta e a Kilapanga, tem con­tribuido para que a música angolana morra gradualmente.

Prosseguiu dizendo que o Mincult e o Ministério da Comunicação So­cial deveriam assinar alguns acordos, com vista a promover cada vez mais os nossos ritmos, porque se divulga bastante a música estrangeira, ma­tando assim a essência musical ango­lana, considerando que “não se pode seguir as pegadas de Bangão sem que existam estruturas de base”. Para João Mário, daqui a 15 anos não existirão os estilos nacionais. A outra preocupação do artista prende-se com a discrimi­nação que os promotores e agentes culturais têm feito nos diversos es­pectáculos, impedindo o intercâmbio entre a velha geração e a nova, sendo que anteriormente havia essa aber­tura, permitindo a massificação das nossas harmonias. Defendeu, por sua vez, que o Semba é uma propriedade dos musseques e que, por essa razão, deve haver mecanismos que dão su­porte aos artistas dessas zonas. Por seu turno, a equipa dessa reportagem contactou, telefonicamente, o direc­tor do gabinete jurídico do Ministério da Cultura, Aguinaldo Cristóvão mas, até ao fecho desta edição, não rece­bemos qualquer resposta da parte do responsável.

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