Uma visita aos arquivos do Governo provincial ainda permite encontrar uma relíquia. É parte integrante do consulado de três anos que João Lourenço teve à frente dos destinos da província de Benguela. Trata-se do seu secretário na década de 1980: Denexa Dessai, angolano com origens indianas. Dessai cruzou os caminhos de João Lourenço no longíquo ano de 1982, na província do Moxico, após ter exercido a função de administrador do posto comando do Lutembo, em 1974, sob proposta do Governo Português, a 360 quilómetros do Luena, município sede da província.

Nesta altura, a amizade entre o agora cabeça de lista e o então cidadão indiano intensificou-se. Em 1984, quando Lourenço assumiu as funções de Comissário Provincial do Moxico, propôslhe que fosse trabalhar consigo como director do seu gabinete, dada a experiência por este acumulada à frente do posto comando. Contudo, no Despacho do Comissário, datado de 1984, reza que “considerando que Dinexai Dessai, técnico médio, do quadro Ministério da Coordenação Provincial, ao longo de vários anos procurou cumprir com a melhor boa vontade e lealdade, demonstrando excepcionais qualidades morais e profissionais, competência profissional”; o comissário, usando das faculdades que lhe eram conferidas nos termos do artigo 13º, do Decreto nº19/82, de 16 de Abril, conjugado o artigo 11º do Decreto nº94/83, de 7 de Junho, nomeava-o para, em comissão de serviço, exercer as funções chefe do Gabinete do comissário Provincial do Moxico.

“Trabalhei durante 5 anos”

Mais tarde, já em 1986, o então comissário de Benguela dirigia- se ao seu homólogo do Moxico solicitando, por via de uma mensagem formal a que OPAÍS teve agora acesso, que lhe fosse enviado o funcionário Dessai “para trabalhar comigo”, lê-se. Na mensagem, João Lourenço avançara, inclusive: “tenho conhecimento que o mesmo já manifestou interesse em vir trabalhar em outra província”, pedindo encarecidamente pelo funcionário de “confiança”. Dessai recorda com nostalgia aquele momento. Conta que “ele (João Lourenço) precisava de alguém de confiança e então decidiu chamar-me para trabalhar.

E ele era uma pessoa muito rigorosa e não brincava em trabalho”. “Veja lá, antes de ter trabalhado com ele, estive a auxiliar igualmente os comissários Armando Fandamo Dembo, Celestino Chinhama Faísca e o comandante Dangereux”, acrescentou o antigo secretário. Em 1986, João Lourenço cessa as suas funções enquanto comissário do Moxico, sendo indigitado para o mesmo cargo em Benguela. Havendo alguém com quem já trabalhara e mantinha uma certa amizade, o agora candidato do MPLA decidiu, a 22 de Março de 1986, escrever para a direcção do Comissariado do Moxico, solicitando o funcionário.

Apesar do tempo, Dessai recorda que foi enviado um avião Antonov para ir buscá-lo e a família. E dias depois começou logo a trabalhar no Governo de Benguela com uma nova função: chefe de secretaria. Ocupou o referido posto durante cinco anos. “Quando cheguei cá, ele orientou o senhor Herculano, que era o delegado da habitação, para arrendar uma residência já mobilada para mim e para a minha família. E no segundo dia fui apresentar-me e comecei a trabalhar”, lembra. Entretanto, de acordo com a II série do Diário da República nº24, datado de 23 de Março de 1985, a que OPAÍS teve acesso, comissário provincial era o órgão executivo da Assembleia Popular Provincial e, consequentemente, o órgão supremo da administração do Estado ao nível local.

“Ele foi sempre humilde e bastante calmo”

jloMais de trinta anos depois do primeiro encontro com João Lourenço, o antigo secretário recorda o antigo chefe como sendo um bom líder. Segundo Dessai, sempre foi uma pessoa muito meiga e com elevado sentido de humildade. Também, disse, não se recorda de nenhuma infracção que tivesse cometido e que tivesse resultado em alguma sanção por parte de João Lourenço. “Durante este período, todo o trabalho foi óptimo, sem qualquer atropelo”, realça. Na qualidade de secretário, Dessai garante ter cumprido com zelo e abnegação as orientações emanadas pelo seu superior hierárquico.

O nosso interlocutor conta que ele era bastante rigoroso e obrigava a que os seus colaboradores também o fossem, cumprindo pontualmente as suas tarefas, para que os objectivos fossem alcançados sem constrangimentos. “Ele foi sempre muito humilde e bastante calmo. Durante os anos que trabalhei com ele, tanto em Benguela como no Moxico, não me recordo de nenhuma chamada de atenção feita com arrogância. Ele sempre foi fiel e humilde”, afirmou o ancião, que espera encontrar- se com o actual candidato do MPLA a Presidente da República na visita que este efectuará a partir de amanhã, Sexta-feira,7, à província de Benguela.

Dessai, que milita no MPLA desde 1980, mostra-se esperançado numa possível vitória do seu partido nas eleições aprazadas de 23 de Agosto próximo. Por isso, gostaria também de marcar presença na cerimónia de investidura do futuro Presidente da República, caso o homem que serviu como secretário há mais de três décadas vença o pleito.

Afinal, há muito que os caminhos deste indiano que ganhou nacionalidade angolana na década de 1980, pelos relevantes serviços à luta de libertação nacional, e do actual vice-presidente do MPLA não se cruzam. Quando João Lourenço deixou a província de Benguela, Dessai preferiu ficar nas terras das Acácias Rubras, servindo, desta vez, o então governador e ex-secretário do MPLA para as Relações Exteriores, Paulo Teixeira Jorge.

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