Ontem, Sábado, 12 de Agosto de 2017, comemorou- se o Dia Internacional da Juventude. Como tal, na cidade das “Acácias Rubras”, cidadãos pertencentes a esta franja da população fizeram uma avaliação das acções desenvolvidas pela Direcção Provincial da Juventude local

O PAÍS saiu à rua no município de Benguela, para saber o que os jovens pensam do desempenho da repartição local que responde pelas políticas direccionadas à Juventude e ao Desporto.

Opiniões auscultadas numa jornada pedestre, em contacto com os transeuntes jovens que pelas avenidas das acácias andavam, deram a conhecer que, nas suas perspectivas, o papel dessa direcção provincial “não se faz sentir”, passando mesmo despercebido. Na caminhada, António Gomes, 43 anos, interpelou OPAÍS para dar um parecer.

“A juventude da outra época era melhor”, realçando ser fruto “da educação familiar.” Hoje, segundo ele, “está limitada, frustrada, não encontram lazer”. Enquanto garoto, os jovens tinham várias alternativas promovidas pelo governo, entre culturais, desportivas, artísticas e a oportunidade de aprenderem uma profissão nos internatos, tendo sido num destes que descobriu a sua: electricista.

Uma conversa com o director provincial da juventude
Recentemente, João Ricardo, director provincial da área, expôs a este jornal que o MPLA está a “trabalhar para encontrar os melhores caminhos para que a juventude esteja capacitada para assumir os destinos do país.” Não sendo concreto quanto ao que correu mal na gestão juvenil nos últimos anos, adiantou que a crise financeira teve impacto neste sector demográfico: “aquilo que o jovem mais reclama são as oportunidades de emprego”. Questionado sobre a taxa de desemprego da mocidade local, uma vez que, claramente, se agravou de há alguns anos para cá, respondeu: “acredito no meu partido, tudo vai fazer para corrigirmos as assimetrias do passado”.

Da escola para o Estado

Uma vez que se vê recorrentemente na sociedade, adolescentes e jovens adultos que frequentam a escola, ou a universidade, com o objectivo final de ingressar na função pública, trabalhar para o Estado, João Ricardo reprova esse pensamento. Admitiu que em Angola “o Estado é o maior empregador”, contrastando com “os países mais evoluídos dos mundo”, onde “o Estado não é o maior empregador”. Mas pensa que o quadro deverá ser revertido no país.

Para tal, “o Governo tem estado a trabalhar nas oficinas para qualificação técnica dos jovens”, assim como na “abertura de mais estabelecimentos de ensino superior”. “Para os jovens licenciarem- se e serem autónomos, empreendedores”, justificou. Perante esta problemática, uma intervenção da direcção provincial no estabelecimento de parcerias entre institutos superiores e empresariado, proporcionando aos jovens oportunidades de estágio e emprego, seria bemvinda.

Sobre isso, o político defende que “essa responsabilidade acaba por ser da instituição” de ensino. Realça que “nós também temos políticas e, no passado, já se trabalhou nesse sentido, que são os estágios nas grandes empresas.” Todavia, já lá vai esse tempo. Segundo disse o director provincial da Juventude, essas parcerias exigiam “pressupostos, logística, e transporte que nesta altura não temos. Como tal, não podemos atender a essa possibilidade”.

Jovens benguelenses não sentem acção da direcção tutelar

Samuel Chitunda, técnico de frio, 26 anos, sobre o trabalho do órgão local de tutela, relatou: “Vejo pouco, não tem muita acção”, ressaltando que os programas juvenis provinciais são voltados para o partido no poder. Do seu ponto de vista, “até agora não se fez nada”, a direcção deveria ser dinâmica, com grande papel sensibilizador, dando apoios nas áreas de maior dificuldade juvenil, ouvindo-os, sendo intermediários entre as demais instituições. Já Luís Capango, 29 anos, recordou que, “antigamente, a juventude tinha sempre aquelas actividades que contribuem para o seu desenvolvimento”. Hoje, acha que os encontros da direcção precisam de inovação, são repetitivos, não cativam.

Críticas e conselhos dos alvos da repartição

Celestina Feka sonha ser psicóloga. Nascida na Ganda, tem 28 anos e é funcionária doméstica há 6. Sabe onde se localiza a direcção juvenil, mas “nunca me interessei em saber quais são as actividades realizadas.” Uma jovem professora de 32 anos lecciona todas as disciplinas do 5º ano de escolaridade pensa que “a acção da direcção provincial da Juventude deixa muito a desejar”, aconselhando-os a uma maior divulgação.

Milton Gonzaga tem 29 anos, mais de vinte vividos em Benguela. O jovem pensa que “a direcção provincial tem envidado alguns esforços no desporto, alguns centros de formação, recreação mas, a maior percentagem está por fazer.” Na sua perspectiva, os problemas são evidentes, pois “há muitos jovens envolvidos em criminalidade, bebidas alcoólicas, drogas”, um indicativo indiscutível de que “há que se fazer muito trabalho”.

A criação de mais associações juvenis seria uma saída. Já António Sapalo, moto-taxista, 29 anos, destacou que as actividades do órgão tutelar estão mais voltadas para os desportos do que para o desenvolvimento da juventude. Para ele, só uma minoria da juventude se preocupa com o futuro. A frequentar o 4º ano de direito, Eurídice Morais tem 22 anos.

Desempregada, nunca trabalhou. A cidadã não sabia da existência da Direcção Provincial da Juventude, tomando conhecimento apenas na entrevista. Inconformada com tudo o que vê de negativo na mocidade Benguelense, acha que é um reflexo de que a direcção provincial, acabada de conhecer, não está a desempenhar o seu papel.

Um sonho jovem: da contabilidade para a teologia

Francisco Tchindunda, benguelense de 23 anos de idade, encontrava- se encostado a um muro, a ler um livro religioso, intitulado “Planeta em Rebelião”, quando foi interpelado por O PAÍS. Para ele, a realidade da maioria dos jovens benguelenses é “muito triste, não têm objectivos, não estão interessados em apostar nos estudos.”

A sorte é o que “a igreja tem estado a fazer”. Matriculado no 12º ano, em contabilidade, tem um negócio ambulante de venda de óculos de sol e armações, há dois anos. Anteriormente, comercializava gasosas, contudo, com a subida dos preços de aquisição perdeu a margem de lucro.

No fim do mês, após pagar despesas e obrigações, diz conseguir poupar uma pequena quantia, que está salvaguardada no banco. Pensa usar esta poupança dentro de três anos para pagar a licenciatura em Teologia, no Huambo.

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