O sector empresarial, na província de Benguela, tem sentido profundamente os efeitos negativos da crise financeira que se vive, sendo a construção civil, o segmento que se revela como o mais afectado.

Considerando o tema sugestivo, o economista Henrique Pascoal disse que “falar de Benguela não foge da conjuntura que o país está a atravessar”. No sua óptica, “a província estagnou, parou”, uma vez que, “os indicadores de crescimento e desenvolvimento de uma região”, revelam que “nós estamos muito aquém do esperado”. Ressaltem-se os inquietantes índices de desemprego, atendendo que “vimos muitas empresas, principalmente do ramo da construção, abandonarem o nosso país.” Como consequência disso, muitos jovens perderam os empregos.

De modo generalizado, o baixo poder de compra, “tem estado a afectar muitas famílias e a sua condição social reduziu significativamente”, fruto da petro-dependência, que já não é uma opção. O também docente universitário, Henrique Pascoal, salientou recorrentes “combinações erradas nos nossos serviços, o despreparo do tecido empresarial”, porque “precisamos de empresários que possam desenvolver uma região sem dependência total do Estado.” As limitações, visíveis no dia-adia das organizações, são múltiplas, persistindo a constante impossibilidade de importar e a dramática escassez de divisas, que constituem um obstáculo directo ao crescimento do empresariado local.

Que lição tirar?

“O que nos define é como nos levantamos depois da queda”, por conseguinte, o economista Pascoal observou que “o empresariado, durante muitos anos, fixou os seus objectivos em trabalhar para o Estado, em grandes negócios.” Em contrapartida, “quando dependemos só de um sector, neste caso, o Estado”, ante adversidades pelas quais este passe, quem dele depende poderá falir. É isto que se tem visto no empresariado provincial. “O Estado não vai conseguir resolver todos os problemas, precisa de outros actores, o empresariado” que, para saír do ‘fundo do poço’, Pascoal aconselha a procurar parcerias com empresas privadas, não dependendo da clientela pública. Portanto, numa perspectiva económica, por cá, tem-se “uma mão visível do Estado”, contrariando a “mão invisível” proposta por Adam Smith. Logo, o empresariado local “caiu sim, mas tem de aprender a levantar- se, com outras alternativas.”

Um a um, todos foram atingidos

Apostando na agricultura e comércio em Benguela, Nelito Monteiro acredita que “o sector empresarial deve exercer sim o seu papel”, contudo, o “Estado deve criar condições para um bom ambiente de negócios.” Assim, para ser possível falar em desenvolvimento nesta rica província da região centro do país, é fulcral que “o sector produtivo ganhe velocidade”, porque, “as crises são formas de nós despertarmos.” Nesse prisma, o “despertar” do empresariado benguelense passa por “mudar de comportamentos, teremos de ter outras atitudes”, realçou o agrónomo, conhecido pelos seus bananais.

Deste modo, como efeitos benéficos da famosa crise, tem notado em Benguela que a dura realidade actual “está a unir-nos, a motivar- nos, fazendo que a gente tenha outro tipo de vida.” Já Edilson Lacerda, empresário na área da hotelaria e turismo, mostra- se preocupado com a baixa na procura de serviços hoteleiros, tendo adiantado que o maior elemento que neste momento carece para o desenvolvimento do turismo, “são os turistas, estão escassos”. À falta de turistas estrangeiros que venham conhecer as belezas naturais de Benguela, “sobrevivemos com o turismo interno” revelou, sugerindo assim aos angolanos que se interessem em conhecer os recantos de cá, da terra. Quanto à “produção de peixe, sal e gado, são três factores muito importantes” para os quais “Benguela tem capacidade”, realçou o empreendedor Adérito Areias. Logo, para vencer esta feroz crise financeira é vital neles investir.

Sem dinheiro, não se constrói… Carlos Cardoso, presidente da Associação dos Construtores em Benguela, quanto aos membros mais actuantes no ramo, declarou: “já tivemos mais, e com esta crise, muitos deixaram de funcionar.” Não obstante isso, “temos um número ainda significativo”. Sobre os inputs em falta para que o empresariado local consiga impulsionar a economia, apontou: “primeiro, dinheiro!”, que a seu ver, deverá advir da banca, sublinhando: “não há economia sem apoio financeiro.”

“A altura de os bancos pegarem no nosso dinheiro, guardarem e não emprestarem, já acabou. Hoje, nós não queremos pôr o dinheiro nos bancos sem termos qualquer coisa em troca”, esclareceu, referindo- se aos empréstimos bancários. Com a crise económica que se abateu sobre Angola, com grande impacto em Benguela, os últimos cinco anos têm sido muito sofridos, “com muita dor de cabeça”, comentou Carlos Cardoso.

“Pessoal qualificado precisa-se!”

O segundo aspecto crítico que enunciou, prende-se com a necessidade primordial de profissionais nacionais habilitados pois, “ainda não temos quadros nossos totalmente qualificados”, criando barreira para “uma classe (empresarial) mais sã e mais forte.” Para superar este débil cenário, o engenheiro Cardoso deixou um apelo às instituições de ensino superior, na perspectiva de “formar melhor os nossos técnicos.” De outro modo, pensa que a contratação de estrangeiros, “que vêm para aqui levar muito dinheiro”, deveria ter associada à obrigatoriedade de transmissão de knowhow ao capital humano angolano com que trabalham, para capacitá- los.

Algo crítico, adicionou, “de nós empresários angolanos, espera-se “que respeitemos mais os quadros nacionais”. Facto que “não tem ocorrido”, porquanto, se um angolano e um estrangeiro exercem o mesmo cargo, o expatriado tende a beneficiar de uma remuneração muito superior. Para si, “é um fenómeno que não consigo entender, mas tudo indica que ainda temos a mania de que “o que vem de fora é que é bom”.

Não valorizamos o que temos”, ressaltou o engenheiro. Contrariando essa tendência, afirmou: “na minha empresa, não existe um ganhar X e o outro ganhar Y”, dado que entende que o que determina o salário são os requisitos da função e cargo. Não a nacionalidade. Assim, empregando 830 trabalhadores em diferentes pontos do país, “sendo 95%” nacionais , os estrangeiros, “todos os dias têm uma hora para formar os nossos quadros. Caso contrário, vão-se embora,” concluiu.

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