O antigo consultor do Ministério da Hotelaria e Turismo é pela criação de uma instituição que integre também os transportes e o ambiente para revolucionar o sector 

O empresário Carlos Cunha manifestou-se contra o facto de a formação profissional para o sector turístico estar a ser entregue a privados.

Segundo o proprietário da Casa 70, que falava sobre o tema “Turismo, um caminho para a diversificação económica”, em recente palestra na sala multifunções da Academia BAI, quem deve assumir as responsabilidades pela formação profissional no sector turístico é o próprio Estado. Apesar de ser um desafio caro, Cunha recordou que o país também não tinha meios quando precisou de modernizar as alfândegas, tendo para tal contratado os ingleses da Crown Agents.

“Quem tem que formar é o Estado. Também não tínhamos meios para fazer as alfândegas, mas fomos buscar a Crown Agents”, explicou o empresário, realçando que o Ministério do Turismo, um dos poucos com um plano director no país, é dos pelouros que recebe menos receitas do Orçamento Geral do Estado.

As províncias de Benguela, Huíla e Namibe foram apontadas pelo palestrante como sendo as que mais se destacam entre as possuidoras de enormes potencialidades turísticas e que deviam ser, por isso mesmo, potenciadas. Actualmente, o sector no país emprega cerca de 190 mil pessoas, estimando-se que dependam do turismo aproximadamente um milhão e 200 mil almas.

Carlos Cunha acredita que o país precisa de uma instituição que integre os ministérios do Turismo, do Ambiente e dos Transportes. Ele citou como exemplo os casos da Itália, que em tempos adoptou o mesmo modelo, e de Moçambique que terá seguido os mesmos passos.

‘É o ministério que Angola precisava’, considerou. Explicou, por exemplo, que o turismo cinegético, envolvendo a fotografia, caça e a fauna, poderá ser no futuro o centro da exploração turística do país. Mencionou o caso de pássaros raros que existem apenas em Angola, mas que não têm sido preservados.

O empresário citou como aspectos positivos para o desenvolvimento do sector a grande potencialidade e diversidade de recursos turísticos, com 2.600 locais, a atractabilidade dos lucros, o retorno do investimento, a elevada procura de serviços hoteleiros, predominância do turismo de negócios, a taxa de crescimento da economia angolana e a própria taxa de ocupação hoteleira.

Quanto aos aspectos negativos, destacam-se a complexidade na obtenção de vistos turísticos, a mão-de -obra pouco qualificada muito dependente do exterior, elevados preços para o alojamento e alimentação, a baixa competitividade, o quadro legal que está em reformulação, a inexistência de politicas de fomento turístico.

Os entraves passam ainda pela reduzida oferta turística, a baixa qualidade de serviços, incipientes estruturas de formação profissional, falta de tradição profissional, deficientes estruturas de logística e manutenção dos equipamentos, estrutura de fiscalização e “Flow Up“, deficiente controlo estatístico do movimento turístico e falta de qualificação técnico-administrativa dos técnicos do sector, orçamento Institucional para Suporte do Sector e inexistência de “Funding“ para investimentos. Carlos Cunha considera que, às vezes, quando se fala em diversificação da economia do país aponta-se apenas como primazia das autoridades a agricultura.

Os dados da Organização Mundial do Turismo, exibidos pelo empresário, realçam que o turismo é uma das áreas que mais tem crescido em todo o mundo, representando 10 por cento do produto interno bruto mundial e empregando uma em cada 10 pessoas.

Turismo em crescimento

Além das receitas obtidas pelos destinos, o turismo internacional gerou 211.000 milhões de dólares através de serviços de transporte. Somando ambos os conceitos, o valor das exportações de turismo ascendeu, em 2015, a 4.000 milhões de dólares por dia.

Os Estados Unidos, China, Espanha e França lideram a lista dos dez maiores destinos da receita do turismo internacional. As estimativas avançadas apontam para um crescimento de 3,3 de turistas internacionais entre 2010 e 2030, de acordo com estimativas da Organização Mundial do Turismo.

‘Angola tem que seguir as áreas de maior rentabilidade. Não podemos estar em contravento’, disse Carlos Cunha, salientando que “só existem dois negócios no mundo mais rentáveis que o turismo, que são o combustível e a indústria química. Os supermercados todos juntos não conseguem vender mais do que a indústria turística”.

A palestra contou ainda com a participação do director do Instituto de Fomento do Turismo, Eugénio Clemente, em representação do secretário de Estado do sector, Alfredo Kaputo, impossibilitado de se fazer presente, este último, por sobreposição de agenda oficial.

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