Associado ao ensino superior na província de Benguela, desde 1992, Albertino Candimba é o director-geral do Instituto Superior Politécnico de Benguela (I.S.P.B.). Numa introspecção sobre o que foi, o que é, e o que deveria ser a academia nesta região, salientou essencialmente a descontinuidade inerente à questão.

Enquanto conhecedor do trilho académico na província de Benguela, é possível falar-se em real evolução do ensino superior por cá?

Tendo em conta dois parâmetros, o quantitativo e o qualitativo, é possível. Quantitativamente, detenho na memória que, em 1992, quando começámos com a empreitada, na comissão instaladora do ensino superior em Benguela, tínhamos cerca de 225 alunos no primeiro ano lectivo presencial da universidade pública local, em 1993. A oferta formativa resumia-se no ensino de matemática, história, pedagogia, geografia e psicologia, aos quais se acrescentou economia e direito, que dependiam da Universidade Agostinho Neto, no ensino à distância. Hoje, a frequentar o ensino superior, temos mais de 23 mil alunos, estando a maioria inscrita nos institutos privados. Sobre a qualidade, há sinais de crescimento. Verifica-se um número razoável de técnicos pós-graduados, mestres e doutores, que integram os quadros de docentes, distribuídos pelos seis estabelecimentos na província e a variedade curricular está mais flexível e dinâmica, relativamente à tipologia de cursos. Todavia, muito ainda há por se fazer em termos qualitativos.

A que se deverá o défice em causa? Entre como é e como deveria ser?

São diversas as razões. Se, por um lado, há instrumentos normativos, metodológicos que, ao nível do subsistema do ensino superior nacional, ainda consideramos um défice, arcando repercussão negativa nos processos das nossas instituições de ensino. De outro modo, importar modelos estrangeiros, sem que estejam alinhados às particularidades sociais de Angola, tende a pôr em causa o rigor do processo de ensino-aprendizagem. Há ainda a qualificação dos quadros, os professores. Verifica-se uma tendência contrária no mercado de trabalho em que, dar aulas não é questão de vocação, escolha, mas sim um refúgio profissional. Casos de cidadãos formados no exterior, licenciados, mestres e doutores, regressados à terra, não conseguem enquadramento laboral nas áreas de formação, logo, vão dar algumas aulas, atropelando desígnios da carreira docente.

Nesse caso, de quem é a culpa?Do indivíduo não especializado, ou da organização que o emprega?

Penso que não podemos culpabilizar pessoas, portanto, a responsabilidade é de todos nós, é do país. Um obstáculo que precisa das nossas estratégias para ser ultrapassado.

Dirige o Instituto Superior Politécnico de Benguela. Dos quadros que integram o corpo docente, qual a margem de nacionais e de estrangeiros?

São 118 os orientadores no processo de transmissão de conhecimentos. No quadro de efectivos, temos 18 docentes nacionais, aos quais se somam os prestadores de serviço, a maioria. O volume de professores estrangeiros reduziu substancialmente desde 2015, por consequência do panorama económico nacional e, agora, temos 12 expatriados brasileiros, portugueses e cubanos, essencialmente.

A redução de quadros estrangeiros surgiu por motivos extraordinários. Quer dizer que o ensino por vós prestado ficou a perder?

De certa forma ficou. Saíram 7 expatriados, logo, tivemos de fazer uma adaptação imediata para não baixar muito o nível, quer da exigência, quer da qualidade.

Qual é a capacidade de lotação do I.S.P.B.?

A nossa configuração e os demais requisitos actuais, permitem-nos albergar até quatro mil alunos. No presente, temos 2437 matriculados.

Dividindo a academia em dois hemisférios, por um lado há a instituição, e por outro, os usuários. Como caracteriza o produto posto no mercado de trabalho mundial, a partir de Benguela, nos últimos cinco anos?

Numa óptica filosófica, do ensino secundário para a universidade, o que se vê é um processo de descontinuidade, quando deveria ser contínuo. Ora, isto põe em risco o desempenho no ensino superior, perigando a qualidade que se deseja. Subsequentemente, os estabelecimentos de ensino não criaram ferramentas para acompanhar o percurso dos formados a posteriori, na inserção no mercado de trabalho. É palpável a ruptura entre a conclusão da licenciatura e a admissão no emprego, pois em falta está também um relacionamento estreito entre institutos superiores e mercado, onde se salienta o empresariado.

Significada que o sistema de ensino superior em funcionamento está inacabado?

Falta a integração, para se justificar as três funções da universidade: ensino, investigação científica e extensão. Apenas assim passaremos a ver a academia numa perspectiva holística, o todo. Acho que é neste momento que devemos direccionar as nossas expectativas e processos, não apenas para cumprir objectivos curriculares, mas para o desenvolvimento do país, que deve ter como alicerce o conhecimento.

Falando em conhecimento universal e integração global, parece-lhe que as alternativas de cursos oferecidos em Benguela, são suficientes para os quadros de que se precisa?

Não são suficientes suficientes. Estão abaixo de 40 por cento das reais necessidades da província de Benguela, que é essencialmente produtiva e industrial, com agricultura, pesca, os proveitos das características geográficas. Lamentavelmente, as nossas instituições não ministram currículos para responder às carências nesses sectores. Temos de reajustar os planos para que estejam em sintonia com o potencial de desenvolvimento que a região oferece.

O que falta então para se atingir essa sincronia?

É também essencial que o Estado opte por agregar no seu meio as competências dos talentos humanos que temos nos nossos estabelecimentos de ensino, para auxiliar nos planeamentos sociais, económicos e políticos. É inconcebível que a estratégia de produção de conhecimento e a estratégia de desenvolvimento do país estejam dissociadas.

Nesta linha de pensamento, que currículos tem o I.S.P.B. para a sociedade benguelense e para Angola?

São dez os cursos em vigor, sendo que mais dois foram aprovados, estarão ao dispor no próximo ano lectivo, nomeadamente ciências da educação e gestão do ambiente. Por agora, lecciona-se medicina dentária, análises clínicas, fisioterapia, enfermagem, administração e gestão do território, gestão de recursos humanos, gestão de empresas e engenharias electrónica, informática e de telecomunicações. Com a intenção de alinhar os currículos às áreas com mais potencial de desenvolvimento regional, há um projecto para criarmos um novo departamento, que vamos submeter ao órgão de tutela.

Qualidade. Ensino superior em Benguela. São caminhos que andem de mãos dadas?

No meu ponto de vista, embora haja inúmeras dificuldades, está-se a caminhar para lá chegar. Universidade e institutos superiores estão a fazer algum esforço nesse sentido, penso que é uma preocupação de todos os actores que fazem parte da academia provincial e nacional. Para se alcançar a real qualidade, é vital definir-se uma política nacional holística para o ensino superior, em que todos os membros se revejam nela.

Será que no volume das contrariedades assenta a escassez de pessoal verdadeiramente habilitado?

Esta é uma dimensão, o nosso maior problema. Outra debilidade prende-se com equipamentos e infra-estruturas adequados aos currículos leccionados, podendo aqui ser estabelecida uma ponte com o financiamento necessário ao ensino superior.

Se a qualidade do ensino nacional deixa muito a desejar, que consequências daí advêm?

A fuga de cérebros é uma delas. Pessoas com grande potencial cognitivo, que se qualificaram no estrangeiro, pois vão à procura de melhor oferta formativa e ficaram por lá a trabalhar e a viver. Assim, o nosso país perde cérebros. Basta irmos às estatísticas, para saber quantos voltaram. Outro aspecto, nesta altura crítica, de crise, ainda assim, muitas são as divisas transferidas para pagar estudos no exterior, partindo mesmo do próprio Estado, no pagamento das contas dos bolseiros. Outra implicação visível é o caso de jovens bolseiros, com a formação superior no estrangeiro paga pelo Estado, que voltam para Angola e, ou estão desempregados, ou não obtêm emprego nas áreas em que se licenciaram, mais um indicador da descontinuidade associada ao ensino.

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