Gima Calunga foi detido na pista do aeroporto de Lisboa, junto a um avião da transportadora angolana, como um facalhão de 21 cm de lâmina

As perícias forenses salientam que Guima Her Calunga, que esta semana o Tribunal de Instrução decidiu levar a julgamento, despreza a sua própria vida e a dos outros
Gima Her Calunga é uma autêntica bomba-relógio, que “despreza a sua vida e a dos outros”, característica presente na personalidade dos terroristas suicidas. É esta a conclusão implícita nos exaustivos exames psiquiátricos e psicológicos a que foi sujeito, para avaliar a sua imputabilidade, e citado pelo jornal Diário de Notícias. Ontem, o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa pronunciou Calunga por todos os crimes descritos na acusação do Ministério Público (MP), depois de avaliar o conjunto de provas que sustentam a tese de que Calunga foi treinado e instruído para “organizar/concretizar atentados terroristas” em espaço europeu, sendo o Aeroporto Internacional de Lisboa o alvo.
Gima Calunga, 29 anos, de origem angolana e com nacionalidade holandesa, entrou na pista do aeroporto da Portela e foi detectado pela segurança, com um facalhão (lâmina de 21 cm), junto a um avião das linhas aéreas angolanas, quando este se preparava para levantar voo. Além dos crimes de terrorismo, está também acusado de atentado à segurança de transporte de ar, com vista ao terrorismo, posse arma ilegal e introdução em local vedado ao público. Está em prisão preventiva desde julho de 2014, no estabelecimento prisional de alta segurança de Monsanto.
A investigação confirmou, quer através da confissão do próprio no primeiro interrogatório judicial quer pela leitura de um “diário” que lhe foi apreendido, que esteve na Síria, com grupos jihadistas (Jabhat al-Nusra) e com combatentes do Estado Islâmico. “Recebeu treino militar, nomeadamente no manejo de armas de fogo e táticas utilizadas em atos terroristas”, é escrito.
O Al-Nusra é conhecido por recrutar apoiantes com “debilidades psíquicas” para executar atentados suicidas, por isso, quando Calunga, já detido, começou a manifestar comportamentos que indiciavam problemas de foro mental, o MP pediu as perícias forenses. Com os resultados a sustentar a imputabilidade do suspeito terrorista, os responsáveis por este inquérito – os procuradores João Melo e Vítor Magalhães, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), e a Unidade Nacional de Contra Terrorismo da PJ – viram assim reforçada a sua convicção de que manter Calunga preso era a forma mas adequada à prevenção criminal.
“Revela um total desprezo pela vida. A ausência de vínculos afetivos e a falta de objetivos na vida constituem fatores de risco elevado”, destaca a psiquiatra que analisou Gima. E cita desabafo do seu “paciente”, numa das consultas: “(…) tudo o que quis fazer na vida já fiz (…) o que não farei aqui, vou fazer noutro lugar (…) não tenho nada para fazer aqui, se eu morrer hoje não tem problema, se morrer amanhã não tem problema”.
A psicóloga ficou com idêntica perceção da perigosidade do holandês: “Não se apurou qualquer sintomatologia psicótica, ansiosa, depressiva (…) nem traços de personalidade com características antissociais ou bordlines (…) embora evidencie ideação suicida relevante. Esta situação poderá dever-se a um sentimento de desligamento face aos outros, de indiferença face a tudo o que o faz desvalorizar o valor da própria vida. Nesse sentido, esta situação constitui um fator de risco elevado.”
Os relatórios dão conta de que Calunga nega quaisquer intenções de pretender executar um atentado em Lisboa (“não sou capaz de matar sequer uma mosca sem me sentir culpado, quanto mais fazer um ataque terrorista… não queria fazer nada ao avião”, declarou), mas foi apanhado em contradição quanto aos motivos que o levaram ao aeroporto, tendo parte da sua narrativa sido classificada pela perícia como “muitíssimo incoerente” e “claramente implausível”, como é o caso de ter viajado para a Síria com fins “humanitários” e ter vindo de “férias” a Portugal.
Este caso não terá tantas provas materiais quanto seria desejável sobre a intenção de Calunga quando veio para Lisboa. No seu “diário”, por exemplo, apesar de contribuir para provar que esteve com grupos terroristas na Síria, Calunga até critica os jihadistas, apelidando-os de “criminosos” e “desorganizados”. Mas a valorização das chamadas “provas indiretas” tem sido um dos maiores desafios aos sistemas judiciais europeus, confrontados com o regresso destes combatentes aos países de origem. A dificuldade em provar não só que estiveram com os terroristas e que treinaram para cometer atentados em solo europeu, mas também em conseguir decisões dos tribunais que ajudem a prevenir que cometam esses crimes. No caso de Gima Calunga, as perícias forenses, o treino na Síria e o histórico de atentados recentes cometidos por “lobos solitários” – como o atentado no museu judaico de Bruxelas, mas mais recentemente o caso no comboio em França – levam a questionar se deixá-lo em liberdade não seria demasiado arriscado. Quem sabe se João Melo e Vítor Magalhães salvaram vidas.

Fonte: Diário de Notícias

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