O II Festival Nacional de Cultura (Fenacult 2014), voltou à ribalta com fraca aderência do público, 25 anos depois do primeiro

O incumprimento do horário, a localização do próprio estádio, as distâncias percorridas, associadas à escassez de transportes foram apontadas como factores que contribuiram para a fraca assistência à cerimónia de abertura.

A pesar de gratuito e diversificado, o espectáculo não se revelou uma chuva de estrelas como o anterior tal como se previa. Houve quem esperava ver também incluídas velhas glórias da nossa música, muitas delas, ausentes dos palcos há vários anos.

Alguns espectadore já cansados com a demora do início do espectáculo, decidiram voltar para a casa e assistir ao show pela televisão. É o caso de Jordão Ferreira, vindo do Cazenga com a intenção de assistir à cerimónia de abertura ao vivo com os amigos, desejo que não foi concretizado.

O jovem disse ter chegado chegado ao estádio às 17 horas, altura em que foram abertos os portões para impedir que o público se aglomerasse à entrada, acabando por abandonar pouco depois o local para não correr a riscos. Impacientes, outros jovens optaram pela mesma via e começaram a retirar-se também aos poucos.

Das 50 mil pessoas inicialmente previstas, – a lotação máxima do Estádio 11 de Novembro – nem metade se fez presente. Atitude semelhante, foi tomada por Januário da Fonseca vindo de Cacuaco.

Depois de presenciar o desfile de trajes carnavalescos, acabou por deixar também o local. Outros, mais pacientes, enquanto aguardavam, deixaram-se contagiar pelo ambiente exterior, onde Trio Electrónico da Cuca e outros ali estacionados animavam os que se abasteciam de comes e bebes em roulotes.Bancadas vazias, frio associado a queda isolada de orvalho foi o cenário até ao fim.

A abertura do festival previsto para as 19 horas, iniciou-se apenas às 20 horas e 45 minutos com os discursos da titular da pasta da Cultura, Rosa Cruz e Silva, e do vice-presidente da República, Manuel vicente.

Setecentos mil watts de som e 400 máquinas

Para o gáudio dos presentes, foram garantidos 700 mil watts de som e 400 máquinas de efeitos especiais, cuja animação inicial coube aos grupos carnavalescos.

O espectáculo dividido em dois momentos iniciou-se com a entoação do Hino Nacional, por um grupo coral composto por 200 elementos e dois solistas instalados num estrado elevado sobre o relvado.

Segui-se a exibição de uma criança que descia ao centro, a partir do estrado, enquanto o grupo coral se afastava-se à medida que ela passava. Voltando ao lugar, a pequena ajoelhava-se cuidadosamente no relvado, tocando no campo, dando início à formação da bandeira nacional em animação gráfica.

Posteriormente, foi representada a formação da terra, igualmente em animação gráfica movimentando continentes como África ao centro, terminando com a região de Angola. Já o terceiro quadro que se ocupava da “Entidade e o surgimento dos reinos”, dava entrada ao actor acrobata sobre andas, rodeada por sete bailarinos desenvolvendo uma performance fora da tela na parte da frontal.

Ao tocar no chão, deu-se uma explosão (animação gráfica) que se ramificou, sugerindo o início das fronteiras dos reinos, os quais os bailarinos seguiram, deslocando-se até aos pontos em que surgem os reinos projectados na tela e chão.

Com um movimento coreográfico contemporâneo, os bailarinos representavam as danças de cada uma das regiões. Enquanto isso, o quarto quadro do espectáculo destacava o surgimento dos reinos, com a saída e entrada dos bailarinos nos referidos reinos, com os seus soberanos, que se posicionavam nas quatro regiões representadas num mapa de Angola.

Para marcar a diversidade, cada grupo executava uma dança com movimentos característicos de cada região cultural apresentada. Projecções de simbologias diversas (sona, firmas, pinturas e inscrições líticas rupestres, iconografia, gravuras) completavam a caracterização.

Chegada dos europeus

Captura de ecrã 2014-09-5, às 13.05.33A chegada dos europeus a Angola foi representada por três caravelas formadas por figurantes transportando algumas entidades religiosas.

Nesta exibição, os reinos voltavam a entrar pela diagonal direita ao fundo, descendo e deslocando-se para a esquerda ao som da música invocando o período histórico renascentista europeu.

Prosseguiu com a “Rota dos escravos”, retratando os europeus saindo pela esquerda, enquanto os soberanos e reinos saiam pela direita a fundo, intercalando com projecção 3D de navio negreiro – Vista aérea (corte) do interior do navio à deriva no mar.

Enquanto isso, o quadro destinado a “Fusão cultural”, representava Angola no mundo com danças de três dos países onde ainda hoje se sente a influência das culturas levadas de Angola: Capoeira (Brasil), Cumbia (Colômbia) e Conga (Cuba).

A presença de outros países com influência de Angola, foi feita através de imagens e sonoridades, que no canto direito do espaço cénico, representavam imagens indicando a presença de Angola nos Estados Unidos, Jamaica e Argentina.

O penúltimo quadro fazia menção à “Época colonial, à luta de libertação e à independência”, apresentando três mulheres representando metaforicamente Angola, num percurso pelo campo.

O último quadro cingiu-se à entrada de uma criança, representando o futuro e uma Angola nova descrita na areia “Eu Amo Angola”, numa projecção 3D – apresentando o mapa de Angola com as 18 províncias.

Prosseguindo, exibia-se no chão o desenterrar das máscaras representativas de todo o país, simbolizando a presença e a protecção ancestral. Do estrado desciam 100 máscaras que se desenvolviam numa coreografia alegre simbolizando a perfeita união entre o tradicional e os tempos modernose. finalmente, a entrada de 100 reis e rainhas de carnaval saudando a todos os presentes numa coreografia com as principais figuras espaciais do carnaval.

O espectáculo foi encerrado com o lançamento do fogo-de-artifício.

Primeiro show multimédia

Captura de ecrã 2014-09-5, às 13.06.36Para dar maior sustentação ao espectáculo de abertura do FENACULT 2014, foi criado sobre uma base multimédia com animação 3D mapeada. Sobre o campo, onde participavam centenas de figurantes com coreografia especialmente desenhada e articulada com as projecções de vídeo e música original.

Primeiro espectáculo do género concebido e implementado em África, contou-nos, de uma forma artística a história do nosso país, enfatizando as conquistas da paz e os nossos valores culturais, naturais e ecológicos, onde estiveram presentes a dança, o canto, os instrumentos musicais e também o progresso tecnológico e o desenvolvimento social da Angola soberana.

Sob direcção artística e coreografia de Ana Clara Guerra Marques e Nicolas Micler, o espectáculo contou com a e direcção de originas de João Oliveira , SOUND DESIGN – Ad Music Fuel (Nuno Dario); conteúdos de vídeo e animação e projecções Visualfarm Novas Linguagens Visuais e figurinos e cenografia de Nuno Guimarães e desenho de luz de Carlos Silva.

Músicos descontentes com a acomodação

Um outro pormenor a destacar neste festival, foi sem dúvidas a acomodação dos músicos. Muitos deles encontravam-se no camarim de pé, pois não havia assentos suficientes.

Quem também manifestou o seu descontentamento foi Gabriel Tchiema, apelando à organização para uma conduta mais digna e corrigir os seus erros nos próximos eventos, avançando que, antes de subir ao palco um músico precisa de concentra-se e meditar um pouco, para melhor interacção, o que infelizmente não acontece em Angola. Recordou que, no exterior , têm melhor tratamento do que no seu país.

A maior parte dos músicos participa pela primeira vez e diz sentir-se angustiada pela recepção. Mas apesar de tudo reconhece os esforços empreendidos para que tal acontecesse.

Surpresa no palco

Um outro pormenor a destacar neste festival é sobretudo da falta de segurança depois da saída dos dirigentes. Depois da actuação de Yuri da Cunha, recordando o músico Teta Lando, figura de cartaz do primeiro festival, seguiu-se o dueto B4, Big Nelo e C4 Pedro, mas este não chegou a terminar devido a invasão do cordão de segurança por um grupo de jovens em direcção ao palco.

Preocupado com a situação, o apresentador Ladislau Silva, apelava para a presença dos agentes da ordem pública, mas a situação só chegou a ser minimamente controlada pelo grupo de escuteiros.

Por essa razão, W King antecipou- se ao encerramento da segunda etapa do concerto. Participaram do espectáculo, os músicos Carlos Burity, Ary, B4, a Banda Akapaná, Nsoki, Banda Movimento, Bangão, Coreon Du e Banda, Elias Dya Kimuezo, Gabriel Tchiema, Justino Handanga, Kiaku Kyadaf, Kintwene e Kueno Aionda, Socorro, entre outros.

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