O desejo vai-se materializando. É assim que os habitantes do Huambo encaram as acções presentemente desenvolvidas pelo Governo Provincial com o propósito que conferir alguma dignidade à Estufa-Fria

O lixo desapareceu, o capim perdeu os mais de 50 centímetros de altura de outrora e os candeeiros públicos voltaram a acender sempre que anoitece e desde que haja electricidade na cidade do Huambo.

Assim está o Jardim Botânico, vulgo Estufa-Fria, desde que o governador provincial do Huambo, João Baptista Kussumua, o incluiu entre os espaços da cidade que receberiam uma atenção especial, em curto espaço de tempo. Os sinais de abandono que há cerca de um ano eram visíveis, quando uma equipa de reportagem de OPAÍS visitou-o por três vezes (no pretérito mês de Abril), vão desaparecendo aos poucos.

As paredes da estrutura de betão erguidas quase ao centro deste recinto que já se chamou de “Granja de Experimentação Agrícola” e “Parque Almirante Américo Tomás”, estão a ser pintadas, tornando-a mais atractiva. No seu interior, sentado numa pedra, ladeado por plantas diversas, Maurício Sangusse Caconene, 16 anos, fazia uma revisão à matéria escolar recebida no período matinal do dia 27 de Fevereiro, no Centro Pré Universitário Católico, onde frequenta o curso de Ciências Físicas e Biológicas.

O morador na rua Padre da Costa, a escassos metros da Estufa, considerou que a intervenção do Governo no sentido de recuperá-la, ainda que parcialmente, ocorre num momento bastante oportuno. “Estou a gostar do que está a ser feito e espero que o Governo continue”, desejou. Conceição Cambambi Simões e duas amigas aproveitam desfrutar do casamento quase perfeito que existe no local entre o homem e a natureza, levando os seus cães a passear pelo menos três vezes por semana.

“Trouxemos aqui os nossos animais por ser um recinto espaçoso, calmo, limpo e com pouca movimentação de pessoas, e onde é quase impossível morder alguém”, frisou a cidadã de 20 anos.

Desde que arrancaram as aulas que esta estudante do Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) “Santo António” e algumas das suas colegas se têm encontrado três vezes por semana, no horário compreendido entre as 5h e as 6 horas da manhã, naquele recinto, para fazerem revisões antes de se deslocarem às aulas.

Indagada se não teme pela sua segurança, respondeu que nesse horário geralmente já se regista a presença de muitos estudantes, pelo que considera quase nula a probabilidade de ser assaltada.

“Outrora, muitos delinquentes vinham aqui fazer das suas, mas acabaram por desaparecer em consequência do trabalho de recuperação deste espaço que está a ser desenvolvido e do reforço da presença de agentes da Polícia Nacional”, revelou a estudante do 12º ano do curso de professora de Língua Portuguesa e de Educação Moral e Cívica.

Já Tomás Caueque, 25 anos, finalista do curso de ciências Físicas e Biológicas, declarou que as condições actuais encorajam a permanência de muita gente por lá até às 22 horas, estudando ou namorando. Paula Saviemba, 19 anos, na morada de Tomás Caueque, apela às autoridades competentes o reforço do patrulhamento policial e que se instalem mais assentos.

Pagamento de salários garantidos

Higino Sassoquele Colela, 56 anos, que funciona lá como segurança há mais de sete anos, confessou que após vários anos sem salários, a esperança na resolução do problema surgiu no pretérito dia 7 de Novembro, aquando da visita do governador João Baptista Kussumua ao recinto.

Ele faz parte de um grupo de cinco cidadãos, com idades superiores a 40 anos, funcionários de uma empresa privada de segurança contratada pela Administração Municipal do Huambo, em 1992.

“O governador tomou conhecimento que por falta de pagamento de salário todos os jovens abandonaram esse serviço e “ficamos apenas nós, os mais velhos”, frisou.

O seu colega Pedro Canda disse que foram informados pelo seu patrão que o Governo da Província predispôs-se a liquidar, brevemente, parte da dívida e finalmente receberem os seus honorários.

Explicou que dois dias após a visita, João Baptista Kussumua mobilizou uma equipa para uma mega campanha de limpeza, tendo montado uma outra que está encarregada de limpá-la diariamente.

“Os candeeiros da Estufa voltaram a acender, estão a pintar essa estrutura e está proibida a lavagem de roupa para se evitar que os detergentes danifiquem o solo”, esclareceu.

Acrescentou que “já se pode andar aqui sem receio. Desde que a Polícia Nacional reforçou o patrulhamento, não voltamos a registar novas ocorrências”.

Para evitar que as suas famílias passem fome, muitos deles criaram um pequeno viveiro de plantas que comercializam aos eventuais interessados, enquanto também as cultivam.

Agricultura familiar no Jardim Botânico

O segurança Higino Colela está entre os camponeses que desenvolvem agricultura familiar naquele recinto, com o propósito de assegurarem a dieta das suas famílias.

A nossa equipa de reportagem encontrou-o no centro da sua horta verificando o estado da plantação de aboboreiras, enquanto uma das suas sobrinhas, num outro ângulo, colhia batata-doce para a última refeição familiar do dia.

Num outro ponto estava Joaquina Helena, 51 anos, dos quais 18 anos no funcionalismo público, removendo a erva daninha de uma pequena parcela de terreno de aproximadamente 15 metros para no dia seguinte semear feijão. “Geralmente venho aqui participar de campanhas de limpeza, mas hoje vim, pela primeira vez, preparar a terra para semear alguns produtos para ajudar a alimentar a minha família”, esclareceu.

Já a sua colega Rosa Ngoia, também funcionária pública, colhia folhas de aboboreira para fazer o lombi, um prato típico da zona. Revelou que parte do referido produto serviria para a alimentar a sua família e a outra seria comercializada num dos mercados informais do município do Huambo.

“Há muitos clientes que procuram essas folhas para fazer lombi”, justificou. Para ter êxito nessa época, ela teve que trabalhar arduamente nos meses de Outubro e Novembro do ano passado. E, por outro lado, já vai reunindo condições para dar início à plantação de feijão, logo que termine essa colheita.

Considerou muito positivo o gesto dos seus colegas do funcionalismo público que realizaram a mega campanha de limpeza ao recinto, ao não destruirem as pequenas hortas urbanas locais.

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