A leitura e a democracia

Muito nos queixamos nós da falta de hábitos de leitura na nossa sociedade. Queixamo- nos do facto de os jovens escreverem e expressarem-se mal, mesmo oralmente. Tudo isso é verdade. Mas é também verdade que os meios de leitura não estão propriamente acessíveis a todos. Por exemplo, as edições de livros de autores angolanos raramente ultrapassam as três mil cópias. Estamos a falar de servir um universo de quase trinta milhões de habitantes. Por outro lado, temos apenas dois jornais diários em Angola, também eles não ultrapassando os vinte mil exemplares, na melhor das hipóteses. Os semanários, alguns nem dos quinhentos exemplares passam. Quer jornais semanários, quer os livros, têm preços quase incomportáveis para a maioria dos angolanos, ante as outras necessidades mais básicas. Portanto, não há muito o que ler. Apesar de tudo, ao que parece, existe uma indústria gráfica que se diz capaz de produzir para as necessidades, nela se inclui a gigante Damer, que foi objecto de uma reportagem deste jornal publicada ontem e outras gráficas mais antigas, resistentes. O problema, dizem, está na encomenda de impressões ao estrangeiro (e tivemos jornais que se deram a este luxo) e na carestia do papel e das tintas, com a subsequente exportação de divisas. Como o pão que dá energia para o homem trabalhar, a leitura dá a energia para a sociedade se desenvolver. Este é um sector que merece atenção nos esforços para o desenvolvimento da nossa sociedade.