Reabilitação da doca da Pescangola permite reparação de navios pesqueiros no país

A recuperação da doca flutuante da Pescangola, envolvendo um investimento de USD 2 milhões, vai permitir aos armadores que operam em águas territoriais angolanas realizar a manutenção e reparação das embarcações de pesca no país

Por: Borges Figueira, enviado a Walvis Bay, Namíbia

Os navios que operam em águas territoriais angolanas, com destaque para as embarcações de pesca do tipo semi-industrial e industrial, vão, doravante, poder realizar as suas manutenções periódicas e as suas reparações no país.

Tal será possível graças à chegada, nos próximos dias, da doca flutuante da Pescangola, que está a ser reabilitada em Walvis Bay, República da Namíbia, pela companhia de navios Elgin Brown & Hamer (EBH).

De acordo com o presidente do Conselho de Administração da Pescangola, Sebastião Alfredo Macunge, o investimento feito na recuperação da doca, que será apoiada por oficinas em terra, supera os USD 2 milhões.

A reparação da doca flutuante, adquirida em 2010 pelo Ministério das Pescas e Mar, a par da oficina equipada em terra, têm como objectivo apoiar os armadores na manutenção e reparação das embarcações de pesca.

A sua entrada em uso vai criar 60 novos postos de trabalho directos. A doca flutuante da Pescangola, com 63 metros de comprimento e 26 metros de largura, a operar na baía de Luanda, está vocacionada para a reparação de navios com deslocamento até 1.500 toneladas.

A doca está equipada com meios de elevação e equipamentos de apoio necessários à docagem, pintura e reparação dos navios e será auto-suficiente em termos de energia e fluidos, o que permite que opere fundeada, sem ligação directa às infra-estruturas em terra.

O director de projectos da Elgin Brown & Hamer Namibia (EBH), António Silva, explica que a doca não será classificada, sendo no entanto, projectada e construída de acordo com as regras de uma Sociedade de Classificação (SC) membro da IACS para este tipo de estrutura e respeitando os requisitos e regulamentos da Autoridade Marítima Nacional (AMN) em vigor.

Antes de iniciar a construção, o estaleiro submeterá à aprovação do armador todos os planos de construção relativos ao casco, equipamentos, máquinas e sistemas.

Qualidade de construção garantida

António Silva adiantou ainda estar garantida a qualidade da doca, que será construída de acordo com as boas práticas da construção naval. Depois das provas finais do navio, o estaleiro entregará em duplicado um Caderno do Controlo de Qualidade e um ficheiro informático contendo este caderno, onde demonstrará a aplicação do seu Sistema de Controlo de Qualidade nas diferentes fases da construção, e onde se colocarão todos os protocolos de aprovação e aceitação devidamente assinados pelo estaleiro, pelo armador, bem como pelas autoridades marítimas nacionais, se tal vier a ser exigido.

Segundo António Silva, no que concerne à especificação técnica da doca, será apresentado para apreciação do armador um caderno de soldadura, que incluirá os respectivos procedimentos, evidenciando os processos e as técnicas a utilizar, os materiais de adição adoptados, o dimensionamento, bem como a descrição da preparação das juntas e superfícies e os procedimentos de controlo de qualidade e de ensaios não destrutivos (END), nomeadamente um plano radiográfico e de END.

Serão igualmente utilizados os procedimentos construtivos e as práticas habituais de acordo com a IACS, no que concerne a limpeza e boa preparação das juntas, distância entre juntas, picagem entre passos e remoção de escórias. Todas as soldaduras serão efectuadas por soldadores qualificados e certificados e será utilizada soldadura manual e semi-automática.

Por outro lado, serão igualmente realizadas demonstrações de boa qualidade das soldaduras e do seu cumprimento com as regras, bem como no que toca a materiais que foram utilizados durante o processo de construção, os quais serão testados e inspeccionados de acordo com as regras da SC, e aprovados pelo armador. No navio não podem ser utilizados asbestos ou outros materiais que contenham amianto ou seus derivados.

Serão evitados trabalhos a bordo que provoquem a projecção de partículas metálicas ou de outros resíduos, depois de o navio estar pintado e os acessórios em aço inox ou aço galvanizado estarem instalados. Os trabalhos de aço, tubos, montagem de acessórios e de outros equipamentos serão executados de forma segura e adequada. Os alinhamentos devem ser efectuados correctamente e os acabamentos serão uniformes.

Por dentro da doca flutuante

A doca flutuante da Pescangola possui uma estrutura soldada, construída em aço de construção naval, (EN 1.0037, vulgo Grau A), certificado por uma Sociedade de Classificação (SC), O dimensionamento dos diversos elementos estruturais foi feito de acordo com as regras de uma SC membro da IACS e todas as chapas e perfis de aço foram, antes de serem utilizados a bordo, igualmente decapados ao grau SA 2,5 e protegidos por uma demão de primário de espera, com a espessura mínima de 30 micra, compatível com o esquema de pintura final a aplicar.

O caixão será sub-dividido em 10 tanques, oito dos quais de lastro e os restantes de retenção das águas provenientes da operação da doca e habilitados de meios de drenagem em quantidade suficiente para evitar acumulação de águas, tanto provenientes das operações da doca como de águas pluviais. As caixas de fundo para a tomada de água salgada dos diversos sistemas foram concebidas e dimensionadas tendo em atenção a sua limpeza.

As caixas serão estruturais e protegidas com grelhas removíveis e possuirão protecção catódica por ânodos específicos. Já as torres laterais são de material idêntico ao do caixão e de estrutura transversal totalmente soldada. No interior das torres laterais foram instalados os restantes tanques (combustível, água potável, entre outros), a casa de máquinas e a das bombas estão a central de comando e espaços para arrumos.

António Silva precisa que no pavimento superior das torres foram instalados, com contentores normalizados de 40 pés, os espaços destinados a apoio logístico e oficinal bem como os espaços habitacionais, permitindo assim uma flexibilidade acrescida quanto a opções e ajustamentos futuros em caso de necessidade.

A doca está equipada com um grupo electrogéneo de 350 kVA, compressores de ar, seis bombas de lastro de oito polegadas e bombas de água doce. Todos os motores eléctricos e bombas que compõem os vários sistemas auxiliares do navio terão válvulas com comando de abertura e fecho local com sistema de arranque e paragem com comando local e remoto no quadro eléctrico principal, além de um contador horário com totalizador de horas.

O sistema foi constituído por encanamentos de poliuretano (poloplast ou equivalente devidamente certificados para utilização em navios) e inclui ainda dois grupos hidróforos equipados com tanques de 25 litros de capacidade. O sistema conta ainda com um cilindro de aquecimento instantâneo para uso da tripulação e operários.