João Lourenço acena à África do Sul com algumas cautelas

O acordo de supressão de vistos foi o ponto alto desta primeira visita do Chefe de Estado, João Lourenço, que espera conferir um caracter estratégico na relação com a África do Sul

O Presidente da República, João Lourenço, defendeu ontem, em Pretória, durante a abertura das conversações entre Angola e África do Sul, que a integração económica deve ser feita de forma gradual e a nível bilateral, podendo evoluir desde acordos de comércio preferencial à criação de áreas de comércio livre.

A medida emana das condições concretas em que o país ainda se encontra, embora o Chefe de Estado angolano tenha justificado que a ida à África do Sul, quase dois meses após ter sido eleito e investido nas funções de Presidente, seja fruto de uma “opção consciente de reconhecer a importância dos laços históricos que de há muito unem os dois países”. Lourenço defende que os dois países, nomeadamente Angola e África do Sul, têm responsabilidades acrescidas na condução desse processo de integração regional.

“E devem assumir-se no quadro da SADC, como motores da nova dinâmica que pretendemos imprimir à cooperação na África Austral”, defendeu o chefe de Estado angolano. Segundo ainda o Chefe de Estado, a acção comum, no plano bilateral e no quadro da SADC, pode potenciar o desenvolvimento dos dois países. João Lourenço considera que os problemas africanos devem ser resolvidos pelos próprios filhos do continente, para benefício do bem-estar geral. Para já, nesta viagem de 48 horas em que o ponto alto foi a assinatura do acordo de supressão de vistos em passaportes ordinários, rubricados pelos dois responsáveis dos ministérios do Interior de Angola e da África do Sul, o estadista angolano espera que o nosso país aprenda com os sul-africanos o processo de transformação de uma economia paralela e informal numa economia em que as empresas “são devidamente auditadas e cotadas em bolsa, proporcionando assim maiores ganhos e mais transparência na gestão da coisa pública”.

“Temos um vasto mercado na África Austral, com mais de 63 milhões de habitantes, mas de nada valerá o poderio interno de cada um dos nossos países se os consumidores da nossa região não tiverem suficiente capacidade aquisitiva e se as nossas economias não se tornarem competitivas a nível global”, considerou.

Acenando para uma parceria estratégica no futuro, João Lourenço espera que os dois países explorem mais seriamente as imensas possibilidades que ainda existem para ampliar a cooperação. Para o presidente angolano, empossado há dois meses, existem oportunidades existem de ambos  os lados e importa agora melhorar as condições políticas, legais e financeiras para que elas se possam materializar em benefício comum, correspondendo às melhores expectativas dos dois povos.

‘Da dinâmica que conseguirmos criar, vai depender o desenvolvimento sustentado, não só dos nossos dois países, mas também de toda a sub-região e mesmo do continente africano no seu todo’, salientou João Lourenço, considerando serem ‘múltiplos os problemas a enfrentar’. Os conflitos internos e transfronteiriços em várias partes de África, a luta contra a pobreza, as grandes endemias, a imigração ilegal, o terrorismo, o fundamentalismo político e religioso, o tráfico de pessoas, drogas e o crime organizados, foram alguns dos problemas expostos pelo líder angolano.

“Não menos importante, é a luta pela preservação do ambiente, pois as alterações climáticas em todo o mundo representam uma séria ameaça à sobrevivência da espécie humana e têm estado a provocar efeitos catastróficos na economia de muitos dos nossos países’, acrescentou. Zuma espera muito mais Citado pela Angop, o Chefe de Estado sul-africano, Jacob Zuma, destacou os laços históricos para a melhoria da cooperação bilateral existente, mas frisou que se pode fazer muito mais para o desenvolvimento dos dois países. Segundo a agência de notícias, as trocas comerciais entre Angola e África do Sul registaram uma baixa, caindo para 2,4 mil milhões de dólares em 2016, redução de 75 por cento, justificada com a crise económica e financeira que o país de expressão da língua portuguesa atravessa.

A este respeito, reconheceu a existência de vários acordos e memorandos de entendimento que abrangem muitos domínios, referindo que a visita do seu homólogo aprofunda ainda mais o sentimento de irmandade, particularmente nas áreas económica e social. Para Zuma, é preciso aprimorar essa cooperação comercial, com mais incentivos para investimento no sector privado das economias dos dois países, e sublinhou  que África do Sul e Angola devem explorar mais oportunidades na agricultura, mineração, desenvolvimento de infra-estruturas, energia, turismo, entre outros. Segundo o estadista, não “podemos esquecer a cooperação cultural, científica e tecnológica, porque o passado histórico comum dos dois países deve servir para incentivar o intercâmbio entre si. Destacou também os valores da democracia, respeito pelos direitos humanos, justiça social e direito internacional, praticados pelas duas nações da África Austral, apontando que “estes são os princípios fundamentais que orientam nossa cooperação enquanto trabalhamos juntos na SADC, na União Aafricana e no sistema das Nações Unidas”. A propósito, o Chefe de Estado da África do Sul felicitou Angola pelo facto de ter sido eleita Presidente da Organização para a Defesa da Política e Cooperação de Segurança da Comunidade para o Desen volvimento de Países da África Austral (SADC). “Estamos confiantes de que poderá desempenhar as suas responsabilidades com diligência, como sempre. Na qualidade de presidente da SADC, aguardamos ansiosamente trabalhar em estreita colaboração, enquanto avançamos na agenda de integração da SADC”, augurou. Zuma agradeceu o facto de João Lourenço ter escolhido a África do Sul para sua primeira visita de Estado desde que ascendeu ao cargo de Presidente da República, em Agosto último, o que significa, “sem dúvida, a reafirmação dos laços históricos entre nós”. Aproveitou a oportunidade para enaltecer o ex-Presidente José Eduardo dos Santos, pelo seu “inestimável contributo para o desenvolvimento de Angola como um estado independente. Também pela sua excelente contribuição para a libertação da África Austral contra o colonialismo e o apartheid”. Para Zuma, quando se conta a história da região Austral, a contribuição de José Eduardo dos Santos “deve ser proeminente”.