Abraço a Malanje

Na vida há momentos que vale a pena reviver, factos ou acontecimentos marcantes do passado, especialmente quando o seu signifi cado e impacto nem o tempo consegue apagar. Estou a recordar a celebre excursão “Um abraço à Malanje” que juntou centenas de viaturas e percorreu mais de 400km, entre Luanda à Malanje, que num período bastante atordoado acordou e devolveu a vontade de viver as gentes das terras da Palanca Negra Gigante.

Por: JOÃO ROSA SANTOS

Decorria então o ano de 1997, sob égide da Liga da Velha Guarda de Malanje, um grupo de naturais e amigos de Malanje, liderados por Carlos Cunha, decidiu pôr mãos à obra e fazer movimentar a máquina. Um grande comboio automóvel de solidariedade e amor ao próximo.

A viagem não foi fácil. Naquele então as estradas não eram das melhores. Aqui e acolá, alguns “tiritos” se faziam ouvir, fazia tempo que Malanje estava praticamente isolada. Ainda assim, ganhou-se coragem, a aderência foi massiva, todos queriam participar, ninguém mais podia travar o abraço merecido à Malanje.

Ao longo da caminhada, Catete, Dondo, N’Dalatando, Lucala, Cacuso pararam, como se de um feriado nacional se tratasse. No rosto de cada integrante da caravana sobejava alegria, ansiedade, saudade, desejo e vontade de rever a terra, reencontrar familiares, amigos ou conhecidos que fazia tempo estavam desencontrados.

O comboio automóvel, apesar de grande, estava organizado. Ninguém podia ultrapassar. A cada 100 km, uma paragem para “tirar a água do joelho”, verifi cação do estado das viaturas, apreciar belezas naturais, degustar do farnel, deliciar uma gostosa “birra” ou de um bom “tintol”.

A meio da tarde, fi nalmente, Malanje à vista, muitos buzinões, emoção incontida entre abraços e gargalhadas, uma verdadeira festa jamais vista por aquelas paragens, senão mesmo pelo País afora. Durante três dias a cidade de Malanje, ferveu, vibrou até não poder mais. Entre o dia e a noite não houve diferença. Em todos os bairros o ambiente era de intensa alegria e festa.

Os integrantes da caravana eram tidos como verdadeiros heróis. A solidariedade social veio ao de cima. As ofertas aos mais carenciados sucediamse. O abraço foi fraterno e sincero. Na hora do regresso, as lagrimas não deixaram de dar o ar da sua graça. Foi de facto um feito, um momento inolvidável que até hoje faz a diferença e mora no coração de todos quantos participaram desta grande e maravilhosa epopeia.