Presidente peruano tentará evitar o seu impeachment

O Presidente peruano, Pedro Pablo Kuczynski, comparece nesta Quinta-feira, 21, diante do Congresso para se defender das acusações sobre os seus vínculos com a construtora Odebrecht, mas as possibilidades de evitar um impeachment parecem mínimas.

Kuczynski corre o risco de ser destituído por “incapacidade moral” e tornar- se no primeiro Presidente a perder o posto por causa da Odebrecht, que admitiu ter pago milhões de dólares em propinas em vários países latinos-americnaos para obter importantes contratos de obras públicas. “Eu não menti, não sou corrupto”, insiste Kuczynski.

Os analistas alertam que a economia peruana sofrerá um forte impacto com a incerteza política e a Igreja Católica apelou para que se evite um aprofundamento da crise. “A sorte do Presidente Kuczynski está lançada”, afirmou à AFP o analista político Luis Benavente, que prevê que o Presidente de centro- direita será destituído ainda nesta Quinta-feira. Controlado pela Oposição, o Congresso acusa o Presidente de ter ocultado que empresas vinculadas a ele prestaram assessorias por quase cinco milhões de dólares a Odebrecht.

Depois de ouvir as alegações do chefe de Estado, o Congresso manterá um debate antes de iniciar a votação pelo impeachment. São necessários 87 de 130 votos no Parlamento para a destituição, um número que a Oposição pode alcançar. O movimento de direita Força Popular, que pressiona Kuczynski desde o início do seu mandato em Julho de 2016, exigiu a sua renúncia para evitar o processo de destituição. Uma pesquisa divulgada no Domingo mostrou que 57% dos peruanos acreditam que Kuczynski deve deixar o cargo, contra 41% que consideram que o Presidente deve completar o mandato de cinco anos, até Julho de 2021.

A Odebrecht revelou que pagou quase cinco milhões de dólares por serviços de assessoria a empresas vinculadas ao Presidente entre 2004 e 2013. A empresa afirmou, porém, que os pagamentos foram realizados de forma legal e não contaram com a participação do Presidente. Do total, 782.000 dólares foram destinados à Westfield Capital, empresa de Kuczynski, quando ele era ministro da Economia e presidente do Conselho de Ministros do Governo de Alejandro Toledo (2001-2006). Outros 4,05 milhões de dólares foram destinados para a First Capital, empresa de um ex-sócio.

Kuczynski descartou um conflito de interesses, alegando que, enquanto ele era ministro, todos os seus negócios foram administrados pelo seu sócio, o chileno Gerardo Sepúlveda. Ele recordou que pediu a quebra de seu sigilo bancário e que está disposto a ser investigado pelo Ministério Público e pelo Congresso. Em meio às acusações, o ministro peruano do Interior, Carlos Basombrío, pediu demissão, mas o Presidente disse ter recusado e que espera convencê-lo a permanecer no cargo. Os acusadores do Presidente também não estão isentos de suspeitas.

A própria líder do partido Força Popular, Keiko Fujimori, filha do ex-Presidente preso Alberto Fujimori, é investigada por causa da Odebrecht e deve depor ante a Procuradoria nesta Quarta-feira. Num sinal de desconfiança em relação aos políticos peruanos, organizações sociais e sindicais convocaram uma grande marcha nacional para ontem para exigir “que todos os corruptos deixem o poder”.A Odebrecht admite que pagou 29 milhões de dólares em subornos para ganhar contratos de obras no Peru entre 2004 e 2015, período que envolveu os governos de Alejandro Toledo (2001- 2006), quando Kuczynski foi ministro, de Alan García (2006-2011) e de Ollanta Humala (2011-2016).

Acusado de receber três milhões de dólares para a campanha eleitoral de 2011, Humala está em prisão preventiva. Toledo é alvo de uma ordem de extradição dos Estados Unidos, acusado de receber 20 milhões de dólares num suborno para conceder à Odebrecht a construção de uma estrada. Kuczynski pode ser o segundo Presidente do Peru no século XXI destituído por incapacidade moral pelo Congresso. No fim do ano 2000, Alberto Fujimori foi destituído da Presidência, condenado por crimes de corrupção e contra a humanidade.