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Comunidade de Tchiehepepe bloqueia acesso à água a fazendeiros

Os fiéis da Missão Católica na localidade de Tchiehepepe, comuna de Tchibemba, no município dos Gambos, província da Huíla, bloquearam a estrada que dá acesso aos três furos de água usados também por alguns fazendeiros da Tunda dos Gambos.

POR: João Katombela, na Huíla

Para impedir o acesso dos fazendeiros ao precioso líquido, com o qual os criadores de gado abeberam os seus rebanhos, os fiéis e também criadores tradicionais de gado na localidade usaram barreiras de pedras e árvores cortadas. Um dos protagonistas desta acção informou que o gesto serve para retaliar contra a “falta de respeito” cometida pelo Governo Provincial da Huíla que convocou um encontro entre os fazendeiros e os fiéis criadores de gado mas não compareceu. Segundo apurou este jornal, o encontro teria sido convocado pela vice-governadora provincial para o Sector Político, Social e Económico, Maria João Tchipalavela, com o objectivo de auscultar as comunidades envolvidas na contenda que opõe o Governo Provincial aos fiéis de Tchihehepepe.

Sofia Mariana Luís, da Promoção da Mulher na Igreja Católica (PROMAICA), disse que a vice- governadora, convocou o encontro com a sua comunidade mas foi reunir-se com uma outra comunidade e em local diferente do combinado. “No dia 27 de Dezembro do ano passado ela nos disse que viria aqui para conversar com o povo da PROMAICA e no entanto não apareceu! Eles chegaram e, em vez de pararem aqui, segundo o prometido que o encontro seria aqui, passaram directo lá pelos lados da fazenda do governador, chamaram aquele povo do outro lado do rio, que é do Nguelengue, para falar sobre este problema da água”, apontou. Por outro lado, a também integrante das minorias dos Gambos, explicou que a auscultação sobre o assunto tinha de ser feita com os povos que são beneficiários da água de Tchihepepe, ao invés do que foi feito, daí o bloqueio da estrada.

“Por isso nós fizemos esta barreira na estrada, para que os fazendeiros não tirem mais água, se tiverem que tirar água têm que chamar primeiro aquele povo do Nguelengue para vir falar qual é o acordo que eles têm, ou então vão tirar no rio! Daqui não saímos enquanto os do Lubango não vierem”, informou. O descontentamento é extensivo também aos membros da PROMAICA, que se sentem desrespeitados pelo facto de terem esperado acima de 10 horas por um encontro que supostamente daria fim à contenda com o Governo Provincial.

Julieta Fernanda Mumbinda disse que por este facto vão continuar a bloquear o acesso à fonte de Santo António até que o Governo explique os reais objectivos do seu projecto. “Dia 27 nos mandaram esperar aqui, das 8 até às 17 horas, que a vice-governadora precisava de conversar com a PROMAICA, mas não apareceu, foi reunir com os fazendeiros, foram instruir o povo do Nguelengue, juntaram-se na fazenda para dizerem-lhes que o povo do Tchihepepe aceitou este projecto que vai puxar águas para as fazendas! Já que não nos respeitam, fizemos essa barreira na estrada”, assumiu. A luta pelo acesso à água já dividiu o povo criador tradicional de Gado, sendo que uma ala apoia o projecto do Governo Provincial da Huíla, orçado em Kz 318.035.020,00 (trezentos e dezoitos milhões, trinta e cinco mil e vinte Kwanzas), para apoiar a transumância e abastecer as populações.

Um projecto que, segundo os criadores de gado, só vai beneficiar quatro grandes fazendas cujos proprietários fazem parte do Governo Provincial, com destaque para o governador provincial da Huíla, João Marcelino Tyipinge, e o director provincial da Energia e Águas, Abel João da Costa. Questionado sobre uma possível briga que se poderá desencadear entre o mesmo povo dividido apenas pelo rio Caculuvar, Dionísio Tyemueta Cachululu disse que há uma divisão entre o povo, sendo que parte do mesmo já anda alinhado ao Governo Provincial e outra que não aceita o projecto. “A equipa da vice-governadora não reuniu connosco, reuniu com um povo que não é daqui! Eles foram buscar o povo do outro lado do rio para que estes aceitassem o projecto!

Nós somos todos povo dos Gambos, o que nos divide é o rio Caculuvar, nós estamos na comuna e outros estão na sede, próximo ao rio que tem água. Tinham que ouvir todos os principais beneficiários destes furos”, defendeu. Face ao risco eminente de uma rincha entre os povos dos Gambos, o pároco da Missão de Santo António, Padre Jacinto Pio Wacussanga, disse que qualquer situação adversa que resultar desta acção será da responsabilidade do Governo Provincial da Huíla. “É verdade que numa comunidade nem todos têm a mesma ideia, mas aqui não se trata de uma opção!

O estar a favor ou contra não se trata de uma opção resultante do livre arbítrio que é inerente à vontade humana, não! Trata- se, de facto, do mau trabalho do director provincial das Águas, apoiado pelo administrador municipal dos Gambos, que manipulam algumas pessoas para aceitarem o projecto e a outra comunidade venha a dar o braço a torcer para o projecto passar. Assim sendo, responsabilizo esses dois órgãos pelas eventuais consequências que daí advierem no futuro”, ressaltou. O sacerdote lembrou que a disputa pelas fontes de água e das zonas de pasto tem resultado em conflitos violentos, sobretudo em África. “Todos eles sabem dos choques violentos havidos entre pastores por causa dos poços de água, e isto é conhecido. Os Gambos têm uma memória fresca desses conflitos que têm os pontos de água como centro!

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