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O jornal OP AÍS passará a publicar às Quartas-feiras, neste espaço, extractos do programa Economia Real, da Rádio Mais, de análise económica semanal. Na Rádio Mais, o programa vai ao ar todas as Terças-feiras, às 20h30, com um comentador residente, o economista Yuri Quixina, conduzido pelo jornalista Mariano Quissola

Por: Mariano Quissola, Rádio Mais

Economia Real (ER): Yuri Quixina, obrigado por cá estares nesta missão que já se tornou um sacerdócio…

Yuri Quixina (YQ): Muito obrigado. Antes de mais gostaria de homenagear um professor da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, que mais me influenciou no pensamento económico. Jacob Pereira Lungo, o grande “Jacaré”, fomos enterrá-lo na semana passada. O primeiro foi o professor João Ferreira, que me transformou em professor universitário. Portanto, são esses dois professores que homenageio nesta edição do Economia Real.

ER: Para a análise dos temas que marcaram a semana passada, comecemos com as mudanças operadas no Fundo Soberano?

YQ: O Executivo fez uma avaliação rigorosa à gestão da antiga administração e chegou, entre outras conclusões, à falta de transparência na contratação de gestores de activos e prestadores de serviços.

ER: Antes de avançares para outros detalhes da sua análise, faça- nos aqui um breve ABC da natureza de Fundo Soberano. Percorre o mesmo fim em qualquer parte do mundo, certo?

YQ: Os países que têm Fundos Soberanos são aqueles que já re-solveram as necessidades básicas e fazem aplicações para salvaguardar qualquer problema que o país venha a viver. O Fundo Soberano tem essa essência. Um país que não tem um sistema de transportes públicos, que falta saneamento básico, água potável e eletricidade, não pode ter Fundo Soberano.

ER: Mas os Fundos Soberanos são criados essencialmente devido aos excedentes provenientes, na sua maioria, da venda de recursos minerais e petróleo…

YQ: Não só de recursos mineiros, há países que não dispõem de muitos recursos minerais, mas têm Fundo Soberano. Mas a questão que se coloca é: porquê poupar, se a geração actual está a sofrer, está a morrer por falta de saúde e educação?

ER: voltemos à análise anterior. Que avaliação faz da gestão anterior e a sua expectativa?

YQ: Como disse, a actual gestão também não tem experiência de gerir Fundo Soberano. Também poderá fazer como outra, que é contratar uma instituição para geri-la, como tem sido hábito aqui.

ER: Não faz fé ao diagnóstico feito à gestão anterior?

YQ: Quem devia gerir os activos do Fundo é o Banco Nacional de Angola. A melhor solução seria extinguir o Fundo. É o conselho que deixaria ao Presidente da República, de modo a evitarse, também, a criação de mais estruturas pesadas que consequentemente pesariam nas contas públicas.

ER: A realidade é que temos Fundo Soberano.

YQ: Ok, mas no longo prazo não fugirá desse, e está a dar a entender que temos muito dinheiro.

ER: Que valor os dois novos administradores não executivos poderão acrescentar à Sonangol?

YQ: É importante dizer que administradores não executivos não gerem empresa. São, geralmente, a caixa de ressonância da empresa, para saber o que se fala lá fora sobre a empresa…

ER: Há quem os chame de “os ouvidos e olhos” do Presidente da República. Concorda?

YQ: No fundo, o Presidente da República queira alguém mais próximo dentro da Sonangol.

ER: O que dizer do novo regime cambial em vigor?

YQ: O regime continua na mesma tendência. O Banco Nacional de Angola não queria desvalorizar de forma repentina. E está a desvalorizar de forma paulatina. Por exemplo, a venda do dólar já chegou a 248,77, quando no início estava a 221,26. Houve desvalorização. O BNA continua a direccionar a venda das divisas.

ER: O petróleo oscila entre os 57 e 70 dólares o barril, desde Dezembro. Julga ser um bom indicador?

YQ: Estruturalmente não. Por duas razões: quais são as razões que levaram à alta de preços nesse período?

ER: Quais são?

YQ: Primeiro, está relacionado com o facto de o Iraque e os Emirados Árabes Unidos se terem juntado aos produtores da OPEP, defendendo que os cortes entre os países devem-se prolongar. Segundo, é a queda do dólar. Nas últimas semanas, o euro ganhou terreno face ao dólar. Receio que se o preço do barril se mantiver nos 70 dólares, vamos uma vez mais adiar os nossos projectos de reforma.

ER: O Plano Intercalar prevê o repasse do financiamento externo ao sector privado. É sustentável?

YQ: Continuamos na lógica do crédito aos empresários. O meu entendimento é que os empresários não estão a pedir crédito, mas sim meios de produção (energia e águas, infra-estruturas agrícolas, pescas e industriais). E mais: o Estado não pode competir com os empresários no acesso ao crédito à banca comercial.

ER: Sugestão de leitura.

YQ: “Crer ou não crer”, de Leandro Carnal. Pode ser encontrado na biblioteca virtual (Le livro, no Google). Nora: A próxima edição será publicada Quarta-feira, neste espaço.

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