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Baixo preço de bebidas na Shoprite atrai menores ao consumo anárquico de álcool

O baixo preço de algumas bebidas alcoólicas no supermercado Shoprite do Palanca, em Luanda, tem atraído adolescentes ao consumo desregrado. São menores com idades compreendidas entre os 14 e 16 anos, que mergulham na embriaguez, durante horas, no espaço reservado ao estacionamento.

Por: Domingos Bento

A prática é mais acentuada às sexta-feiras, sábados e domingos. Nesses dias, os adolescentes aparecem em grupos e consomem de tudo um pouco, como vodka, cervejas, whisky, gin e outras bebidas alcoólicas.

Os menores, entre rapazes e raparigas, chegam de todos os lados de Luanda, com destaque para Viana, Palanca, Cazenga, Golf (1 e 2) e Bairro Popular. Geralmente, aglumeram-se naquele espaço, a partir das 3h da tarde e por lá permanecem até ao anoitecer.

Pelo facto de não ser permitido no caixa do supermercado o atendimento de bebidas alcoólicas a menores de idade, estes adoptaram a estratégia de andar acompanhados por pessoas com idade superior às suas. Assim, são os mais velhos que se encarregam de comprar a bebida alcoólica toda que será consumida no “quintal” do establecimento comercial. Estes adultos, normalmente, fazem parte do grupo e conseguem passar no caixa com a quantidade de produtos pretendida.

É o caso de Finilson Patrício, 19 anos de idade, que se responsabiliza pela compra da bebidas para os outros membros do seu grupo, constituído por quatro rapazes e três raparigas. Residente no município de Viana, o jovem declarou frequentar três vezes por semana aquele espaço, onde, em companhia dos outros amigos, usam e abusam do álcool, longe dos olhos e do consentimento dos pais.

“Aqui, a responsabilidade é individual. Cada um é responsável por si próprio. Eu só compro as bebidas, mas cada um é livre de consumir, ou não, a quantidade que quiser”, esclareceu. Já Rui, um menor de 15 anos de idade, revelou a OPAÍS que o dinheiro que gasta é dado pelos pais para suprir outras necessidades.

Entretanto, tem restado um troco que lhe permite comprar bebida. “Nós, por exemplo, já temos os nossos dias. É obrigatório cada membro do grupo trazer 1000 Kz. Se formos oito pessoas ou dez, conseguimos ter uma tarde boa. Bebemos de tudo um pouco, mas o que nos traz aqui mesmo são as vodkas”, salientou. Afirmam os menores que o preço das bebidas na Shoprite não se compara a supermercado algum. Por este motivo é que se sentem atraídos a marcarem presença naquel local.

A título de exemplo, uma garrafa de vodka, que noutros pontos de Luanda pode ascender aos 4000 Kz, naquele supermercado, é 2299 Kz. O Gin está a 2499 Kz, o espumante 1399 Kz, whisky Passport 2799 Kz e a cerveja Sagres sai a 99 Kz. “Não tem como não nos sentirmos bem com estes preços. Se fosse no bairro onde moramos ou noutros supermercados, não conseguíamos nos embriagar”, atestou Rui, proveniente do bairro Kicolo, município do Cazenga. perigo à solta Estando embriagados, muitos destes menores acabam criando situações embaraçosas, como lutas, discussões e roubos de acessórios de viaturas de outros clientes.

Este facto foi-nos confidenciado por um agente da protecção local. Muitos já foram apanhados em flagrante a furtar piscas, retrovisores e outros acessórios. Já os menores negam tais práticas, defendendo que frequentam o espaço apenas para diversão, longe da intenção de roubar ou praticar acções menos positivas. “A nossa intenção, ao cá virmos, é apenas consumir e nos divertirmos, emboras tenha que adimitir que, às vezes, quando já estamos na drena (embriagados) alguns tentam fazer confusão.

Mas muitas vezes os segurança têm ajudado a apauzigar a situação. Normalmente as complicações terminam em agressões, mas já fora do recinto”, confessou Ladislau Miguel, 16 anos de idade. Outro perigo refere-se à integridade física dos menores, pois que, depois de estarem embriagados têm que percorrer longas distâncias de regresso às suas casas. Porém, ao longo do trajecto enfrentam o perigo de atravessar estradas como a Deolinda Rodrigues e a Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, bastante movimentadas, correndo o risco de serem atropelamentos. Segundo o menor Rui, à caminho de casa usa as pedonais. Já em casa, evita o contacto com os pais, e logo que eles chegam escon de-se no quarto. “Em casa, apenas a minha mãe sabe que consumo álcool. O pai não sabe de nada. Ela já me ralhou várias vezes. Penso em deixar, só que está difícil. Aprendi a beber na escola, com os amigos”.

Supermercado toma medidas

O OPAIS tentou contactar a direcção do supermercado Shoprite do Palanca, da qual não obtivemos respostas. No entanto, a nossa reportagem soube que visando acabar com tais práticas, a instituição proibiu, por via de uma nota (afixada em várias partes ), o consumo de quaisquer produtos e a permanência de pessoas, por muito tempo, no parque de estacionamento. A nota, emitida a 12 do corrente mês, está a inibir o consumo de bebidas alcoólicas no perímetro do estabelecimento. Como recurso, ao adquirirem os produtos, alguns jovens socorrem-se do espaço adjacente ao supermercado, por baixo da nova pedonal, onde fazem o consumo sob o olhar indignado dos transeuntes. “Foi por causa destes jovens que proibimos o consumo no estacionamento. Antes de emitirmos esta circular passávamos mal. Recebíamos queixas de clientes e de outras pessoas que sesentiam chocados com o abuso no consumo. É claro que nós, enquanto instituição, não autorizamos os nossos operadores a venderem álcool a menores”, explicou uma fonte da administração do supermercado. Já o sociólogo Oliveira Castro, considerou que se o supermercado não autoriza, de facto, a venda de bebidas alcoólicas a menores, aquele vê-se livre da culpa. Neste aspecto, disse, a responsabilidade deve ser dos pais, em virtude da falta de controlo em relação aos seus filhos. No seu entender, quando um pai não sabe do paradeiro do seu educando e sobre o que este faz na sua ausência, é um perigo eminente não só para a família, mas também para a sociedade. “Na verdade, o consumo de bebidas alcoólicas entre menores não é um facto novo, toda a sociedade conhece este mal. Portanto, a direcção do mercado fez bem ao proibir a venda a menores. É de lei”, concluiu.

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