Orlando Bernardo: “Se controlarmos a criminalidade em Luanda, controlamos o resto do país”

A estratégia para pôr fim ou reduzir a corrupção no seio da corporação, o reforço de meios de combate à imigração ilegal e ao contrabando nos postos fronteiriços, bem como à criminalidade violenta, são algumas dos temas que OPAÍS abordou com o comissário Orlando Bernardo, director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Comando Geral da Polícia Nacional

Por: Paulo Sérgio

A que se devem as visitas que o comandante geral da Polícia Nacional, comissário- geral Alfredo Mingas “Panda”, realizou aos diversos órgãos que compõem a corporação?

Sua Excelência o Comandante Geral da Polícia Nacional, como sabe, tomou posse há sensivelmente 60 dias. Pelo que, devido ao tempo que esteve fora da corporação a cumprir outras missões também pelo país, está neste preciso momento a fazer uma radiografia aos órgãos da Polícia Nacional.

Por forma a inteirar- se, primeiro, como estão em termos de funcionamento e deixar directrizes daquilo que vai ou está a ser o seu mandato durante estes cinco anos, tendo em atenção os dois grandes objectivos que traçou. Quais são esses grandes objectivos? Um dos primeiros grandes objectivos é o combate à criminalidade no país, mas tendo Luanda o foco principal.

Porque se tivermos o problema da criminalidade em Luanda bem controlado, obviamente, o resto do país controlase de forma sequencial. Incomoda mais o crime na capital do país. Não é que não incomode nas outras províncias, mas é fundamental que a capital do país tenha a criminalidade controlada, de modo a que as demais prossigam na mesma senda.

Outra preocupação grande no mandato que há pouco tempo começou tem a ver com o controlo das nossas fronteiras e a imigração ilegal, em função dos prejuízos que causam ao país. Como sabeis, ainda há estrangeiros que tentam entrar ilegalmente no territorio nacional, fundamentalmente em zonas como as Lundas Norte e Sul e Bié por causa do garimpo de diamantes, e, por isso, põem em causa a nossa economia. Daí que o Comandante Geral tem as fronteiras e a criminalidade em Luanda como as grandes linhas de actuação nos próximos tempos.

A terceira, que não ocupa propriamente o terceiro lugar por constituir também prioridade para o comandante geral, até para se alinhar o discurso do Chefe de Estado como do Comandante em Chefe, tem a ver com a corrupção no seio da Polícia Nacional. Fundamentalmente a gasosa.

A começar por onde?

Como sabeis, o trânsito é a face mais visível da Polícia Nacional e é ali onde este fenómeno, embora possa se manifestar noutros sítios, é mais visto. Com as visitas que o comandante geral está a fazer, já passou pela Brigada Especial de Trânsito, a Direcção Nacional de Viação e Trânsito e pela Unidade de Trânsito de Luanda, onde realizou uma formatura geral no Sábado, 20, e está a traçar aquilo que serão os objectivos no que diz respeito ao combate a este fenómeno.

Tem estado a levar uma cruzada neste particular, com uma atitude pedagógica, a transmitir aquilo que são as linhas de actuação, bem como a lembrar aos efectivos desses órgãos e também às chefias, que têm de criar condições para, no que diz respeito aos chefes, se combata o fenómeno. E, no que diz respeito a alguns chefes e efectivos que o praticam, para pararem.

Uma atitude pedagógica porque, embora haja um grande trabalho no sentido de pôr fim a isso, ainda é um fenómeno bastante recorrente. Neste particular, nós sabemos que o país é dos piores no ranking mundial no que diz respeito à sinistralidade rodoviária.

Aliás, é a segunda causa de morte no país, depois da malária. Uma das orientações que o comandante geral recebeu do Chefe de Estado tem a ver com isso. Portanto, um dos objectivos é mudar completamente o paradigma do trânsito no país. Reestruturar as forças que cuidam da actividade de trânsito do país, eis o foco.

Há comissões que estão a trabalhar nesse sentido. Nós, em termos de trânsito, demos primazia à fiscalização e às vertentes de prevenção rodoviária e de combate à sinistralidade rodoviária que, de facto, são basicamente secundárias.

Portanto, pretendemos mudar o paradigma, invertendo a pirâmide, passando a ter como prioridade do trânsito do país a prevenção rodoviária e o combate à sinistralidade rodoviária para que os níveis realmente baixem.

Como será feita essa inversão?

Haverá um grande investimento do Comando Geral em termos de estratégia para que se inverta isso, passando o trânsito a ter como prioridade o combate à sinistralidade rodoviária, fazendo-se um investimento claro na prevenção rodoviária. Formando os efectivos para que tenham a prevenção rodoviária na rotina, ou seja, como prioridade, e, obviamente, a fiscalização do trânsito em segundo plano, embora seja ela também importante.

Qual será o impacto directo disso na vida dos automobilistas?

Isso vai permitir duas coias: primeiro, que se combata de forma séria à sinistralidade rodoviária e também a famosa gasosa, porque quando não há fiscalização não se manda parar carros “por dá cá aquela moeda” ou “dá cá aquela palha”. Há pouca intervenção entre polícia e automobilista.

Havendo essa pouca intervenção, reduzse bastante os níveis de gasosa, isto sem esquecer que para o combate à gasosa existem outras medidas de fórum administrativo e disciplinares, que estão a ser criadas a fim de reduzi-la significativamente. Entretanto, as visitas do comandante geral nesses dias e pelo menos até Fevereiro, têm a ver também com essa mudança de paradigma. Sua Excelência quer um Comando Geral mais operacional. Ligado mais ao combate ao crime e ao cuidado daquilo que é o bem do cidadão.

As visitas serão extensivas às outras províncias?

Com certeza. Assim que concluir as visitas em Luanda, vai andar pelas províncias e pelas fronteiras do país. É preciso também ressaltar aqui, no combate ao fenómeno da gasosa, que o comandante geral tem feito bastantes intervenções, passando orientações em relação a isso.

Na formatura geral tomamos conhecimento, por exemplo, que em Luanda, no que diz respeito à Unidade de Trânsito, mais de 400 efectivos foram alvo de processos disciplinares, sendo que alguns foram expulsos. Mas há outro paradigma que também está a acontecer que é o facto de haver cerca de 1.200 cidadãos que foram levados a tribunal e condenados por tentativa de suborno de agentes da autoridade. Ou seja, já há aqui uma mudança de paradigma.

Os próprios agentes, quando estão a tentar ser corrompidos reagem, detendo os automobilistas que assim procedam. Os 1200 foram condenados a penas suspensas e a pagarem uma indemnização que vai entre 10, 15 a 20 mil kwanzas aos agentes da autoridade. É importante que a sociedade também preste atenção a esse pormenor diferente que se está agora a passar. Assistimos, recentemente, à inclusão de efectivos da Brigada Canina no leque de agentes da Ordem que patrulham no posto fronteiriço do Luvo, na província do Zaire…

Esse reforço será extensivo aos demais postos fronteiriços?

Essa é mais uma das orientações que o comandante geral transmitiu aquando da sua deslocação ao Luvo, para ver o que se passa nesse posto fronteiriço. Orientou a destacar naquele posto, sob cuidado da Polícia de Guarda Fronteiras, alguns binómios da cinotécnica de forma a auxiliar na execução das tarefas dos efectivos.

Tem estado a surtir bastante efeito. Essas mesmas sub-unidades caninas serão distribuídas por alguns postos de fronteira, obviamente, para terem os mesmos procedimentos e os bons resultados que se está a ter no Luvo. Na época em que o actual Comissário Geral, Alfredo Mingas “Panda”, exercia o cargo de comandante provincial de Luanda, eram realizadas várias operações, como a “Tolerância Zero”, entre outras.

Agora, nas vestes de Comandante Geral, há previsão de se aumentarem as operações ou micro operações?

O que eu posso dizer é que o comandante geral está neste preciso momento a trabalhar no sentido de ter um Comando Geral menos administrativo e mais operacional, de modo a dar resposta às questões de criminalidade que vão surgindo todos os dias no país. Portanto, as operações vão sempre existir. Dependem dos fenómenos que vão aparecendo. Não tem nada a ver com o querer do comandante geral, mas sim com a situação operativa que se apresente. O comandante geral tem uma visão muito específica sobre as questões operacionais da Polícia Nacional.

Realizou-se recentemente, em Luanda, uma formação direcionada a todos os porta-vozes da Polícia Nacional. Vão implementar novas dinâmicas nessa área que é o elo entre a corporação e a imprensa?

A dinâmica da comunicação institucional na Polícia Nacional terá a ver com aquilo que são os objectivos fundamentais deste órgão. O objectivo da Polícia Nacional, em termos estratégicos, é acelerar aquilo que diz respeito à relação com o cidadão. Tal relação fazse através de estratégias e um delas é o policiamento de proximidade. A comunicação institucional da Polícia Nacional deverá ser também de proximidade.

Vamos apostar muito naquilo que é a comunicação interna, que é um dos “calcanhares de Aquiles” que temos. Precisamos de apostar, este ano, na concretização das modalidades da comunicação interna da nossa instituição. Os nossos efectivos precisam de saber de forma antecipada e com clareza as estratégias e as orientações, para que cumpram cabalmente as suas tarefas de combate ao crime.

Mas também temos a outra dimensão, que é a comunicação externa, que considero ser um segmento que nós precisamos de encarar com alguma frontalidade. Nota-se que a Polícia também está presente nas redes sociais… Temos estado a fazer algumas experiências com a nossa página de facebook, o que tem surtido efeito, mas precisamos ainda de aperfeiçoá-la.

Já está em carteira a criação do website da Polícia Nacional e vamos criar um newsletter (boletim informativo), entre outros meios para melhorar a nossa comunicação institucional com vista a cumprir o seu objectivo e com as orientações que são emanadas pelo comandante geral. E, obviamente, trabalhar numa situação que é fundamental: a imagem da Polícia Nacional.

Sabe quantos internautas visitam diariamente a vossa página no facebook?

A página no facebook da Polícia Nacional tem neste preciso momento 137 mil seguidores. Gostávamos que fossem mais. Mas devemos compreender que, com os problemas que há no país, em termos de Internet também impedem que a abrangência seja maior. No entanto, nós apostamos numa modalidade que – é importante dizer -, se consubstancia na relação com os internautas.

Ou seja, nós somos obrigados a responder às questões que nos são colocadas pelos internautas. Ajudá-los a resolver os problemas que nos expõem. Embora não sejamos a área vocacionada para isso, nós encaminhamos para as áreas específicas e cobramos resultados para sermos informados.

Para além de nos contactarem por esta via, os cidadãos podem ligar para os gestores da nossa página pelos números 996 796 002 (24/24) e o 222 719 204 (durante o dia) para pedirem explicações ou ajuda. Semanalmente recebemos, por via destes terminais, perto de 200 chamadas. Na nossa página publicamos todas as operações que os comandos de Polícia fazem de Cabinda ao Cunene.

Como avalia a relação da Polícia com o cidadão?

Temos muito que melhorar , mas é importante que nos aproximemos mais do cidadão. E, por vezes, o cidadão ainda tem a ideia de que não se pode aproximar muito do polícia, o que exige que o polícia tenha que fazer os possíveis para ir ao seu encontro.

Recentemente, a polícia fez uma mega operação no Mártires, em Luanda. que culminou na reposição da ordem pública. Serão realizadas operações similares onde se viva e se registe o mesmo movimento que havia no Mártires?

É claro que sempre que se faz uma operação e cujo objectivo é trazer tranquilidade e a ordem em determinado sítio, é natural que depois se estenda para outras zonas. Não lhe posso dizer que sim ou que não, mas sei que um dos grandes objectivos é precisamente conseguir que haja paz, tranquilidade e ordem acima de tudo, nos nossos bairros e municípios. A Polícia Nacional está atenta a isso. Se tiver que ser, será!