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Presidente João Lourenço com “baptismo” na União Africana

E pronto, já aconteceu! João Lourenço, o Presidente da República de Angola, fez Domingo o que informalmente se conhece pelos corredores da diplomacia em Addis Abeba como o “baptismo dos mais novos”, que é o acto de discursar, em plenária, na condição de Presidente recentemente investido nas funções.

Por: Amadeu Rocha, em Addis Abeba (Etiópia)

É uma tradição dos tempos da União Africana (UA), não tanto da época em que a entidade se chamava OUA (Organização de Unidade Africana), até porque por aquela altura África não era propriamente um cenário de rotinas eleitorais e então quase não havia novos Presidentes a juntarem-se aos que se encontravam no exercício de longos e discricionários mandatos.

Desta vez foram cinco, três chegados ao poder no intervalo entre uma cimeira e outra (2017 a 2018), mais dois outros que, resultando de eventos eleitorais anteriores a esse período, não tinham tido, porém, o seu momento de “baptismo”. Os três do ano transacto são nomeadamente João Lourenço, de Angola; Emmerson Mnangagua, do Zimbabwe, e George Weah, da Libéria.

Os outros dois são os presidentes da Somália, Mohamed Abdullahi Mohamed, e do Benin, Patrice Talon. Domingo de maratona Simbolismos protocolares à parte, o certo é que o dia em que a entidade herdeira da inesquecível Organização de Unidade Africana, OUA– a tal da corajosa e determinada acção dos povos do continente pela conquista das suas independências dos colonizadores europeus – recebeu, de forma apoteótica, os novos presidentes, esteve muito longe de ser uma jornada de fogo de artifício e champanhe a cântaros, tendo ficado marcado, bem pelo contrário, pelas longas horas de trabalho das delegações presidenciais.

Começaram com uma reunião às 9 horas inteiramente consagrada à reforma institucional da União Africana, que, em regime non stop, se estendeu até depois das duas da tarde; houve depois a Foto da Família – momento sempre aguardado com grande ansiedade pelos profissionais da imagem que se deslocam anualmente à capital etíope para o registarem – e, por último, a plenária que é um carrossel de actos a começar pela abertura reformal e seus discursos, o “baptismo” dos mais novos presidentes, a passagem de pastas na liderança (este ano o presidente Paul Kagamé do Ruanda sucedeu à frente da organização continental a Alpha Condé, Chefe de Estado da Guiné Conacry).

No meio da exigente agenda do primeiro dia, ainda houve tempo para África homenagear dois dos seus cérebros mais brilhantes no campo das Ciências, o professor argelino Malique Massa e o académico sul-africano Peter Miller. Cada um destes eminentes cientistas filhos de África embolsou a maquia simpática de cem mil dólares norte-americanos, por vencerem a última edição dos prestigiados Prémios da Ciência promovidos pela União Africana.

Malique Massa triunfou na categoria Ciência, Tecnologia e Inovação, com trabalhos pioneiros em Nanotecnologia, resultado de pesquisas laboratoriais e de campo que tiveram a África do Sul como o grande palco. Por sua vez, Peter Miller – que é cidadão sul-africano – também chegou ao sucesso apoiando-se no grande potencial científico que a nação arco-íris reúne e o que andou a investigar pertence ao campo das Ciências Humanas, desenvolvendo nomeadamente estudos avançados à volta da hormona gromatrotopina, células corneais, fertilização in vitro e cancro da próstata, entre outras prodigiosas acções em prol da saúde humana.

Os dois cientistas que orgulham África foram cortantes e radicais nas ideias sobre o caminho a percorrer no continente, para que o desenvolvimento e o progresso não continuem a ser uma velha miragem com séculos de espera. Afirmaram: “A riqueza do continente africano não está nos seus recursos minerais mas nas pessoas. Facilitem a circulação dos jovens, das mentes brilhantes pelo continente, e verão o que acontece!”.

Um cabaz de ideias Se João Lourenço recorreu aos arquivos da memória para recuperar aquela que talvez seja a máxima mais notável e o pensamento mais célebre e recordada de Agostinho Neto nas andanças político-diplomáticas pelo continente – “ África parece um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu pedaço” -, é certo, também, que o novo Chefe de Estado de Angola marcou a sua estreia em cimeiras da União Africana com uma mão cheia de ideias que permitem ir fazendo já, por parte dos seguidores de percursos dos homens políticos, juízos de valor a respeito de como o estadista marcará o seu tempo. No debate sobre a Reforma Institucional da Organização, por exemplo, defendeu de modo claro e concreto o programa de reformas que a UA tem neste momento sobre a mesa, considerando-o de “momento único para agirmos com determinação e coragem, de modo a transformarmos a União Africana num mecanismo para o reforço da independência e da paz e num factor impulsionador do desenvolvimento, capaz de fazer face e de vencer os grandes desafios da actualidade, quer a nível do continente quer a nível global”.

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