Falta de escolas no Uíge força 400 crianças a estudar no congo

Os municípios de Maquela do Zombo, Milunga e Quimbele são os mais afectados, segundo o director provincial da Educação, Manuel Zangala, que se lamenta também da fuga de professores das poucas escolas daquelas localidades, por causa do difícil acesso e a falta de subsídio de isolamento

Por: Milton Manaça

O director da Educação do Uíge, Manuel Zangala, disse, em entrevista exclusiva ao jornal OPAÍS, que diariamente cerca de 400 crianças desta província atravessam a fronteira, em época de aulas, para estudar na República Democrática de Congo (RDC).

As quatro centenas de alunos que vão à busca do saber, residem nos municípios do Maquela do Zombo, Milunga e Quimbele, e fazem-no pela exiguidade de escolas e o difícil acesso aos municípios vizinhos da província do Uíge. O responsável disse que o difícil acesso tem limitado o Executivo de Mpinda Simão de levar os serviços sociais a estes municípios, principalmente a construção de infra-estruturas escolares do Ensino Geral.

A situação já dura há anos, e embora Manuel Zangala não tenha revelado o número de escolas existentes em cada um dos três municípios, assinalou que muitas crianças estudam em condições precárias. “Há muitas salas precárias, algumas a funcionarem debaixo de árvores e outras construídas à pau-à-pique, por iniciativa própria da população. Na mesma condição, estão outras que funcionam nas igrejas”, frisou.

A fuga de professores colocados nas poucas escolas locais é outra razão que tem influenciado a procura de ensino na República Democrática do Congo, pelo facto de não haver transporte que os leve a estes municípios. “Os professores furtam-se de ir àquelas zonas porque não há transporte. Lá só se chega de motorizada. Não têm subsídio de isolamento e isso desmotivaos”, explicou Manuel Zanga.

Entretanto, frisou que a proximidade territorial faz com que alguns munícipes com laços familiares na RDC prefiram que os seus filhos estudem nas escolas do país vizinho.

A aculturação foi apontada como uma das consequências desta situação, pois, segundo o responsável, as crianças enquadradas no sistema de ensino congolês quase não dominam a cultura angolana e apresentam dificuldade de comunicação em língua portuguesa.

No sentido inverso, demostram um vasto conhecimento da história do país vizinho. Note-se que só na província do Uíge cerca de 300 mil crianças e adultos ficarão sem estudar, no presente ano, por falta de escolas, dos mais de 600 mil em todo território nacional, por insuficiência de salas de aulas e de professores.

25 escolas financiadas pela espanha

Para minimizar a situação, está prevista a construção de 25 escolas para a província do Uíge no Programa da Linha de Financiamento da Espanha, e, segundo Manuel Zangala, a prioridade recairá aos supracitados municípios. Desde 2013 que os responsáveis de Educação da província de Malange se têm queixado do mesmo problema, onde crianças do município de Marimba atravessam a fronteira para estudar na RDC.

Bié com 141 turmas debaixo de árvores

Em entrevista recente a OPAÍS, o director provincial da Educação do Bié, Basílio Caetano, disse que na sua província encontram-se actualmente 141 turmasde escola funcionando debaixo de árvores.

Segundo Basílio Caetano, cada turma tem entre 45 e 50 alunos a estudarem debaixo de árvores, salas de chapas e varandas. “É uma situação difícil, porque temos um Bié que chove praticamente durante nove meses”, lamentou o responsável, realçando que necessita de 486 escolas de construção definitiva.