FBI questiona memorando que o acusa de espionar campanha de Trump

O FBI , Polícia Federal dos Estados Unidos, questionou Quarta-feira (31) um memorando confidencial no qual é acusado de espiar a campanha eleitoral do Presidente Donald Trump, horas depois de o chefe de Estado se pronunciar favorável à sua divulgação.

O relatório mantém Washington em alerta, num momento em que o procurador especial Robert Mueller, que investiga a possível interferência da Rússia nas eleições de 2016 para favorecer Trump, visa interrogar o Presidente. Os republicanos, que controlam o Executivo e o Congresso, votaram Segunda-feira pela publicação do memorando redigido por Devin Nunes, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara de Representantes e próximo a Trump. Segundo os republicanos, o relatório mostra como o Departamento de Justiça (DoJ), durante o Governo de Barack Obama, e também o actual, tentaram prejudicar Trump.

Mas o DoJ e o seu Escritório Federal de Investigação (FBI, em inglês) se opõem firmemente à publicação do texto por considerar que inclui informação altamente sensível sobre operações de contra-inteligência dos Estados Unidos. O FBI insistiu, esta Quarta-feira, numa declaração que coloca em dúvida a “exactidão” da informação apresentada no documento de quatro páginas. “Como expressámos durante a nossa revisão inicial, temos sérias preocupações sobre omissões de factos materiais que afectam fundamentalmente a exactidão da nota”, afirmou o FBI, que lamentou não ter tido a oportunidade de rever o relatório de forma profunda antes da votação sobre a publicação.

A Oposição democrata afirmou que o memorando é baseado em informações selectivas que não reflectem a totalidade do relatório confidencial. Adam Schiff, o democrata de mais prestígio na Comissão de Inteligência, afirmou Quarta-feira à noite, em carta aberta a Nunes, que se efectuaram mudanças “substanciais” no memorando sem o conhecimento nem a aprovação dos membros da comissão, antes do seu envio à Casa Branca.. Schiff propôs a retirada do actual documento e uma nova votação na próxima semana.

“100%”

Trump tem até Sábado para travar a divulgação se considerar que compromete a segurança nacional. Mas ao sair do Capitólio, depois do seu discurso sobre o estado da União de Terça-feira, Trump disse que apoia a publicação do polémico documento. “Senhor Presidente, divulguemos o memorando”, disse o congressista republicano da Carolina do Sul, Jeff Duncan, ao que Trump respondeu: “Não se preocupe, 100%”. O chefe de gabinete de Trump, John Kelly, disse Quarta-feira que os conselheiros de Segurança Nacional da Casa Branca estavam a examinar o documento. “Estão a dividi-lo em pedacinhos, analisando para que saibamos o que significa e o que supõe”, declarou à rádio Fox. “Será divulgado bastante rápido, creio, e todo o mundo poderá vê-lo”.

Segundo analistas, isto pode afectar a continuidade do director do FBI, Christopher Wray, mas também do número dois do DoJ, Rod Rosenstein. O memorando de Nunes relata, segundo meios de comunicação locais, como foi espiado Carter Page, um assessor da campanha eleitoral de Trump com muitos contactos em Moscovo. Para conseguir autorização sob a Lei de Vigilância da Inteligência Estrangeira (FISA, em inglês), o DoJ baseou-se num “dossier” compilado pelo ex-espião britânico Christopher Steele e parcialmente financiado pela campanha da adversária de Trump nas eleições de 2016, Hillary Clinton. O FBI afirmou Quarta-feira levar “a sério” as suas obrigações em relação ao estipulado pela FISA.

“Abusos de vigilância”

Em comunicado, Nunes respondeu que “não o surpreende” que o DoJ e o FBI se oponham à publicação de “informação relacionada com os abusos de vigilância”. “Está claro que funcionários de alto escalão utilizaram informação não verificada (…) para impulsionar uma investigação de contra inteligência durante uma campanha política americana”, declarou. Os republicanos consideram o “dossier” de Steele parcial e questionam que Rosenstein tenha prorrogado a autorização de vigilância de Page em Setembro. O memorando supostamente destaca o papel de Rosenstein, que foi quem nomeou Mueller para dirigir a investigação da trama russa, e que é o único que pode demiti-lo. Também menciona Andrew Mc- Cabe, o ex-subdirector do FBI, cuja renúncia foi revelada na Segunda-feira depois de receber desde 2016 muitas críticas de Trump e dos republicanos, que o acusavam de agir em favor dos democratas. A Oposição democrata, que rejeita a publicação do memorando, afirma que este só tenta desacreditar o FBI e a investigação de Mueller.