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“Portugal nunca quis dar a independência ao povo angolano”

Quem o diz é o nacionalista José Diogo Ventura, 89 anos, natural de Malange, e um dos integrantes do célebre “Processo dos 50”, por intermédio do grupo “Espalha Brasa”, o primeiro de jovens angolanos detidos pela PIDE-DgS e encarcerados na famigerada casa de Reclusão, por rebelar-se contra as injustiças do colonialismo português a que o povo angolano estava sujeito. cinquenta e sete anos depois deste levantamento popular, O PAÍS conversou com este que, até Agosto de 2017, era também o deputado mais velho da Assembleia nacional

Entrevista de: Ireneu Mujocos 

Passados cinquenta e sete anos desde o início da luta armada de libertação nacional, até à conquista da Independência Nacional a 11 de Novembro de 1975, qual é o balanço que se lhe oferece fazer?

O balanço é positivo e valeu a pena esta luta, porque o país começou a ser colonizado desde 1482 pelos portugueses. Até aos anos 50 do Século passado, o país continuava ainda a sofrer a discriminação e a opressão colonial. O colono dizia que o nosso país era também Portugal, para nos enganar. Mas todos sabemos que Portugal é um país europeu, e Angola é um país africano, e, por isso, nunca seríamos portugueses. Éramos portugueses de ocupação, por isso, a luta de resistência começou há muitos séculos.

Começou com os nossos antepassados…

Exactamente. Nos Séculos passados, os nossos antepassados Rainha Njinga-a-Mbande, Ngola Kiluanji, Ngola Ynene e outros, resistiram sempre à opressão colonial e o nosso povo nunca tinha desistido de dizer Etu Twâna Ngola (somos filhos de Angola). Esta expressão, em Kimbundu, já naquela altura, declarava que somos filhos de Angola e nunca de Portugal. Por isso, a nossa luta armada foi determinante para a nossa liberdade.

O que é se pretendia na altura. Auto-determinação ou Independência?

Depois da II Guerra Mundial, que foi violenta na Europa, a Organização das Nações Unidas (ONU) decidiu que nos países onde havia colónias devia haver independências ou auto-determinação, e é assim que países como a França e a Inglaterra foram dando as independências às suas antigas colónias, mas Portugal não queria.

Não queria porquê?

Dizia que não tinha colónias, tinha apenas províncias ultramarinas e toda a população desses territórios era portuguesa. Portugal dizia ainda que essa população preferia ser portuguesa.

Mas não era verdade…

Claro que não, senhor jornalista. Se fôssemos seu povo, como dizia falsamente, não nos teria massacrado, não nos teria feito escravos, enviando-nos vendidos para as Américas, Brasil e São Tomé e Príncipe para trabalhar nas roças de café e do cacau. Como sabe, saiu muito escravo para São Tomé e Príncipe. Na minha província de Malanje saiu muita gente como escrava para São Tomé e muitos que foram deportados já não voltaram à sua pátria de origem.

Onde é que o senhor esteve naquela altura em que se deu o levantamento popular de 4 de Fevereiro?

Já estava preso na Casa da Reclusão, aqui em Luanda, porque pertencia ao grupo do célebre Processo 50. Este grupo foi o primeiro que enfrentou o colonialismo português e, por isso, todos nós que integrávamos este mesmo grupo fomos presos, julgados, condenados e desterrados para Cabo Verde.

Com quem esteve preso, sobretudo os que lhe eram mais próximos?

Estive com o Gamaliel Martins, Lopes da Costa, Jorge Lopes Teixeira, Manuel Bernardo de Sousa, Manuel Baptista de Sousa, Agostinho Mendes de Carvalho, Adão Domingos Martins, José Fialho da Costa, Manuel Bernardo de Sousa, Manuel Baptista de Sousa, José Manuel Lisboa, Armindo Ferreira da Conceição, e havia outros mais velhos com os quais trabalhávamos como António Pedro Benje, Fernando Pascoal da Costa, Sebastião Gaspar Domingos, Joaquim de Figueiredo, Belarmino Van-Dúnem, Nobre Pereira Dias, e outros.

Mas para além destas pessoas que pertenciam ao grupo Espalha Brasa, havia outros?

Sim havia outros como os do falecido Ilídio Machado, do Beto VanDúnem e do Amadeu Amorim. Antes dos integrantes do 4 de Fevereiro, nós fomos os primeiros a fazer o choque com os portugueses, fazendo panfletos para despertar a população e com base nesta acção revolucionária fomos presos e julgados pelo Tribunal Militar Territorial de Angola (TMTA) com penas pesadas, condenados e deportados para o Campo de Concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Que impacto teve a vossa prisão?

Foi com base na nossa prisão que o resto da população se levantou, porque os portugueses estavam contentes, tanto mais é que depois da nossa prisão a Força Aérea Portuguesa foi atacar a localidade de Baixa de Kassanje, em Malanje, matando com bombardeamentos aéreos milhares de camponeses indefesos nos campos do cultivo de algodão.

Qual foi o seu sentimento no dia em que houve esse levantamento, apesar de que já estava preso na Casa de Reclusão?

O meu sentimento é que a luta ia continuar para a libertação deste país do jugo colonial português, porque tinha acabado uma etapa da nossa luta política, começada pelos integrantes do Processo 50, e, finda essa, começava uma outra etapa, que é a da luta armada contra esse mesmo colonizador. Como sabe, esta mesma luta durou 14 anos até chegarmos ao dia 11 de Novembro de 1975.

Os dias que se antecederam à revolta do 4 de Fevereiro o ambiente já estava agitado cá fora, e na prisão o senhor sabia o que haveria de acontecer?

Eu não sabia de nada, e muito menos o que ia acontecer naquele dia. Os nossos camaradas foram para nos libertar, mas não conseguiram nos tirar da cadeia. Depois deste fracasso, mas importante acção revolucionária, fomos deportados para Cabo Verde.

Passado esse tempo todo, o que acha que foi feito e o que deve ser feito?

Devo dizer que tivemos uma grande vitória. A grande vitória foi o alcance da Independência Nacional. Mas depois deste feito, lamentavelmente o país mergulhou numa nova guerra, fratricida, porque houve depois desentendimentos entre os três movimentos de libertação nacional (FNLA, MPLA e UNITA). Essa guerra durou 27 anos e foi mais destrutiva do que a guerra de libertação nacional.

Foi uma guerra desnecessária…

Exactamente, não devia existir, porque foi uma guerra entre filhos da mesma pátria, causou mais mortes, produziu mais viúvas e órfãos, mutilados e separou famílias inteiras que não conhecem os seus ascendentes, e estão nesta condição pais e mães, tudo isso porque não nos entendemos no passado. Mas depois houve um esforço e alcançou-se a paz.

Qual é a análise que faz destes anos de paz definitiva, alcançada há 16 anos?

Muita coisa. Com o fim da guerra já é possível fazer-se a circulação de pessoas e bens, o que antes da paz era difícil. Hoje, já se vai a qualquer ponto do país sem qualquer receio de emboscadas nem de minas. Hoje sai-se, por exemplo, de Luanda e chega-se no mesmo dia ao Cuando Cubango, assim como noutros pontos do país, sem violência, enquanto antigamente para se atingir esta região do país fazia-se 15 dias ou mais. Mas, hoje, felizmente já não há este problema.

Quando olha para a juventude de hoje, nota-lhe algum fervor patriótico como na sua época?

Cada época tem a sua história. Há sim jovens patriotas, mas também há aqueles que não são, porque são mais imediatistas e querem obter tudo num só dia. A vida é feita trabalhando. É preciso que a nossa juventude aposte na formação, no emprego para ajudar a desenvolver este país, cuja Independência foi conquistada com muito sacrifício, lágrimas, sangue, suor, dor e luto. É preciso incutirmos na juventude o espírito de patriotismo.

Como vê a situação sócio-económica daqueles bravos heróis que se empenharam na luta armada de libertação nacional (os do Processo 50 e os combatentes do 4 de Fevereiro)?

Há uns que estão estáveis, outros nem tanto assim, há os que ainda não estão bem. Mas o Estado está a trabalhar para que esses heróis sejam reconhecidos e que tenham uma vida mais condigna.

Que recordações tem da sua prisão em 1959, ou seja, que mais o marcou?

Foi o facto de quase perder os meus filhos. Não tinha ninguém para os cuidar, a minha esposa era a única que cuidava deles naquela época difícil em que estive preso. Foi graças ao empenho da minha esposa, na altura, empregada de um português que com o mísero salário que recebia minimizava a situação, cuidando dos meus filhos.

Que mensagem gostaria de deixar, e a quem?

Para todos os angolanos de Cabinda ao Cunene, que tenham fé e esperança de que melhores dias virão para que tenhamos uma Angola mais próspera, porque em 16 anos de paz os sinais do progresso são visíveis e com o andar do tempo as coisas evoluirão para o bem-estar de todo o povo angolano.

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