O onça libertador

O homem aproximou-se e confundiu- me com um dos motoristas dos vários carros estacionados na rua. Os chefes estavam lá dentro a almoçar. Isto permitiu- lhe um à vontade extraordinário.

POR: José Kaliengue

Eu não me desfiz, aliás, só mais tarde percebi que ele tinha visto em mim um motorista de um dos chefes e não um jornalista. Assim ficou tudo mais genuíno. Mas quando se deu conta da sua confusão já era tarde. Já tinha falado. Tem cinquenta e seis anos, entrou na tropa com quinze, fez-se um tipo de comando, onça, às ordens de Kundi Paihama. Mostrou-me as marcas da guerra, estilhaços. Os óculos escuros não saem por causa do olho que não está bem, ficou mal com o rebentamento de um obus quando tentava socorrer um colega, no Cuito Cuanavale. Diz que conhece bem o país todo, “há zonas que o Governo nem conhece, eu sei sempre onde encontrar comida, meu irmão”. Saiu da tropa apenas quando desmobilizado. Agora está na Huíla há dois anos como segurança de um “maioral”. Ontem estava preocupado com os estragos da chuva de Luanda, a casa fica ao lado da linha férrea e não sabia como ficou. Mas já está cadastrado para ser transferido para o Zango. Considera- se um homem com sorte, e ser baixinho, metro e cinquenta, valeu na guerra, até para libertar o Congo, porque os baixinhos é que libertam os países, como no Vietname, “os americanos que o digam”. João Lourenço tem de ver bem a situação dos antigos combatentes, embora a ele tenham mandado esperar até chegar aos 63. Mas como tenho a 11ª, vou-lhe escrever. Mas João Lourenço pode também esperar por outras cartas, como uma que lhe poderá dizer que o Instituto Politécnico da Huíla tem cursos em ciências biológicas mas não tem um laboratório. Mas esses sabiam que eu era jornalista e não me disseram tudo.