Linguagem padrão

Quando ligamos a algum call center em Angola, tanto podemos ter uma subida da pressão arterial, como podemos divertir-nos um pouco. Depende do estado de alma em que nos encontremos no momento.

POR: José Kaliengue

Aquilo é giro, os moços que nos atendem parecem robots, não ouvem o que dizemos, têm um discurso ensaiado e vão repetindo, independentemente de estarmos numa aflição com um parto na rua, ou se queremos apenas uma informação banal como o saldo na conta do banco ou na conta do telefone. Eles não se desviam. O cliente diz: “estou aflito”, mas eles: “boa tarde, como está caríssimo cliente?, queira dizer o seu nome. É fulano de tal, certo? De onde nos fala? Por obséquio, queira dizer o que o levou a ligar para nós”… perdemos uma eternidade e bué de dinheiro do saldo até chegarmos ao que nos interessa. Dá para fazer explodir os nervos. Mas se estamos em dia sim, dá gozo verificar o esforço que fazem para serem bem educados, a paciência que têm connosco também. O mais giro é o seu “português profissional”, longe da linguagem do dia-a-dia. De vez em quando lá um se engana e sai o puro muangolê, mangop das batidas. Acaba por ser um bom trabalho, o que as empresas fazem, ensinando jovens a dirigir-se de forma correcta aos clientes. Nos restaurantes, as empregadas de mesa vão connosco a meio-campo com um “tu” que não sei de onde vem logo no primeiro contacto. No fim, ainda são capazes de pedir um “empréstimo”, ou têm o descaramento de dizer: “pagas com cinco mil? Os três mil de trocos são já meus, ya”?