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A cadeia de transmissão de doenças por detrás da beleza

Máquinas de barbear e outros instrumentos de corte usados no tratamento das unhas, nos salões de beleza e barbearias, são desinfectados com álcool, petróleo e gasolina, substâncias impróprias segundo os especialistas. Clientes ficam expostos a uma “cadeia de transmissão de doenças”

POR: Joel Coimbra

forma como são esterilizados alguns utensílios usados em barbearias e salões de beleza, levou a equipa de reportagem de OPAÍS a fazer uma ronda, na cidade capital. Ao que se constatou, principalmente nas zonas suburbanas, muitos dos profissionais destes estabelecimentos desconhecem o processo correcto para desinfectar as ferramentas de trabalho. Alguns dos clientes apenas preocupam- se com o corte de cabelo e prestam pouca atenção na prevenção de doenças que podem ser transmitidas por objectos cortantes. No Golfe II, por exemplo, numa das barbearias que fizemos a constatação, no final de cada corte, o barbeiro desinfecta as máquinas com petróleo. Nalguns momentos o barbeiro chega a desmontar o pente da máquina com uma tesoura e borrifa o petróleo de forma separada, e noutros não.

“Assim já está”, assegura, o barbeiro Jordan, que o material estava pronto para ser usado na cabeça de um outro cliente. Jordan acredita que o petróleo e a gasolina são substâncias capazes de atestar que a máquina de barbear não esteja contaminada. “Eu aprendi a cortar o cabelo com o meu irmão mais velho, na sua barbearia. Via-lhe sempre a colocar petróleo ou gasolina na máquina. Por isso, acredito que a máquina pode estar desinfectada só com isso”, disse. Por ser um produto forte, tanto a gasolina quanto o petróleo, a crença na desinfecção do nosso entrevistado é sustentada por este pressuposto. Para ele, e outros barbeiros que adoptam a mesma prática, não tem como as parasitas sobreviverem. Porém, durante a ronda efectuada, visitámos também a barbearia do cabeleireiro Mauro Mendonça, que tudo quanto sabe sobre barbearia aprendeu na rua. Este mostrou- se desconhecedor da matéria relacionada à desinfecção. Também comunga da opinião de que os utensílios usados no corte de cabelo devem ser esterilizados com álcool, petróleo e gasolina.

Medo leva clientes a optarem por cortes com “pente e lâmina” Dadas as incertezas quanto ao facto de estarem devidamente esterilizados, ou não, os materiais usados pelos “esteticistas”, muitos dos clientes optam em cortar o cabelo com pente e lâmina. O processo é demorado e requer bastante técnica do barbeiro, de formas a não ferir o cliente, mas é mais seguro para algumas pessoas. O pente e a lâmina envolve também menos gastos à barbearia e, por outro lado, livra os clientes de contraírem doenças, por exemplo, se o barbeiro não reutilizar as lâminas de outras pessoas. Joel Manuel é dos que, normalmente, escolhe cortar com pente e lâmina na barbearia Seleó, perto de sua casa. Sente medo de contrair uma doença e, por isso, sempre que trata do cabelo evita as máquinas de barbear, não importa o local. “É também pela forma que as desinfectam, que acho não ser a correcta”, disse.

Para Joel, não se pode confiar em ninguém. Não se sabe as doenças que podemos encontrar nestas máquinas, uma vez que a barbearia é um local frequentado por muita gente. E “há pessoas maldosas que, mesmo conscientes de que a doença que tem é contagiosa, opta por cortar o cabelo em locais públicos para a disseminar”, acrescentou. Sempre que corta com pente e lâmina tem em atenção a lâmina que está a ser usada pelo barbeiro, acompanha a abertura do pacote, para que não venha a utilizar uma lâmina antiga. Há ainda aqueles barbeiros que ao verem que apenas usaram um lado da lâmina com um cliente, pedem para usar o outro lado com um outro cliente. Por outro lado, comprar uma máquina para o uso particular tem sido a alternativa, para muitos. Quem aconselha é o jovem Tony Bettencourt, que, também, teme cortar o cabelo com a máquina das barbearias, com o medo de contrair uma doença. Tem a sua máquina pessoal e tem aconselhado as pessoas a fazerem o mesmo. É preferível, para si, que se gaste aproximadamente 10 mil Kz, na compra deste produtos, do que gastar, amanhã, mais do que isso. “Não é só querer ficar bonito, também devemos conhecer como funcionam as coisas. A beleza, às vezes, custa caro”, frisou.

Ter esterilizador ou desinfectar com álcool

Quando os materiais são mal desinfectados, segundo o clínico-geral, João Maria, o sujeito que usar o instrumento estará propenso a contrair doenças como, as Hepatites A, B, C, D, E, sífilis, Sida, entre outras. Muitos desconhecem a maneira como esses materiais devem ser desinfectados, porém, o especialista explica que os efeitos destas substâncias não garantem a extinção completa dos parasitas. “Sabe-se que os parasitas têm no máximo quatro horas de vida. As casas de estética são lugares em que as pessoas entram constantemente. Raramente vejo, mas os salões têm de ter um esterilizador de máquinas de cortar cabelo”, explicou o especialista. De acordo o clínico-geral, as máquinas ficam no esterilizador até estiverem prontas para serem usadas em outra pessoa. “O mesmo acontece com os instrumentos para tratar as unhas.

Eles também têm um esterilizador, se assim for feito não estaremos diante de uma cadeia de transmissão de doenças”, realçou. Já a doutora Filomena Wilson, que deplora a forma como são desinfectados os materiais, acredita que o álcool pode matar as bactérias, mas é necessário que se veja a percentagem, sendo a mais aconselhável a de 99 por cento. Na óptica da especialista, no que pre que trata do cabelo evita as máquinas de barbear, não importa o local. “É também pela forma que as desinfectam, que acho não ser a correcta”, disse. tange à questão da máquina de esterilizar, temos de ter em conta que há aqueles materiais esterilizáveis, e também há aqueles que usamos e deitamos, os descartáveis. Se o material for descartável, o melhor é usarmos e deitarmos. Mas se for esterilizável, deve- se colocar numa máquina de esterilizar, mesmo. A clínica-geral aconselhou as pessoas a ficarem mais atentas, pois “esta cadeia de transmissão é real, pelo que todo o cuidado é pouco. Temos de estar em alerta. Quando estiver num estabelecimento pergunte mesmo de que forma o material foi desinfectado, ou então compre os materiais para uso particular”, finalizou.

‘Usávamos a mesma lima em várias pessoas’

Não muito diferente das substâncias que as barbearias usam, os “jovens das unhas”, assim conhecidos, acrescentaram apenas na equação o removedor de verniz, vulgarmente conhecido por acetona. Deambulando pelas ruas de Luanda ou parados num mercado, perto de uma escola ou de um estabelecimento comercial, os “moços das unhas”, que fazem manicure e pedicure, tanto em homens quanto em mulheres, têm os seus serviços muito solicitados. Entretanto, a forma como esterilizam os objectos de trabalho constitui preocupação para muitos. João Quissanga, manicuro há sete anos, contou que o preço dos materiais lhe tem condicionado a má desinfecção. “A lima de ferro nós trocamos, mas o alicate não tem como trocar, por ser caro.”

Reconhece que houve uma melhoria nesta profissão, quanto à questão da desinfecção, pois outrora usavam uma lima em várias pessoas. “Nós usávamos a mesma lima em várias pessoas. Não sabíamos de nada. Mas depois algumas tias que tratávamos as unhas, diziam para ter cuidado e passar a comprar sempre limas novas”, conta. Diferente de João, há quem desconhece a importância de desinfectar correctamente os instrumentos com que trabalham, como é o caso de Adão Luacuti, 25 anos. “Não sei qual é a importância, apenas tenho colocado às vezes, acetona. Quando não tem acetona coloco álcool”, confessou. Entretanto, Maria Pinheiro, uma cidadã que fazia as unhas, não gosta de usar materiais para tratamento das mesmas, que toda gente usa. Para evitar qualquer contaminação, também tem o seu próprio material, limitando-se apenas a pagar a mão-de-obra.

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