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Moradores de Caxarandanda receiam ser engolidos pelo rio Longa

O receio dos referidos habitantes deve-se ao facto de já terem vivido situações do género na estação chuvosa do ano passado e na de 2015, quando o pessoal foi até forçado a se abrigar nas encostas das montanhas mais próximas

POR: Alberto Bambi, Santana Joaquim
e Pascoal Manuel

Embora se localize há sete quilómetros da margem direita do rio Longa, o Aldeamento, a primeira localidade e sede da aldeia de Caxarandanda, comuna do Mumbondo, município de Quiçama, em Luanda, fica inundada sempre que se registam intensas e prolongadas chuvas, segundo revelou Alcides Gomes, o coordenador da vila. “As pessoas que não conhecem aqui, têm dificuldades de perceber como é que, estando a corrente longe, Caxarandanda fica inundada. Mas devem perceber que o antigo rio passava aí próximo, então, quando chove muito, as águas do rio transbordam para a margem direita, que é a mais baixa, e isso tudo fica cheio”, esclareceu o coordenador, enquanto, com o dedo indicador direito em riste, descrevia a vasta área que serve de corredor em direcção à margem, num movimento em forma de circunferência.

Segundo ele, ao penetrarem no território do Aldeamento, as águas do rio Longa somente deixam à vista, um metro e meio das casas de capim na zona mais baixa da povoação, sendo que as poucas que teoricamente se encontram no ponto mais alto, sofrem a invasão da corrente lenta, danificando assim os haveres dos proprietários, incluindo galos e galinhas. Atenta aos depoimentos do coordenador, estava a nativa Lucinda Adriano Francisco, de 53 anos de idade, que se apressou a recordar que até os ratos não eram poupados pela investida das águas, além dos cães, cabritos e porcos mais fracos. Retomando a palavra, Alcides Gomes referiu que uma das grandes perdas da população da aldeia consistia mesmo no desaparecimento das suas criações, um facto que representava um enorme prejuízo na maior fonte de rendimento e de sustento das famílias. Outros danos referem-se ao desgaste da argila que reveste os paus das pequenas habitações típicas da zona. “Numa das enchentes que tivemos aqui, houve famílias que perderam botijas de gás, que são material mais difíceis de conseguir, não só pelo preço alto nos mercados do Porto Amboim (Cuanza-Sul), mas também pelas dificuldades que a sua transportação, de canoa, acarretam, sobretudo quando são adquiridas em Luanda, e via comuna de Mumbondo, descem o rio.

Comida desfaz-se

A comida foi outro bem repetidamente citado por Ana Gouveia, Maria José e Lucinda Francisco, as únicas senhoras que, Domingo, 11, acederam falar a O PAÍS. Elas revelam que, às vezes, o mantimento não é arrastado de casa para fora, mas desfaz-se nos recipientes onde foram armazenados, até se confundirem com o líquido. “É o caso da mandioca, banana e batata, que conservámos seca para moer, e dela obter a farinha e outros alimentos”, explicou Ana Gouveia. A senhora que, na ocasião da entrevista, acabara de confeccionar banana para o jantar das crianças, conforme referiu, confessou que outros produtos como o óleo de palma, por si mesmos fabricado, são desperdiçados quando essas catástrofes ocorrem, a partir mesmo do sítio onde são manufacturados. “Muitas vezes, não há tempo para salvar nada, senão a tua própria vida”, realçou Maria José, que fez referência a ocasiões em que as pessoas do povoado viveram o princípio das enchentes nas lavras, alambiques e fábricas rudimentares de óleo de palma, sectores estes que distam mais de dois quilómetros do Aldeamento.

Cegos requerem atenção

Lucinda Francisco ressaltou que as crianças e adultos locais que padecem de cegueira representam a grande preocupação do povoado durante as inundações, porque, apesar de terem força e habilidades para enfrentar o fenómeno, os cegos precisam de um guia que lhes orientem durante as fugas. Laurinda Zito Clemente é um dos cegos de Caxarandanda. A adolescente relatou que durante as cheias do ano passado, conseguiu fugir para a zona segura com ajuda de três guias. “O primeiro tio estava a levar-me, mas, depois, disse para eu esperar um pouco, porque ia buscar uma criança”, informou Mariana, tendo acrescentado que o segundo deixou-a para o terceiro, este que levou-a ao colo até escaparem.

Canoas viram totalista de viagens

Em dias normais, os moradores de Caxarandanda fazem recurso a barcas escavadas de grandes troncos da zona ribeirinha, além de algumas canoas ou lanchas a motor para fazerem o percurso Mumbondo- Lombela ou Pequena Cabala, e vice-versa, ora em teórica vantagem sobre a corrente fluvial, ora em desvantagem em relação a essa força natural (porém, à mercê dos ventos). Quando chegam à Pequena Cabala, como é conhecido o “porto” de Lombela, duas opções se apresentam. A primeira consiste em caminhar a pé pela picada de um metro de largura, aberta pela população local, e a segunda opção, no recurso a motorizadas dispostas por alguns moto-táxi, ao custo de 500 Kwanzas, um valor que para os forasteiros fica a dobrar. Durante as enchentes, este último percurso, de cerca de sete quilómetros, é feito exclusivamente pelos transportes aquáticos já referenciados, e outros oportunamente adaptados, restantes de materiais inutilizados pelas águas. Por força destas exigências, os moradores do Porto de Lombela são os que mais barcas possuem, pois no período das inundações, a respectiva zona habitada é totalmente ocupada pela corrente fluvial. “Temos que estar preparados para colocar toda a família nas canoas e procurar um sítio mais alto, o mais rápido possível”, explicou o chefe da família Gomes.

Bichos encurtam deslocamentos

Para os habitantes de Caxarandanda, travessar ou deslocar-se pelo rio, para além de constiuir uma necessidade, é uma aventura que em época das cheias, acarreta alguns riscos, porque os répteis, como cobras, crocodilos e jacarés, também se refugiam nas novas margens do rio. “Todo o cuidado é pouco, porque, nessa altura, os bichos também estão à procura de um lugar tranquilo para ficar, e se você dá de cara com os mesmos, estes atacam mesmo” alertou.

Apoio da administração fica por alimentos

A coordenação de Caxarandanda controla três povoados, designadamente o Aldeamento, Invu e o Pau-Ferro. Estas duas últimas separadas por quatro quilómetros, enquanto entre a segunda e a primeira, uma distância de 7 km as separa. As inundações são um problema para essas três zonas habitadas, independentemente de no Invu e Pau-Ferro, os danos do rio não serem tão notáveis como no Aldeamento. De acordo com o coordenador do povoado, a administração comunal do Mumbondo, sob a égide da municipal de Quiçama, limita-se a dar apoio alimentar em quantidades exíguas, que até certo ponto, criam grandes embaraços à coordenação, que se deparam com o desafio de fazer cálculos minuciosos para proceder a divisão dos produtos. “No ano passado, mandaram-nos dois sacos de fuba, duas caixas de óleo, sabão para dividir entre população de todas as povoações de Caxarandanda, exemplificou.

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