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«Sessekoísmo» na China

Calculava eu, e mal, que a minha sabática por estas enigmáticas paragens de Lagona Sereia-Mar limitar- se-ia a uma mera e tranquilíssima vilegiatura. Ledo engano!

POR: Arnaldo Goreva

A maka é que aqui os paredões da insularidade nunca foram, e nunca hão-de ficar, impérvios às noticias despachadas dos quatros cantos do mundo, e isto em ritmo e influxo impossíveis de estancar. Mau grado as veleidades censuradoras do Triumvirato que governa esta portentosa Cidade-Estado, os Lagonenses não dispensam o sacrossanto direito à informação. São indivíduos muito bem informados! Só espero que essa minha referência inocente à tentação de censura ao mais alto nível, não me venha custar suspeições gratuitas de estar aqui a insinuar que Lagona Sereia- Mar seja uma democracia sofrível. Longe disso, livra-me Deus! Há todo um vasto espectro de modelos de democracias por este mundo fora; e cada povo há-de merecer, aceitar e aguentar o tipo de democracia que livremente escolheu. Mas, por cima de tudo isso, há sempre lugar para ruminar a perene consolação de não existirem, nenhures, democracias perfeitas. Até o próprio Alexis de Tocqueville, renomado autor do bestseller “Da Democracia na América” (1835), não teria, a esse respeito, uma opinião diferente. Daí a necessidade de, de tempos a tempos, se ir consertando o sistema «democrático » vigente, conforme aconteceu ainda há pouco, sob a batuta de Xi Jinping, o timoneiro do dia na asiática Pátria do Confucionismo. Ao gosto pela informação fazem os Lagonenses por atrelar uma forte paixão pela liberdade de expressão. Foi exactamente isso o que constatei quando, por insistência do João-diá- Ngone, fui assistir ao cair da noite a um Sarau de Línguas Soltas no Pelourinho. Os Lagonenses são mestres da antítese no sentido simbólico do termo. O lugar que dantes servira para flagelar os escravos e criminosos, está hoje transformado em arena onde chicoteam as mentalidades estáticas, que nem a estátua da mulher de Ló nas planuras obscurantistas de Sodoma. À volta do tema em debate – «O advento do sessekoísmo na China» – arrebanharam-se amostras de todos os quadrantes da vida social em Lagona, incluindo os militares e os censores de opinião. Identifiquei ao longe, no meio da turba, a carapinha esbranquiçada do vellho intelectual da Mutamba; instantes depois, num frufru de garotinhas gaiatas, deparei-me outra vez com a «Beauvoir». Confesso que sairei desta minha vilegiatura com uma nítida demarcação, entre o antes e o depois, no meu próprio conceito de beleza. De resto, como iria eu aqui sobreviver? «Em Roma, como os romanos!» Se é verdade o que diz a superstição, de tanto lhe terem aqui usado e abusado o nome, o Camarada Xi Jinping deve ter se magoado várias vezes no palácio em Beijing. As línguas desataram-se ardorosamente no Pelourinho da Lagona Sereia-Mar. Mas então se ele agora se elevou à Presidência Vitalícia, não corre o risco de virar ditador? O velho da Mutamba, que afinal fora professor universitário no Lovanium (Léopoldville/Kinshasa), nas décadas de 60 e 70, serenou os tribunos afirmando que já houve em África, quem, embora não colocando o artifício na Constituição, se cognominasse «Sesse Seko» ou seja, aquele que reinará para sempre. Então o fenómeno político não é novo; o modus operandi sim! Isto é um verdadeiro «Sessekoísmo», gritou agastado um operário obeso de meia-idade, turista na China por altura dos desaires de Tiannamen. Esse professor aí deve mas é ser um Langa, cogitei dentro de mim. Cheirava-me a imigração ilegal; oxalá não seja com o passaporte da minha Nguimbi! E depois pra quê só ressuscitar os Mobutus do seu repouso mortal, com montes de sessokoístas disfarçados nos Rwandas, Ugandas, Gabões, enfim, por essas Áfricas de hoje até não se poder dizer basta? Se agora o Partido e o Povo da China decidiram democraticamente elevá-lo a Presidente Vitalício, então longos vivas e eternas honras sejam tributados ao Camarada Xi Jinping!!!

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