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Psiquiatra Jaime Sampaio aponta traumas como causa dos desmaios nas escolas

Em entrevista exclusiva a OPAÍS , o psiquiatra Jaime Sampaio afirmou que os “transtornos psico-emocionais”, causados por situações como a guerra civil vivida pelos pais, catástrofes naturais, violações sexuais e psicológicas, são a causa dos desmaios dos alunos nas escolas, com realce para as raparigas. A conclusão consta num estudo elaborado por uma comissão governamental, há cerca de quatro anos, da qual o médico do Hospital Psiquiátrio de Luanda(HPL) fez parte

Entrevista de: Rila Berta
Fotos de: Daniel Miguel

Quando é que foi realizado o estudo sobre os desmaios?

Em 2014, quando começou o fenómeno dos desmaios, foi criado um grupo multidisciplinar, em que participaram médicos, psicólogos, defetólogos, sociólogos e até mesmo antropólogos. Esta comissão fez algumas análises e concluiu tratar-se dos aspectos que inicialmente enumerei, mas não de substâncias tóxicas que estivessem na base destes desmaios.

Como é que foi feito este estudo?

Fomos fazendo algumas avaliações psíquicas de indivíduos e detectamos que o quadro clínico apresentado aos hospitais era por causa de algumas situações psicoemocionais.

Em homens ou mulheres?

Em mulheres. Há aspectos psicoemocionais na mulher e, principalmente, na idade de adolescência para a fase de jovem adulta, em fase de maturação. São hormonas, como a ocitocina, a adrenalina, a serotonina, quando são acrescidas de algumas situações psicotraumáticas ou assustadoras podem provocar desmaios, que em linguagem científica chamamos de síncope.

Essas meninas erradamente eram levadas aos hospitais onde lhes eram administrados medicamentos para desactivar aquele quadro. Mas, pelo estudo que fomos fazendo, uma por uma, notamos que eram quadros psicoemocionais.

O que é que foi feito depois?

Criámos condições para a psicoterapia em grupo, para todas aquelas questões em que cada uma foi nos dizendo. É assim que no Hospital Psiquiátrico, naquele ano (2014), nós atendíamos todo o pessoal que viesse das escolas e que já tivesse passado por peritagem médica.

Avaliávamos e fazíamos a psicoterapia, por exemplo, de relaxamento, que ajudava as meninas a ponderar o impulso que trazia o medo. Porque, no fundo, nenhuma das meninas desmaiava sem primeiro ensaiar uma pré-disposição fóbica.

O que é a disposição fóbica?

É aquela em que a pessoa que tem um senso em relação à alguma actividade extrínseca, em que tem um impulso que gera o medo e depois, desorganizadamente, o organismo caí naquele quadro de defesa e desmaia. Não encontramos muitos casos em homens. Tendo em conta o mapa endócrino feminino que é acometido por esta situação sensorial.

Significa dizer que os desmaios decorriam quando as meninas recordavam traumas vividos?

Muitas delas recordavam traumas vividos. Outras tinham “quadros de conversão”, isto significa um quadro de um distúrbio de histeria. Muitas delas já conviveram algumas situações na infância que transportaram para a idade adulta.

Que medidas foram tomadas para prevenir, sendo que continuam a registar-se desmaios nas escolas?

Nós fomos passando alguns protocolos para as escolas e para a sociedade. Já contactámos as rádios e as televisões e os jornais para que se tentasse criar momentos serenos quando as pessoas estivessem neste estado. Repare, uma menina que, por exemplo, está à beira de viver uma situação traumática qualquer, naquele recinto escolar, ela tem que primeiro permanecer serena, audaz, tranquila e ter uma acção reflectiva rápida, no que concerne analisar se aquele perigo ela pode dominar ou não.

É uma questão de prevenir o stress?

E aí está o princípio do stress: a pessoa observa e decide se foge ou enfrenta. Então muitas vezes, quando não conseguimos enfrentar, fugimos, e quando enfrentamos temos dificuldades então caímos num quadro stressante grave.

Se se trata de uma situação natural, que afecta maioritariamente adolescentes, por que não registamos este fenómenos noutras alturas e porque as crises acontecem somente nas escolas?

Porque houve alguns impulsos informativos veiculados pela imprensa, e estas situações têm sido sazonais. Significa que há alturas em que têm mais actividade escolares e as meninas apresentam este “quadro de conversão”. Quando estes impulsos são auditivos, acontece que estas pessoas vão materializar este preconceito de que há um fenómeno de uma intoxicação, não controlam o seu estado psico-emocional, daí os desmaios.

Mas porquê estes desmaios colectivos?

Porque muitas meninas vêm de famílias com alguns transtornos sensoriais, e outras com problemas socio-económicos, outras ainda quaisquer doenças. Dentro de uma sala de aula, nem todas as meninas integram o quadro de desmaios por este transtorno de conversão.

Como é que os pais podem ajudar nesta situação?

Nós, muitas vezes, em reuniões escolares, quando são chamados os encarregados de educação, as direcções (um pouco mais esclarecidas) chamam psicólogos para falar sobre este fenómeno. Alguns pais têm estado a ser orientados para aderir a este protocolo de tratamento sobre este problema de conversão. Mas há outros que não aderem.

Como funciona este protocolo de tratamento?

Os protocolos estão na base de avaliar qual é a situação que levou a criança ou adolescente a desmaiar. Este protocolo é acompanhado por especialistas como o médico, porque as vezes elas desmaiam por uma questão biológica e outras por uma questão psico-emocional. Em casa, o pai vai avaliar qual foi o momento em que ela teve a crise, o que aconteceu antes, quantas vezes já teve, se houve algum desmoronamento físico em que criou ferimentos, quantos anos a criança tem, enfim…

Existem sequelas pós-desmaios, como é o caso vertente?

Depois as meninas criaram transtornos do stress pós-traumático. Muitas delas recordam aqueles quadros que tiveram e têm outra vez o psicotrauma. Muitas delas têm recordações fóbicas quando passam para determinadas áreas onde houve desmaios nas escolas, têm fobias, têm quadros de irritabilidade fácil, como dores de cabeça e algumas têm quadros amnéticos, quer dizer, ficam naquele momento com um lapso de memória.

Tendo em conta o estudo realizado, quais foram os principais traumas vividos pelas meninas?

Encontramos muitos transtornos de ansiedade generalizada nas meninas que tiveram desmaios.

Mas trata-se de transtornos causados sobretudo a nível doméstico ou social?

A nível doméstico e a nível social. Muitas delas transportavam questões heredo-familiares, quadros que já se passaram em membros da família até à terceira geração. Por exemplo, uma mãe que tem transtorno de ansiedade e pânico pode passar o mal para a filha. Um pai que é um individuo com um quadro claustrofóbico, também pode passá-lo para a filha. Encontramos crianças com essas atitudes.

A questão da guerra que assolou o nosso país, que afectou muitos jovens que hoje são pais, também pode estar na base destes traumas?

De facto. A guerra vivida pelos pais, situações económicas, financeiras, catástrofes naturais como chuvas torrenciais e calamidades naturais.

Houve meninas que admitiram terem sido violadas?

Houve meninas que foram violadas sexualmente, situações de violação psicológica mesmo em casa pelos pais. É um grupo de situações psico-sociais muito grande que foi um dos grandes trampolins que nos mostrou a evidência de que, afinal, os problemas que temos estado a ver nos desmaios têm a ver com os transtornos psico- emocionais.

Há casos semelhantes em países estrangeiros?

Nós fomos também procurar investigar noutros países. Tivemos aqui colegas de Moçambique que explicaram ter havido fenómenos de desmaios em Maputo. Temos estado a ouvir situações idênticas na Ásia e na Europa. Enfim, são quadros que, às vezes, os Mídias quando expandem, as crianças entram nestes confrontos.

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