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Pais e professores: parceiros ou contendores?

Reconhecidos, tradicionalmente, como os formadores das futuras gerações e promotores do desenvolvimento, os professores continuam sendo menosprezados, ao ponto de às vezes sofrer ‘atropelos’ no seu exercício, inclusive pelos próprios pais.

POR:Miguel Filho

Os pais esquecem-se com muita facilidade que os seus filhos só poderão progredir se a educação do lar caminhar em sintonia com os ensinamentos da escola. Poderíamos citar muitos casos tristes que são recorrentes no ensino geral, mas a universidade é um ‘micro-planeta’ que está bem alojado nessa órbita de mal-entendidos, com pais confundindo, inclusive, forçando a aprovação de filhos com mau desempenho ou sob alegadas perseguições de professores para sustentar os seus insucessos. A forma que os pais devem adoptar, no ensino primário, para ajudar os filhos é não reagir emocionalmente perante as reclamações dos filhos, antes de contactar ou auscultar o professor. Uma das causas da falta de harmonia entre a escola e a família tem sido provocada pela falta de autoridade que muitos pais sentem em relação à educação dos filhos.

É importante que os pais ensinem seus filhos a respeitar o saber, a zelar pelo cumprimento das tarefas e a apoiar a escola, infelizmente alguns pensam que toda a responsabilidade é da escola e da equipa pedagógica, quando, na verdade, esse deveria ser um trabalho compartilhado entre a família e a escola. “Por aqui, os pais perderam a habilidade de impor limites a seus filhos. Agora, tentam impor limites à escola, interferindo na actividade dos professores”, disse uma educadora. Perante as queixas que se vão tornando cada vez mais severas de ambos os lados, descortinam-se duas razões principais: a) uma, devida a transformação sofrida pela organização familiar provocada pelas mudanças sociais, realçando-se, por exemplo, o empoderamento da mulher que reduziu o seu papel tradicional de acompanhar o crescimento dos filhos em casa, obrigando a escola a responsabilizar-se também pela educação moral dos alunos; b) outra, a intromissão dos pais em assuntos sobre os quais as escolas antes detinham monopólio. Tendo a tecnologia chegado aos lugares mais recônditos, começando pela televisão, permitiu as famílias perceberem que a ascensão social e económica dependia do rendimento escolar, começaram a exigir mais das instituições e dos professores.

Educação formal e informal

Verifica-se que muitos pais precisam aprender a ser pais, são más influências para os próprios filhos. A participação dos pais depende, antes de qualquer coisa, da relação que estes mesmos pais têm com o conhecimento e estará sempre acompanhada de uma carga emocional. Pais que valorizam a formação científica e cultural tendem a influenciar positivamente a relação estabelecida entre os filhos e o processo de aprendizagem. É penosa a atitude dos pais perante o rendimento escolar de seus filhos. A maioria exige notas elevadas, e diante de uma situação envolvendo uma nota baixa, o desânimo e o descontentamento geram inúmeras cobranças. O aluno precisa ser tratado como um ser livre e a figura desse modelo de pai, prescreve a ideia de que o filho é uma ferramenta manipulável que deve atender à sua satisfação. Esses pais visam somente os resultados e esquecem-se do processo de formação sócio educacional do adolescente. Recordo-me do pai que na tentativa de forçar um encontro que visava intimidar o professor em presença do próprio filho, apresentou-se com o grau militar que ostentava no exército, mesmo sabendo que aquele ‘indefeso’ civil deveria ser tido como um parceiro e não como um adversário.

Que contribuição esse ‘pai’ terá na educação de seu filho? É difícil fazer entender a quem não está preparado para este ofício de ensinar-aprender a diferença entre a educação formal e a educação não formal, mas é imperioso recordar que o processo educativo, aquele que se propõe ao desenvolvimento intelectual, físico ou moral dos indivíduos com vista à adaptação e à socialização carece de objectivos claros e específicos, previamente analisados por especialistas, já a não formal tem-se como um processo não sistematizado. Quer dizer, uma forma e a outra informa. Acontece que mesmo na que informa, muitos pais têm a educação como ‘cadeira em atraso’. Os pais ajudam, e muito, quando olham com atenção os deveres e provas, interessam-se em saber como foram as aulas da semana ou dedicam um tempo do dia para ler ou estudar junto com os filhos; acompanhe os avisos da escola com regularidade, para se manter a par da situação dos filhos; não desautorize a escola – não que ela não erre nunca. A confiança dos alunos nos professores compensa abrandar a tendência a “cobrar medidas imediatas” diante da queixa dos filhos; só procure a escola se o motivo for realmente importante e vá de cabeça fria. Instituições de ensino de qualidade estão sempre abertas a ouvir os pais – o que não significa, porém, que atenderão a tudo e de qualquer maneira.

A sobrevalorização dos filhos

As boas atitudes dos pais comunicam aos filhos a importância e o valor de estudar e aprender. Contrariamente, quando convertem-se em cobradores de resultados e são facilmente induzidos em argumentos que colocam o professor como o causador do insucesso ou de super-homens capazes de forçar a aprovação do seu filho com a prepotência do seu status social, mais não se estará a fazer, senão o ensombrecer o futuro do filho querido. Um aspecto muito importante que deve ser identificado e colocado imediatamente em prática é o respeito quanto ao limite do aluno. Muitos são educados, mas possuem dificuldades, tornando-se medianos. Enquanto outros são dotados de facilidades, tornando-se aptos a atingirem notas elevadas. Uma das dificuldades que muitos pais demonstram, é conseguir separar o desejo da realidade. O desejo de ter um filho exemplar, que se destaque dos outros, pode muitas vezes levar à cegueira, chegando mesmo ao ponto de convencer o filho de algo que não é.

Quando há na família uma criança com deficiência, a sua importância desse ambiente é maximizada, pois um de seus membros apresenta maiores desafios na trajectória de desenvolvimento que precisam ser superados. As famílias de crianças com deficiência devem propiciar um ambiente facilitador para o envolvimento da criança em actividades sociais e escolares. Se a família atende às necessidades da criança, ela pode se tornar um ambiente saudável e facilitador (DESSEN; CERQUEIRA-SILVA, 2008). Assim, é essencial que a família reconheça a influência que exerce sobre o indivíduo, principalmente no contexto social, incluindo o mundo escolar do filho. E os educadores também devem se preocupar em criar formas, por meio de parcerias, para promover o desenvolvimento familiar, no sentido de torná-la um agente activo no processo de inclusão dos alunos público-alvo da educação especial (LOPES; MARQUEZAN, 2000). Ao analisar a família de maneira sistémica deve-se considerar que o interior do sistema familiar pode estabelecer subsistemas, como o conjugal, fraternal e parental.

Os investigadores avisam que o facto de as crianças acreditarem que são melhores do que as outras não será bom para elas nem para a sociedade. Em função dos traços genéticos e da própria personalidade, há algumas que têm mais tendência do que outras para ser narcisistas. Muitos professores sentem saudade do tempo em que os pais respeitavam a autoridade da escola. Mas é preciso lembrar que aqueles eram tempos em que havia respeito, mas não havia interacção entre a escola e a família: isso não é bom para as crianças. Actualmente, muitos pais são portadores de graus académicos que no passado eram pertença de uma elite de privilegiados por isso arrogam-se de vaidades que lhes engrandece o ego, mas apequenam-se em valores. Esquecem- se que sem o professor a pá ou a vassoura pudessem ser os seus instrumentos de trabalho. A culpa não está exclusivamente na educação que os pais escolhem. Segundo Brummelman, “o narcisismo é parcialmente genético e pode advir dos traços temperamentais da própria criança”. “…é necessário encorajar os filhos, mas sobrevalorizá-los promove atitudes narcisistas”. Não é por acaso que a palavra “mestre” é uma designação que quase não se aplica mais a professores, um pouco por culpa desses ‘pais’ narcisistas que chegam a pensar que fariam melhor trabalho que o professor de seu filho.

 

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