Centro de Saúde do Sequele irrita moradores

Dentre as principais queixas dos moradores consta o facto de o Centro não funcionar no período nocturno. A direcção da instituição refuta as acusações e alega falta de condições

POR: Entrevista de Domingos Bento
fotos de Lito Cahongolo

Os moradores da centralidade do Sequele dizem-se irritados e agastados com o funcionamento do Centro de Saúde local, que se debate com uma série de irregularidades que vêm dificultando a melhoria da assistência clínica aos habitantes daquele conglomerado habitacional. Dentre as principais dificuldades consta o facto de o referido Centro funcionar apenas no  período diurno, das 8 às 18horas, deixando os moradores que precisam de assistência médica ao logo da noite complemente à mercê da sua sorte. De acordo com os populares, em caso de alguma necessidade clínica ao longo da noite, os doentes são obrigados a percorrer longas distâncias, como ir até aos hospitais municipais de Cacuaco ou de Viana que distam quilómetros da centralidade. Essa situação, para os queixosos, tem vindo a criar uma série de dificuldades que acabam por colocar em risco a vida de muitos pacientes. A situação é mais complicada porque, quer dentro como nos arredores da centralidade, não existem outras instituições de saúde que podem servir de alternativa quando a necessidade se impõe. Face à situação, os populares dizem já ter manifestado a sua indignação às autoridades que gerem a centralidade, no sentido de se criarem outros centros hospitalares de forma a melhorar o actual cenário.

“Imagina só, pela quantidade de moradores que temos aqui, termos que depender apenas de um único Centro, que funciona apenas em determinado período do dia, quando à noite é o período em que mais necessitamos os seus serviços. É que se uma pessoa tiver algum problema de emergência à noite, até pode morrer. Se pagamos a nossa renda com regularidade, então por que razão não nos põem cá um Centro completo e que funcione em pleno?”, questionou Terêncio Prado, morador.

O Centro de Saúde, que funciona há cerca de dois anos, presta serviços de medicina, pediatria, pré-natal e dispõe ainda de um laboratório onde são feitos vários tipos de análises clínicas. Para os moradores, é inútil que uma instituição sanitária, com a quantidade de serviços que presta, funcione apenas umas curtas horas no dia. “É lamentável. Se a pessoa à noite passar mal e não tiver um carro que a possa transferir imediatamente para outros hospitais, pode morrer. Aqui vivemos dependentes da sorte, quando temos cá um Centro que podia nos ajudar. Vê-lo fechado à noite é frustrante”, lamentou Gonçalo Luanda, também morador.

Atendimento moroso

Outra das queixas dos moradores prende-se com a morosidade no atendimento dos doentes. Segundo os populares, na maior parte dos casos os pacientes são obrigados a aguardar mais de cinco hora na fila para serem atendidos. De acordo com os queixosos, até mesmo crianças em estado grave não têm tido prioridade e aguardam na fila largas horas para serem observadas, correndo assim o risco de perder a vida devido ao “abandalho” a que são submetidas. A malária, doenças diarreicas e as respiratórias são das patologias que mais lotam o Centro. Para além dos moradores da centralidade, a instituição atende também casos provenientes dos bairros circunvizinhos que estão em volta da via expressa que liga Cacuaco ao Benfica. Diariamente, são cerca de trezentas pessoas que acorrem ao espaço em busca da melhoria da saúde. Joyce Camacho, paciente, lamenta o débil atendimento e a forma como os doentes são tratados naquela instituição de saúde pública. “É muito difícil a nossa situação neste Centro. A pessoa só vem aqui porque não existem alternativas. Não temos outros centros a que possamos recorrer. É que aqui, as pessoas são abandalhadas, maltratadas. Não há o mínimo de respeito pela vida”.

Sem internamento e medicamentos

Já Henriqueta Cayela, que há mais de uma semana anda pelos corredores do Centro com o filho que padece de malária, disse que a sua preocupação prende- se com a falta de espaço para o internamento e falta de medicamentos. Conforme explicou, tem vindo ao Centro porque o filho apresenta-se sempre febril em função da malária que o apoquenta. Para ela, a situação poderia ter melhoria satisfatória caso o hospital tivesse um espaço específico onde os doentes com complicações mais delicadas pudessem ser acompanhados permanentemente pelos profissionais de saúde. “Sempre que venho cá aguardo mais de três horas para ser atendida. E as febres do menino são intensas. Não dá para esperar muito tempo sem ser observado. Se eles estivessem cá uma sala de internamento nos facilitava bastante. Outra situação é a falta de medicamentos. O Centro nunca tem nada para nos dar. Recorremos sempre lá fora”, denunciou a moradora.

Temos vontade, mas não há condições

Contactada pelo OPAÍS, René César, directora clínica interina do Centro, disse que, no que toca ao funcionamento no período nocturno, a equipa tem vontade de abrir as portas ao público à noite, mas falta uma serie de condições para o efeito. Dentre as condições constam a falta de pessoal de segurança, falta de médicos, pessoal de limpeza e outras condições indispensáveis ao bom funcionamento da instituição em todos os períodos. Conforme frisou, o Centro tem apenas seis médicos e 22 enfermeiros. Com esse reduzido número de técnicos, assegurou, não é possível estender os serviços para o período nocturno. “Não somos um hospital, somos um Centro de Saúde e temos limitações.

Para cobrirmos as noites precisávamos de ter mais técnicos. E isso não depende de nós. Portanto, temos vontade, mas não há condições. As pessoas precisam de ter calma, porque somos orientados apenas a trabalhar em determinados período do dia, face às condições que temos”, frisou. Relativamente ao atendimento, René César explicou que os doentes são atendidos por ordem de chegada e pela necessidade de urgência que apresentam. Os casos mais graves têm intervenção rápida. Já os menos urgentes, como os casos de consultas externas, são atendidos à medida que chegam ao Centro. No que toca aos fármacos, a também médica assegurou que, apesar de às vezes se registarem faltas, o hospital dispõe, neste momento, de stock de fármacos e de materiais gastáveis necessários para atender às necessidades.