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Demolições provocam desmaios no zango 3

Três dos mais de 30 proprietários das residências que foram demolidas no Quitondo 2 e no Zango 3, em Luanda, foram vítimas de um desfalecimento e, em seguida, conduzidos a um hospital. Um deles correu o risco de sofrer um AVC. A titularidade do terreno está a gerar divergências entre a Administração Municipal de Viana e o Gabinete de Desenvolvimento e Aproveitamento Hidráulico do Kikuxi.

Texto de: Stela Cambamba

Ao encontrar a sua residência, modelo T4, de um piso, vulgo primeiro andar, demolida, com todos os seus bens materiais e documentos pessoais lá dentro, na Segunda-feira, 16, José Cristóvão não resistiu e desmaiou. Alguns dos membros das mais de 30 famílias que tiveram a mesma infelicidade de ver o fruto de vários anos de trabalho e sacrifício ruir por volta das 13 horas, socorreram-se na unidade sanitária mais próxima onde permaneceram até Sexta-feira, 19.

Assim que recebeu alta, decidiu regressar ao bairro Quitondo II, no Zango 3, onde vivia tranquilamente com a mulher, que se encontra concebida, os quatro filhos e o seu pai, que já a caminho da terceira idade. “Agora a minha família está dispersa.

O meu pai está em casa de parentes, os meus filhos estão divididos: dois em Cacuaco, na casa da avó materna, e os outros dois em casa de uma vizinha, a esposa está também a merecer atenção redobrada, pois está grávida e prestes a dar à luz”, frisou, José Cristóvão.

Irradiando tristeza, o mecânico de profissão questionou-se, diante da nossa equipa de reportagem, sobre como vai conseguir, nos dias de hoje, construir uma residencial igual, pois a que tinha levou muitos anos a ser erguida.

O seu desespero torna-se maior por saber que os preços dos materiais de construção tendem a aumentar diariamente. No momento em que a equipa de técnicos da Ad
ministração Municipal de Viana, escoltada por efectivos da Polícia Nacional, sob direcção de Fernando Binje, administrador municipal-adjunto para a Área Técnica, demoliu mais de 30 residências por alegadamente terem sido erguidas num terreno em litígio, o nosso interlocutor não se encontrava em casa.

José Cristóvão encontrava-se no seu local de trabalho, os filhos estavam na escola e a esposa fora de casa. Mas, o facto de o imóvel encontrar-se fechado e sem ninguém para retirar os móveis, os electrodomésticos, os vestuários, bem como os documentos pessoais dos proprietários, não impediu que os funcionários do Estado de concretizarem os seus intentos.

Do gestor público Fernando Binje partiu a ordem que os presentes não esperavam ouvir: vamos demolir. “Esperamos que se faça justiça. Estamos a sofrer com esta situação.

Quando chove, nós, os adultos, abrigamo-nos nas cabanas e as crianças em casas dos vizinhos ou na igreja, que nos estendeu a mão. É incompreensível, alguém que tinha o seu tecto perder tudo por causa de nada”, lamentou José Cristóvão. Engrácia da Silva, outra moradora, disse que por conta desta situação três proprietários de residências demolidas foram hospitalizados, sendo que dois já se encontram em casa de familiares. Instalou-se a miséria No momento em que a nossa equipa de reportagem chegou ao local, às 15h30 de Sexta-feira, encontrou por baixo de uma árvore cerca de 10 mulheres sentadas, saciando a fome em conjunto.

De forma descontraída, saboreavam a comida (funge de milho amarelo acompanhado com peixe pequeno “cabuenha” e coxa de frango), contida num saco de plástico preto e numa bacia azul. Luísa Pedro, residente no bairro há quatro anos, disse que nesse espaço de tempo nunca apareceu alguém a contestar a titularidade dos referidos terrenos, pelo que ficaram surpreendidas com a ordem de demolição.

Lágrimas que não “secam” Lágrimas corriam pelo seu rosto no momento em que detalhava que a sua residência era um T4, com duas suítes, igual números de salas, cozinha e marquise vasta, lavandaria. “Era a casa dos meus sonhos e trabalhei arduamente para construi-la”, frisou. A sua irmã, identificada apenas por Guida, tentava acalentar as dores da nossa interlocutora no decorrer da entrevista. O caso alterou completamente a rotina desta família.

Os filhos de Luísa Pedro deixaram temporariamente de ir à escola. No momento da demolição, estava no seu posto de trabalho e apenas dois dos seus quatro filhos se encontravam em casa. Antes disso, os funcionários públicos ordenaram à criança de 12 anos que retirasse os bens materiais do interior da casa.

De seguida, ela e o seu irmão, de apenas cinco anos de idade, assistiram, em estado de choque, à demolição do imóvel onde sonhavam com um futuro melhor. Segundo Luísa Pedro, a menina, por agora não goza de boa saúde. “Está traumatizada. Mandaram-lhe tirar a mobília sozinha. Ela retirou o que podia aos prantos. Enquanto alguns vizinhos a ajudavam outros aproveitaram para roubar”.

Dormir ao relento

Desde o dia das demolições que a vida dos lesados se tornou num autêntico calvário. A maioria passa a noite ao relento, na esperança de protegerem alguns dos seus bens que se encontram por debaixo dos escombros. Isto porque na noite do dia das demolições, alguns cidadãos aproveitaram-se da ausência das vítimas para retirar alguns bens, como portões, janelas, chapas de zinco, entre outros que estavam em bom estado.

Heli Masseka, outro lesado, confessou que está sem saber o que fazer. Para concluir a residência onde vivia há dois anos, contraiu um crédito bancário cujo prazo de reembolso termina apenas em 2020. À semelhança de outras crianças cujos pais não têm possibilidade de retirá-las do bairro, as suas também foram abrigadas pela vizinhança. Dos seus quatro filhos, os três que frequentavam a 1ª, 3ª e 5ª classe não estão a ir à escola.

Heli Masseka protesta contra o facto de as demolições não terem sido antecedidas de aviso prévio, como manda a lei. Disse que os agentes do Estado destruíram ainda os telefones dos moradores que filmavam a ocorrência, Por seu turno, Engrácia Isabel da Silva afirmou ser proprietária de um dos lotes do referido terreno, de um hectare, desde 2014 e que, em Dezembro de 2017, foi surpreendida com a informação de que o mesmo pertence a uma cidadã identificada apenas por Dona Alice.

Na ocasião, segundo conta, ela e os seus vizinhos dirigiram-se ao Gabinete de Desenvolvimento e Aproveitamento Hidráulico do Kikuxi (GADAHKI), órgão responsável pelos espaços com mais de um hectare, onde foram informados de que os documentos que possuíam era legais e que os possibilitava serem reconhecidos como legítimos proprietários.

Baseando-se nesta informação, ficaram descansados quanto às alegadas irregularidades que surgiram no bairro, assim como a outros rumores. Entretanto, no momento em que menos esperavam, os nossos interlocutores contam que foram informados pelos vizinhos de que as suas residências estavam a ser demolidas a mando do administradoradjunto de Viana para a Área Técnica, Fernando Binje.

Titularidade do terreno opõe administração de Viana ao GADAHKI

A titularidade do terreno de um hectare onde foram realizadas diversas demolições está a gerar divergência entre a Administração Municipal de Viana e o Gabinete de Desenvolvimento e Aproveitamento Hidráulico do Kikuxi (GADAHKI). O administrador-adjunto de Viana para a Área Técnica, Fernando Binje, disse que as famílias foram advertidas, mas insistiram em construir num terreno que lhes foi vendido de forma fraudulenta. “A Administração é um órgão do Estado.

O processo tramitou e chegou até à demolição, trata-se de um espaço em litígio, até então com três proprietários controlados pelo GADAHKI, que comprovou a titularidade da dona Alice”, justificou, em entrevista à Angop. Segundo Fernando Binje, a pessoa que vendeu os terrenos é detentora de apenas três hectares, mas acabou vendendo mais um, que não era sua propriedade, conforme atesta o GADAHKI, responsável pela aérea em questão.

Para o director do GADAHKI, Salomão Manuel, os documentos apresentados por Alice Neves apresentam algumas irregularidades, por isso, ao tomar conhecimento da possível demolição das casas, enviou uma carta à Administração de Viana, na tentativa de impedir o acto.

“O GADAHKI não confirma a titularidade do espaço em nome de Alice Neves. Mandamos uma carta à Administração, alertando para que não se fizesse a demolição, porque havia um processo de investigação para averiguar se, realmente, Alice Neves era a concessionária do terreno”, afirmou.

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