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Escassez de pescado motiva desistência de alunos em Mazozo

Apesar de a fuga ser gradual, a directora da escola teme que a alternativa encontrada pelos pais se torne abrangente, de modo a diminuir consideravelmente a população estudantil

POR: Alberto Bambi,
Fotos de Luís Kinguri

A baixa de captura que de há algum tempo a esta parte os pescadores da lagoa Wijya, na localidade de Mazozo, município de Icolo e Bengo, em Luanda, registam, está a obrigá-los a instalarem- se, temporária ou definitivamente, nas proximidades das bacias do rio Kwanza nos arredores do Zenza de Itombe. Este processo submete os pescadores a levarem consigo as suas famílias, provocando, desta forma, a desistência imediata dos seus filhos e outros agregados matriculados na escola 6012, localizada no bairro Augusto (Mazozo), uma situação que já preocupa a direcção do referido estabelecimento de ensino primário e secundário.

“Por causa da falta de peixe na lagoa local, algumas famílias que vivem deste negócio estão a abandonar o bairro e, por incrível que pareça, desinteressam-se da desistência dos meninos da vida escolar”, lamentou a directora da escola 6012, Joana Florinda Tchaquarta, tendo manifestado a sua profunda tristeza por estarem em causa crianças da 1ª e 2ª classes. A directora revelou que está a arranjar mecanismos de modo a contactar os referidos pais e encarregados de educação que se viram forçados a optar pelo êxodo regional, devido à procura de novas fontes de rendimento, mas assegurou que a direcção da instituição que dirige também se esforça por se antecipar à decisão desses encarregados. Um dos sinais que ainda anima os gestores escolares é o facto de as desistência estarem a ocorrer em números muito pequenos.

“Nem por isso devemos estar descansados, porque quando chegámos aqui, no ano passado, já ouvimos relatos do género, mas eu não imaginava que os pais e encarregados de educação seriam capazes de anular uma matrícula que eles fizeram com muito sacrifício”, desabafou Joana Tchaquarta, questionando-se sobre o futuro que estes chefes de família traçaram para os seus filhos. De acordo com a directora da escola 6012, as decisões dos encarregados, normalmente, são tomadas aos finais de semana, altura em que os professores e outros funcionários da escola se encontram fora do local de trabalho. Questionada se nenhum educador vivia no bairro Augusto de Mazozo, a responsável disse que na maior parte das vezes que tal acontecia, nem mesmo os dois colegas residentes se apercebiam, porque os familiares, temendo censuras da parte dos académicos, optavam por proceder de forma clandestina. Outra situação que preocupa Joana Tchaquarta tem a ver com o facto de os pais não se preocuparem, pelo menos, com o pedido de transferência, que dá a possibilidade de os miúdos por si levados poderem estudar nas escolas do novo habitat.

“Se os miúdos estudam, família morre”

No princípio da tarde de Segunda- feira, 23, Manuel Inácio João, o pescador de 57 anos que disse ter chegado a Mazozo em 1986, acabava de atracar a sua canoa verde no porto adaptado da região. Instado pela reportagem de OPAÍS sobre o êxodo das famílias cuja base de sustento se resume alegadamente à pesca, Manuel João limitou-se a tirar os poucos peixes cacussos por si capturados nesse dia, tendo adiantado, em seguida, que o pescado estava reduzido fazia algum tempo e os poucos que se podiam conseguir eram pequenos. O peixeiro, que franziu momentaneamente o rosto por ter perdido alguns peixes para a lagoa durante a entrevista, desabafou questionando de que serviria uma quantidade que nem sequer enchia uma bacia de três litros.

“É por isso que alguns colegas estão a preferir mudar para o Zenza, lá têm mais oportunidade de pescar grandes quantidade e vender, quando aqui o caudal desce demais. Aqui, se os miúdos estudarem, a família vai morrer de fome”, desabafou. Segundo o pescador, a condição do rio Kwanza é, simultaneamente, vantajosa e desvantajosa para os habitantes das zonas ribeirinhas, pois, quando o caudal sobe dificulta a produção agrícola e quando está baixo prejudica a actividade pesqueira. Outros encarregados de educação encaram como sendo normal a movimentação dos filhos para outras áreas, se for em função das necessidades dos pais.

Crianças querem aprender

A conversa amena que esta reportagem teve com alguns alunos da escola 6015 foi suficiente para perceber que as crianças desejam continuar com os estudos na localidade onde habitam actualmente. “Temos alguns colegas que mudaram de casa com os seus pais, por isso, já não conseguem assistir às aulas, mas nós não queremos sair daqui, porque queremos mesmo aprender”, disse o garoto que se identificou por Paizinho, tendo acrescentado que a escola foi construída para as crianças do bairro Augusto não irem estudar mais longe.

Os petizes que garantiram estar já familiarizados com os professores da 6015 disseram que, como as aulas já começaram há um bom tempo, não gostariam de encontrar outros professores a meio do ano lectivo. Sobre a empatia, a directora da referida instituição escolar anunciou- a como a sina do estabelecimento de ensino que lidera, ao ponto de ela mesma se comprometer a ser modelo.

Directores forçados a dividirem-se

Na maior parte das escolas localizadas entre o Quilómetro 38 e Mazozo constata-se o facto de os directores fazerem parte do elenco de professores que leccionam diariamente, mesmo com as vagas de trabalho de secretaria que têm de preencher e as presenças em reuniões do sector ao nível do município do Icolo e Bengo. Um dos exemplos mais expressivos é o da directora da escola 6012 de Mazozo, Joana Florinda Tchaquarta, que, apesar de ter sido nomeada como directora duma escola do ensino primário e secundário do I Ciclo, está submetida a dar aulas numa turma da 2ª Classe, no período da manhã, e a disciplina de Língua Portuguesa na 7ª Classe de tarde. Em dias como o de Segunda-feira, 23, em que acabava de chegar de uma reunião municipal ligada ao Programa de Aprendizagem para Todos (PAT), a directora fica sem tempo para atender assuntos da secretaria, da sala de aulas e outros de índole de gestão.

“Algumas coisas faço para não deixar os miúdos desocupados, disse Joana Tchaquarta, para quem este problema se minimiza com o envio de mais oito professores e um auxiliar administrativo para a sua escola. Não menos preocupantes são os casos dos directores Moisés da escola 6016, do distrito urbano de Bela Vista, e Joana António NGunza, da 6016, que, por não terem, no quadro do pessoal por si liderados, uma secretária, também se desdobram a realizar semanalmente trabalhos desta área administrativa. “Estamos conscientes de que existe uma cláusula que submete os directores de escolas primárias com menos de seis salas de aula a lecionarem, entretanto o problema é quando aparece alguém para resolver problemas relacionados com a direcção da escola ou da secretaria”, observaram, realçando que uma das ocupações acaba por ficar sempre incompleto.

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