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Crítica angolana considera que a promoção e divulgação do Jazz carece de mentes “abertas”

A comemoração do Jazz que hoje se assinala em todo mundo, tem como objetivo lembrar a importância deste género musical e o seu contributo para promoção de diferentes culturas e povos ao longo da história, associada à luta pela liberdade e abolição da escravatura

Texto de: Norberto Sateco

Nesta sétima edição do Dia Internacional de Jazz que se assinala hoje, dia 30 de Abril, alguns agentes culturais e apreciadores deste género musical em Angola, apontam alguns recuos no que à sua divulgação e massificação diz respeito. De acordo com o radialista e promotor musical, Moisés Luís, apesar deste especto, reconhece evolução nestes últimos anos, atribuída ao despertar do interesse do público sobretudo a juventude ‘luandina’.

O género continua a ser considerado pela crítica nacional como sendo um dos mais democráticos, muito por conta do seu poder de liberdade e a criatividade que tem vindo a encantar os seus apoiantes. “Os eventos têm sido bastante concorridos em Angola, basta ver a adesão aos festivais” referiu o radialista.

Já o jornalista cultural e amante do estilo musical jazz, Tomás de Melo “Ras Kamuto” entende ser necessário um maior apoio dos pequenos e médios empresários, no sentido de apoiar a realização de festivais em que participam grandes referèncias do music-hall internacional, de modo a que venham a fazer parte a fim de interagir com os artistas e público local.

Mas para que tal aconteça, Kamuto é de opinião que haja incentivos por parte da classe empresarial ou outras entidades interessadas em contribuir para o desenvolvimento cultural. ”Há uma grande entrega. As pessoas querem estar reunidas aos milhares a ouvir a música jazz, há esta disposição.

Só temos de ter a iniciativa de trazer também os grandes cantores de música do mundo” afirmou, Tomás de Melo, para quem Luanda tem condições estratégicas para ser uma placa giratória do jazz, caso houves- se iniciativa e entrega dos empresários culturais. “Nós recuámos muito nos últimos anos na divulgação dos grandes ritmos universais, as pessoas estão viradas para o imediatismo, ou seja, para aquilo que aparentemente possa dar dinheiro” atirou, Ras Kamuto.

Jazz na música angolana

O género musical jazz, para além de permitir o diálogo intercultural através de respeito e compreensão, unindo pessoas de todos os cantos do globo, também é dos mais influentes em outras sonoridades musicais.

Nos ritmos da música angolana o fenómeno não tem sido diferente. Um dos indicadores apontados pela crítica está na forma de tocar de certos artistas angolanos, com principal realce para músicos como André Mingas, Filipe Mukenga, entre outros. “Há ‘rasgos’ de jazz na forma de tocar, desde o compasso à bateria.

Os que se está a tocar cá, como Kizomba e Zouk, passa pela base do jazz” afirmou, o promotor musical, Tomás de Melo. Entretanto, um outro ‘monstro’ da música angolana apontado como tendo dado o seu contributo na introdução do jazz na música angolana, repetimos, são os músicos André Mingas e Filipe Mukenga, que na altura foram alegadament e mal entendidos pela crítica. Para o promotor cultural e radialista, Moisés Luís, esta influência ainda é bastante restrita a nível dos artistas angolanos, uma vez que existem artistas que optam por apreciar e cantar outros géneros musicais.

“Há elementos harmónicos que a nossa música perdeu fruto do próprio contexto, como os sopros, só para citar um deles, que dificulta tomar as bases do jazz” explicou Moisés Luís, para quem a influência será maior quando os ouvidos forem mais apurados e com a sua devida sensibilidade auditiva e o individuo poder cultivar o estilo com uma mente mais “aberta”, sendo que para conseguir-se cumprir com este desiderato, será necessário promoção de seminários temáticos e festivais, que são bastante reduzidos em Angola, se comparados com outros palcos do continente como África do Sul e Moçambique.

O leque de artista angolanos que se têm notabilizado no génerom, apesar de reduzido, vai aumentando. A destacar, Ndaka Yowi, Tóto, Nástio Mosquito, Afrikanita, Selda, Sandra Cordeiro e Anabela Aya, só para citar alguns. Álbum “Kuameleli” já disponível Tanto é assim que Anabela Aya apresentou ao público, no último fim-de-semana, o seu primeiro álbum de originais intitulado “Kuameleli” (Siga-me na língua umbundo), um evento que decorreu numa das casas noturnas de Luanda, tendo-se registado um ambiente intimista em que se puderam ouvir sonoridades de uma nova diva da música angolana nos estilos Afro-Jazz, Blues e Gospel.

“Kuameleli” conta tem 10 faixas musicais, das quais algumas foram compostas por conceituados nomes da nossa música, como Filipe Mukenga, Jomo Fortunato, Freddy Mwankié, Sashondel Jofre, Artur Nunes e pela autora do álbum. Músicas como “Kuameleli”, “Nangobe”, “Caríssimo”, “Teu nome é um”, “Tic Tac” e “I Love You bwê.

Totó ST , um dos expoentes do género no país Anabela Aya e Negão, durante a apresentação do álbum “Kumeleli”

Concerto marca Dia Internacional do jazz em Angola

A “Noite do Jazz”, é assim que a organização designou o concerto para celebrar a efeméride e realçar as capacidades de instrumentistas nacionais já sintonizados com esta música, e que se expressam numa linguagem criativa, improvisada, integrando nas tendências jazzísticas dominantes, elementos das culturas africanas e angolanas, como é o caso do Quarteto “Etokeku Jazz”, liderado pelo pianista/ tecladista Nino Jazz, que terá como companheiros de criação o baixista Kris Kasinjombela, Mário Gomes à guitarra e Jack da Costa em bateria.

O evento, que conta como figura de cartaz o artista, Ndaka Yo Wiñi, juntamente com os ‘cúmplices’ de luxo: Nsangu Za Nza (violão e voz) e Jackson Nsaka, com os seus toques em percussão. A trajetória de Ndaka data a partir de finais de 2011, de forma muito própria e original em que por via da sua música e composição, baseada na investigação cultural, têm-lhe permitido demonstrar nas suas obras que as raízes não bloqueiam; ajudam a crescer mais forte.

O concerto reserva também a última parte para o guitarrista Pedro Madaleno e sua banda MULTIKULTI, um grupo (quarteto) de ‘’worldmusic’’ que pratica música original com ritmos frescos e ‘‘grooves ‘’ dançáveis de África, India, música do leste europeu e latina.

O nome do grupo faz uma homenagem a Don Cherry, um trompetista afro-americano que muito fez pela world music, e trouxe a frescura e simplicidade dessa corrente ao Jazz dos anos 60,70,80, tendo editado um CD com esse nome. Pedro Madaleno, natural de Luanda, é considerado um dos músicos de Jazz mais activos em Portugal, conforme descreve Jerónimo Belo, o promotor da iniciativa e um dos principais cultores do estilo no país.

 

Paris, a capital do jazz este ano

As celebrações nas principais cidades do mundo já se faz sentir. Este ano, Paris foi nomeada cidade anfitriã.

O anúncio foi feito pelo embaixador da Unesco Herbie Hancock. A intenção deste dia de festa é “incentivar e destacar o poder de jazz como uma força para a liberdade e a criatividade, promover o diálogo intercultural através de respeito e compreensão, unindo pessoas de todos os cantos do globo.”

A efeméride tem o reconhecimento oficial da UNESCO e das Nações Unidas. Este ano a UNESCO celebra o 70º aniversário e o Dia do Jazz faz parte de celebrações do aniversário. Paris alberga uma série de eventos educacionais de jazz. Um concerto à noite na sede da UNESCO com performances de Dee Dee Bridgewater, da prodigiosa jovem pianista chinesa A Bu, Herbie Hancock, Al Jarreau, o trompetista libanês Ibrahim Maalouf, o sul-africano Hugh Masekela, Marcus Miller, Dianne Reeves, Wayne Shorter e muitos mais, a ser transmitido para todo o mundo a partir de Paris.

Em Londres, a Orquestra Human Revolution toca ‘Ode ao Espírito Humano 2015” um concerto especial com o convidado trompetista americano de renome internacional, Robin Eubanks na Union Chapel em Islington, norte de Londres. Foi em 2012 que se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional do Jazz.

A comemoração tem como objetivo lembrar a importância deste género musical e o seu contributo na promoção de diferentes culturas e povos ao longo da história. Para promover o Dia Internacional do Jazz decorrem vários concertos de jazz, promovidos por escolas, grupos e músicos, com o intuito de apresentar à população este género musical. O jazz é um estilo musical que apela à criatividade e à improvisação.

O jazz teve origem nos Estados Unidos da América, através da comunidade afro-americana no século XIX, tendo-se popularizado nas primeiras décadas do século XX. New Orleans é reconhecida como a cidade onde nasceu o jazz. Acredita-se que a palavra jazz advém da gíria norte-americana.

 

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