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OPAÍS, falou com sindicalistas, com jovens desempregados com formação superior, com religiosos e com vítimas de assédio sexual. Todos em busca de um bom emprego, todos em busca de justiça, que não deixam de lembrar ao partido do Governo que prometeu criar 500 mil novos postos de trabalho em cinco anos.

Texto de: Alberto Bambi

Já é considerável o número de infanto-juvenis que se encontra nos mercados de Luanda a comercializar qualquer produto. Entre estes, estão aqueles que se viram obrigados a abandonar as suas terras de origem por força da propalada crise económica. Um exemplo disso é André Fortunato, conhecido entre os companheiros de ofício por Paizinho, que presta serviço de arrumação e lavagem de utensílios de cozinha no mercado da Madeira, bairro do Gamek, distrito urbano da Maianga, em Luanda.

O garoto de 16 anos de idade contou que a sua mãe, ele e os quatro
irmãos mais novos tiveram de sair do Lobito (Benguela), em 2015, depois de o seu pai ter sido despedido da empresa Angofex.

“Como o pai tinha duas mulheres, então, desde que perdeu o trabalho, deixou de aparecer em casa e nós ficamos sem apoio, porque, um ano antes, a mãe também foi dispensada da casa onde trabalhava como lavadeira”, relatou Paizinho, acrescentando que as contas para a casa de renda onde viviam começou a ficar cada vez mais apertada.

Foi nesta altura que a irmã mais velha de Dona Fátima (Mãe de Paizinho) lhe pediu que embarcasse para Luanda, onde prometeu arranjar-lhe trabalho de apoio doméstico. Enquanto esperava pela concretização da promessa, Dona Fátima, em companhia de André Fortunato, deslocavam-se diariamente ao mercado da Madeira, o mais próximo da casa onde passaram a residir, a ver se a progenitora encontrava qualquer ocupação.

Contra todas as expectativas, foi o seu filho que, no sexto dia da empreitada, informou-se de alguns rapazes da sua faixa etária sobre possíveis ocupações para os adolescentes. “Então, eles me falaram que trabalham para as senhoras que cozinham na praça, ajudando a levar e lavar a louça e têm como pagamento 300 ou 500 Kwanzas por dia, mais o almoço” disse Paizinho, tendo garantido que essa prestação diária constituiu a primeira base de sustento da sua família, que, às vezes, se alimentava com a comida que o pequeno trabalhador trazia do mercado.

Segundo ele, para conseguir levar o alimento a casa, tinha de submeter-se a matar a fome com os restos das panelas, antes de as lavar. O jovem que hoje acumula a responsabilidade de gerência da barraca onde já trabalha há quatro anos, disse que os mil e 500 Kwanzas que recebe diariamente lhe possibilitou criar um negócio para a mãe.

André Fortunato frequenta a 9ª Classe, no período nocturno, e sonha ser jurista. Lembrou que em 2015, quando chegaram, ele e os três irmãos perderam o ano pelas dificuldades de reassentamento que tiveram.

Apesar de não ter aceitado falar a esta reportagem, Dona Fátima reconheceu que o esforço inicial do seu filho mais velho lhe deu um posto de trabalho, porque a promessa da irmã nunca chegou a ser efectivada. “Vendo banana assada com ginguba e os lucros já dão para a escola, alimentação e roupa dos miúdos”, deixou escapar, de forma lacónica.

Ocupação suscita sonho académico Rosário Marcelo Bumba é outro garoto proveniente da província de Malanje que, há dois anos, encontrou ocupação no mercado do Kifica, mais concretamente na secção de material de construção onde se desdobra em arranjar trabalho de apoio para carga e descarga desses meios.

“Vivo com o meu irmão no bairro Jacaré, ele é chamador de táxi e eu ajudo a descarregar ou carregar materiais de construção, já temos contacto com os motoristas, principalmente com o tio Luciano”, disse, tendo apontado para o senhor que referiu, argumentando ter sido o mesmo que o colocou na secção dos armazéns.

De acordo com Bumba, seus pais morreram há muito tempo, ele vivia com a irmã mais velha em Cacuso (Malanje), mas, desde o ano antepassado que o cunhado decidiu tirá-lo de casa, alegadamente por mau comportamento. Então, o adolescente de 17 anos resolveu vir ao encontro do irmão com quem passou a viver, desde 2016.

O sustento depende do esforço diário que ambos fazem, respectivamente nas suas actuais ocupações. “Diariamente, o meu irmão traz entre dois e três mil Kwanzas e eu, quando o dia é bom, posso facturar a mesma quantia”, revelou Rosário Bumba, que se sente triste por não ter conseguido matricular-se numa escola, desde que abandonou as terras da palanca Negra.

O rapaz que parou na 9ª Classe não abandona o sonho de ser gestor empresarial e assegura mesmo que as práticas diárias estão a atribuir-lhe alguma noção sobre este capítulo.

Intermediário de inertes Gaspar de 17 anos de idade lidera um grupo de três infanto-juvenis do mercado do Mundial II que arranja clientes para comprar inertes, designadamente areia, pedras e burgau. Nos últimos dias, a equipa intrometeu-se no negócio de água.

“Esta é a forma de sobrevivência que encontrámos para não andar a roubar”, desabafou o jovem, tendo revelado que o posto lhe foi deixado por um adulto com quem trabalhou durante dois anos e actualmente é condutor de um camião de areia. Por cada venda, o grupo de Gaspar fica com uma comissão de cinco mil Kwanzas, um valor que é dividido por todos, sendo que o chefe acaba por levar em pouco mais.

Este, revelou que vive com os seus tios (todos solteiros) no bairro Projecto, e que no ano passado o aconselharam a sair do Uíge para seguir o curso de electricidade. Posto em Luanda, o acesso aos estudos não foi possível.

A situação agravou-se ainda mais quando os dois tios maternos foram transferidos para o Huambo, o que submeteu o entrevistado a fazer alguma coisa para não passar por certas privações. “Se as coisas piorarem, eu penso em voltar para o Uíge, porque a vida aqui não está fácil”, reclamou o intermediário de inertes que só vai recuar dessa decisão se conseguir dinheiro para fazer o curso de condução em 2019.

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