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A necessidade de uma projecção na política externa

Até à segunda guerra mundial os Estados procuraram harmonizar três tipos de poder: Economico, militar e político. Mas com a globalização cujos principais requintes são económicos e tecnológicos as políticas voltaram- se em grande medida para dentro, descorando a política externa.

POR: Belarmino Van-Dúnem

No sistema internacional actual raramente o Estado manifesta interesse em conquistar mais território para a sua tutela, num ou noutro caso persistem as reclamações de pequenas parcelas de território que historicamente pertenceram a um determinado Estado e que por qualquer razão estão sob tutela de outro. A globalização obrigou os Estados a virarem as suas atenções para o aumento do poder tecnológico e económico. A guerra moderna é mais sobre a informação. Decisões que afectam milhões de cidadãos escapam completamente ao poder local. O princípio da não ingerência deixou de ser sagrado porque a informação instantânea induze os cidadãos de sociedades longínquas se interessem por assuntos que não os afectem directamente. Há entre os fazedores de opinião em Angola uma tendência generalizada de colocar para o segundo plano a política externa.

A dinâmica da política interna é que determina as acções da política externa, fazendo com que a diplomacia seja mais uma conciliação de interesses entre o Estado e os seus parceiros do que propriamente um plano interno para defender os interesses do Estado cuja essência ultrapassam as fronteiras nacionais. Não são raras as vezes em que os intelectuais mais jovens colocam em causa as acções da política externa, advogando que os recursos teriam mais utilidade se fossem  alocados em projectos nacionais. A pergunta não varia muito daquela em que se diz para quê gastar tanto dinheiro com acções no exterior quando o mesmo poderia ser aplicado no território nacional. O sistema educativo actual não dá a enfâse necessária aos aspectos históricos, fazendo crer que é possível o país desenvolver-se com base em relações inter-estatais sem perigos. Há uma fixação generalizada para a competitividade económica individual, esse facto empurra a sociedade para crença de que o sucesso na vida privada levará a uma equiparação com a economia e a política globais.

O desaparecimento do conflito Norte – Sul, o fim da colonização, a homogeneização das ideologias que levou a ambiguidade entre as politicas da esquerda e da direita e a vitória incondicional do regime democrático criaram um vazio em todas as sociedades e consequentemente uma certa preguiça mental. Deste modo, o intelectual angolano estrutura o seu pensamento em função dos ajustes e da imagem que tem de outras sociedades que no seu imaginário são ideais. Essas atitudes são produzidas, na minha opinião, por força do fim da guerra civil. A maioria dos líderes de opinião foi formada com ideais de contestação, de luta pró-democracia e uma obsessão exacerbada pelo sucesso económico privado. A diplomacia é transformada num convite de adesão à política nacional por parte dos outros parceiros. Este chamamento de assentimento a política nacional gera uma tensão interna no intuito de desanuviar as pressões externas. Os cidadãos entraram num frenesim competitivo entre si, deixando para o segundo plano a unidade necessária que levaria o país para uma posição de vantagem ao nível externo. Há necessidade de programas específicos da política externa nacional que sejam suficientemente atractivos para cooptar as forças vivas da Nação.

A política externa deve ser vista como parte integrante das políticas públicas e não como estando ao serviço daquelas, uma complementa a outra e nenhuma delas é subserviente relativamente a outra. As ambições do Estado no que tange a política externa têm que ser sociais e não individuais. Entre os objectivos desejáveis destaca- se o poder tecnológico porque nenhum Estado é suficientemente poderoso sem capacidade tecnológica. Infelizmente o projecto nacional Angosat 1 ficou adiado mas seria o caminho. O poder tecnológico é a única via para um desenvolvimento sustentado e sustentável a longo prazo. Não havendo espaço e tempo para criações com patentes nacionais a importação de know-how deve ser a estratégia. Sem poder tecnológico todos os outros são efémeros. As maiores potências económicas e militares do mundo só o são porque têm o domínio da tecnologia.

A economia moderna está estritamente ligada à transformação industrial com especial destaque para a robótica, a produção descentralizada e especializada com homem no comando sem grande intervenção na execução. A nível militar, só estão salvos de ameaças externas os Estados com capacidade e poder nuclear. Não obstante a quase impossibilidade do uso deste tipo de arma contra outros Estados, é a unica forma de dissuasão efectiva até à data. Um exército forte com os três ramos funcionais, especialmente a força aérea e as unidades blindadas constituem o tipo de Técnica que têm vencido as batalhas depois da segunda guerra mundial. Angola tem que definir o que projecta para si nos próximos 20 ou 30 anos na África Austral e Central, o papel que pretende desempenhar enquanto parceiro dos países desenvolvidos que pretendem ter acesso aos recursos naturais e, o mais importante, o cidadão que se pretende ter não como indivíduos mas como membros de uma sociedade coesa e consciente da vocação externas nacional.

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