loader

Moradores das casas demolidas na Zona Verde pedem justiça

Um total de 35 casas foram demolidas na última Quinta-feira, 27, na conhecida Zona Verde, Bairro Benfica, em Luanda. Segundo os proprietários trata-se de um espaço de 2 hectares, com mais de 40 lotes que a administração do Belas decidiu ‘despovoar’

POR: texto de Maria Teixeira
fotos de Virgílio Pinto

Desde o dia das demolições que a vida dos afectados se transformou num autêntico martírio. A maioria passa a noite ao relento, na esperança de proteger a sua mobília, que foi posta por debaixo dos portões, janelas e chapas de zinco que sobreviveram ao derrube das casas. Os moradores queixam-se de não terem sido notificados por qualquer entidade oficial sobre a iminência das demolições, mesmo sendo que alguns já vivem na zona há três anos. Apenas viram as casas a serem destruídas, sem mais nem menos. Alberto Capitango, um dos lesados, reforça que a administração não fez nenhum aviso, facto que dificulta o processo de negociação, por exemplo, uma vez que “o que se passa aqui, como se pode ver, senhora jornalista, é desumano e o senhor administrador António Godó não devia ter feito isso”.

Mostrou-se desapontado e desmente a informação do administrador que, em declarações à TV Zimbo, assegurou que terá mandado uma convocatória, – documento que nunca ninguém viu -, alegando que deviam retirar- se daquele espaço por não terem licença para construir. Afirmam terem pago 150 mil Kz aos fiscais, para construir naquele espaço, e que compraram o terreno, por parcelas de 20 x 30m – das mãos de um velho camponês, identificado apenas por senhor Cassange. “Nós temos documentos que comprovam que o espaço é nosso e nunca fomos invasores. A minha casa T3 já tinha o quintal todo coberto, o meu espaço é de 20 x 20. Neste momento não consigo, nem trabalhar, por causa dessa situação alarmante”, conta o jovem. Duas versões dividem a administração, segundo os moradores.

A primeira é a do administrador apresentada em entrevista à referida estação televisiva, e a segunda é de que as obras foram canceladas porque o terreno está em litígio, dado que apareceu um segundo dono, pelo que é suposto que os documentos apresentados pelos moradores é falso. “Agora, o administrador deu uma entrevista e disse que construímos de noite. Acham mesmo que uma casa com placas e todas as fundações se constrói em três dias, à noite? Ainda mais, num bairro que nem iluminação pública tem. É um absurdo!”, disse o entrevistado, tendo acrescentado que não cruzarão os braços e vão recorrer aos órgãos competentes.

Destruído o “sonho da casa própria”

No grupo de 15 pessoas que reclamavam da demolição das suas residências, está Adália Jacinto, que comprou o terreno há dois anos e durante este tempo todo nunca apareceu ninguém a contestar a titularidade do terreno, pelo que ficou surpreendida com a ordem da demolição. Lágrimas corriam pelo seu rosto no momento em que detalhava os compartimentos que tinha a residência do tipo T2, com placa e quintal coberto, em terreno de 20 x 20. A interlocutora é viúva e mãe de sete filhos. “Deixei de comer em condições para construir aquela casa, que agora está toda no chão. Não restou sequer um quarto”. “Comprei o terreno a 1.500 dólares, paguei em prestações, e hoje, fazem isso. Quero justiça, porque nem sítio para ficar com os meus filhos tenho. Sou vendedora e nem sempre tenho dinheiro para comer”, lamenta ela que já perdeu os sentidos inúmeras vezes, quando a sua tensão subia.

Por sua vez, Flávia Carnote, outra jovem a quem também foi destruído o sonho da casa própria, disse que já se dirigiram à Administração Comunal no sentido de obterem algum esclarecimento, mas não tiveram sucesso e foram reencaminhados para a Administração Municipal, e até agora não conseguem solução. “Fiquei surpreendida quando via entrevista do senhor administrador na TV Zimbo a dizer que nós somos invasores, e que as nossas casas foram erguidas em três dias e no período nocturno. Queremos que alguém de direito venha cá nos esclarecer, porque quem partiu não se fez acompanhar de nenhum documento”, conta. Pede ainda ao senhor governador e ao Presidente da República que envie uma equipa para poder ajudá-los nesta situação. Mãe solteira com o sonho da casa própria destruído, apenas clama por justiça e reposição dos bens materiais danificados.

Encontros com a Administração não deram em nada

Os moradores tiveram pelo menos três encontros com a administradora do Distrito de Cabolombo, a chefe da área jurídica e o vice- administrador. No primeiro encontro foi-lhes orientado a apresentarem toda a documentação. Assim sendo, o caso passou para a Administração de Belas e não voltaram a ser contactados, isso já desde o ano passado, segundo o morador Domingos Malungo. “Não temos nenhuma convocatória, e em nenhum momento construímos de noite. Comprei o meu terreno e para terminar tive de fazer empréstimo bancário”, disse. Disse ainda ser triste estarmos num país democrático e que “há alguns anos o parlamento elaborou leis que proibiam as demolições e ainda vemos coisas do género a acontecerem. Agora me pergunto, para que servem as leis, se não são cumpridas?”. Segundo, Domingos Malungo, a Administração está a favor de uma senhora de nacionalidade portuguesa que diz ser a proprietária do espaço, porque no dia da demolição “esta fez-se presente a escassos metros, ao lado da Fiscalização e da Polícia”.

 

Últimas Notícias