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Madeireiros denunciam concorrência desleal no Cuanza-Sul

Na comuna da Gabela, município do Amboím, província do Cuanza-Sul, chineses exploram a madeira ilegalmente, enquanto os madeireiros angolanos aguardam pelas licenças. O Instituto Nacional de Desenvolvimento Florestal (IDF), na voz do seu Director Nacional, Domingos Nazaré Veloso, confirma a denúncia

POR: Patrícia de Oliveira
fotos de Daniel Miguel

O negócio da madeira no país desperta cada vez mais interesse entre cidadãos nacionais e estrangeiros. No entanto, a actividade nem sempre é feita respeitando as normas do negócio. Na Gabela, município do Amboím, província do Cuanza-Sul, os angolanos sentem-se ultrapassados pelos chineses que, mesmo sem licença exploram madeira. Em exclusivo a OPAÍS, José Miguel revela que “estou a aguardar pela licença do Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Florestal. Na mesma condição estão os chineses que, apesar disso, exploram madeira no município da Conda e em outros pontos do país, transportam-na para o bairro Camulo, município da Gabela, concretamente na fazenda do senhor Eduardo Martins”, denunciou.

José Miguel revela ainda que o negócio está a lucrar muito. Justifica tal afirmação referindo que, se antes pagava-se Kz 3 mil por cada árvore aos proprietários das terras, agora paga-se o triplo, nada mais nada menos que Kz 9 mil. “Os chineses inflacionaram o mercado e nós, os angolanos, não conseguimos competir com eles. Além de não estarem autorizados, eles pagam muito mais”, apontou. Segundo José Manuel, muitos chineses abandonaram os seus negócios iniciais e viraram-se agora para a madeira.

A denúncia ocorre num momento em que, no país, está proibida a exploração da madeira, uma vez que o período de safra terminou. Na mesma condição encontra- se Luís Graça, claramente descontente com o “poderio” dos cidadãos chineses no sector madeireiro na região da Gabela. Segundo o nosso interlocutor, os chineses trabalham com angolanos que têm a missão de cortar os troncos e posteriormente carregá-los para a serração. “Os chineses estão a cortar arvores nos municípios do Seles, Conda e do Amboím, e transportam -na à uma fazenda na cidade da Gabela”, revela o madeiro. Segundo ele, semanalmente, os chineses chegam a cortar 1.500 Grevílea, denominação popular de uma árvore da família das proteáceas, e que chega até aos 18 metros de altura. Enquanto os chineses exploram, apuramos que neste momento, pelo menos quatro empresas aguardam pela licença ao nível do município do Amboím.

IDF confirma denúncia

O Instituto de Desenvolvimento Florestal do Ministério da Agricultura e Florestas (IDF) reafirma que não se está em época de exploração de madeira. Por isso, considera ilegal esta actividade desenvolvida pelos chineses. Segundo Domingos Nazaré Veloso, caso se confirme esta denúncia, os prevaricadores serão punidos. “Tal como vocês receberam a informação, nós também fomos informados sobre a exploração ilegal de madeira na região da Gabela, município do Amboím, província do Cuanza Sul. Vamos enviar uma equipa de fiscais ao local para averiguar o caso”, anunciou. Em relação às medidas previstas por lei, caso se confirme a informação, o responsável do IDF preferiu não avançar.

No entanto, defende que os incumpridores devem ser detidos pela Polícia e, tratando-se de estrangeiros, sejam entregues ao Serviço de Migração e Estrangeiros para o devido tratamento. Em relação aos receio dos nacionais que aguardam pelas licenças e temem pelo fim da madeira na localidade, Nazaré Veloso garante que não haverá escassez de madeira, pois a exploração é feita por metros cúbicos, em obediência à solicitação prévia, acrescentando que o processo de exploração depende da capacidade técnica e financeira de cada empresário. Nazaré Veloso ressalta que os estrangeiros não estão autorizados a explorar madeira, pois trata-se de uma actividade exclusiva dos nacionais, sublinhando que a situação da Gabela é isolada. Por sua vez, o director Provincial da Agricultura no Cuanza- Sul, Ferreira Neto, salientou que a confirmar-se a informação, vai aplicar-se apenas a lei. “Mandaremos uma equipa ao local. E em função do que for constatado, vamos apenas aplicar os instrumentos legais”, sublinhou.

Prejuízo da suspensão da exploração

A suspensão da exploração de madeira causa prejuízos estimados em Kz 300 milhões Os dados relativos às perdas dos madeireiros referem-se à província do Cuando-Cubango, a província que mais madeira produz logo depois de Cabinda. A suspensão da actividade madeireira decretada pelo Ministério da Agricultura e Florestas, desde 1 de Fevereiro do ano em curso, gerou até agora prejuízos estimados acima de 300 milhões de Kwanzas aos operadores na província do Cuando Cubango. Os prejuízos resultam do aluguer de mais de 30 camiões fretados ao preço de 800 mil a um milhão de Kwanzas, a par das despesas com o pessoal e a maquinaria. Face a esta situação, o presidente da cooperativa dos madeireiros do Cuando Cubango, Miguel Lissala Tchiovo, recentemente, solicitou ao Governo local a disponibilização de mais de 30 mil metros cúbicos de madeira que não podem ser vendidos devido à suspensão da actividade de exploração de madeira no país.

Explicou que os camiões carregados de madeira deviam proceder à descarga desde que se permitisse a sua venda dentro ou fora do país. “ Daí que há toda a necessidade de se resolver o problema em causa”. Miguel Lissala Tchiovo informou que estão envolvidos mais de 60 empresários que estiveram engajados na campanha florestal de 2017. Recentemente, à margem do congresso dos industriais da madeira que teve lugar em Luanda, o ministro da Agricultura e Desenvolvimento Florestal, Marcos Alexandre Nhunga, disse que foram apreendidas, em posse de cidadãos chineses, mais de 500 moto-serra, e afirmado que a exportação de madeira em nada contribui para os cofres dos Estado, por não ser feita pelos canais legais. “Isso está uma anarquia total”, considerou o governante.

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