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O ciclo da culpa

Nascem e morrem pessoas todos os dias, desde sempre. Mas em Angola parece que ninguém acredita nisso, como se fôssemos eternos. Ou como se tivéssemos de o ser. Daí que a morte tem sempre um culpado.

POR: José Kaliengue

E toca a desancar no velho mais próximo, ou na criança. Tem de haver sempre um feiticeiro. Alguém que está a guiar um carro e que bebe álcool há anos, pára numa janela aberta, embebeda-se, sai, tem um acidente … a responsabilidade é de uma tia lá na aldeia que o levou a beber. Haja paciência. Mas se não é a história do feitiço, há outras parecidas. Imaginemos alguém que até ganhou muito dinheiro, manipulando propaganda a culpar agora os jornalistas pelo estado do país. Jornalista trabalha com os dados que lhe são entregues ou investiga, mas não inventa. Se lhe disserem oficialmente, com documentos, que já não há malária em Angola, ele passa esta notícia, apesar de ter a responsabilidade de investigar e mostrar que há sim malária. Mas a responsabilidade daquele documento que acaba com a malária não é do jornalista, alguém que a assuma. O que não é admissível é ver certas pessoas do partido que nos governa a atirar pedras sobre certos jornalistas, culpando-os da “situação calamitosa” do país. Os mesmos que há pouco tempo teriam trucidado os tais jornalistas, se fizessem de forma diferente. Jornalista não governa, saiba-se. Havia auto-censura? Porque alguém tinha marcado limites e nem todos tinham a coragem de os ultrapassar, o que o fez pagou de alguma forma. E o que só faltava, era mesmo os políticos saírem limpos e os jornalistas ficarem com as culpas… um bom começo para repetir a dose impunemente.

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