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A importação de vidros está a afectar os produtores nacionais

virada para o sector da construção civil, a Angovidro foi afectada pela crise que reduziu consideravelmente o volume de obras anualmente realizadas no país. o administrador da Angovidro, Fernando Barros, entende que a importação de vidros, em parte por operadores estrangeiros, prejudica os nacionais. A Angovidro espera liderar o mercado antes de 2020, com a perspectiva de deter pelo menos 35% do mercado nacional

POR: Borges Figueira

Qual foi o desempenho financeiro da empresa AngoVidro ao longo do ano 2017?

A Angovidro iniciou a sua actividade comercial em 1 Janeiro de 2016, após um período de 15 meses para obras, instalação e testes. O primeiro ano de actividade foi 2016. O contexto da crise que Angola vive desde finais de 2014 teve particular impacto no mercado da construção civil, que é o mercado da Angovidro. Por esta razão, tanto em 2016 como em 2017, a Angovidro tem obtido resultados muito inferiores aos previstos, tendo ultrapassado o que cremos ser a pior fase da crise, muito a custa do apoio dos nossos fornecedores e parceiros de negócios, pessoal e sócios, e com uma gestão muito rigorosa e áustera. Os resultados de 2016 foram muito desanimadores. A reorientação estratégica aprovada em meados de 2016 deu os seus frutos, pelo que, em 2017, os proveitos cresceram expressivamente e contamos que em 2018 esse crescimento expressivo continue.

O que é que o financiamento do Angola Investe representou para o crescimento da AngoVidro?

O financiamento contraído no contexto do programa Angola Investe foi determinante para a decisão de investir, dadas as facilidades de acesso ao crédito resultantes da garantia prestada pelo Estado e, por outro lado, pela taxa de juros reduzidas e o faseamento de reembolso.

Quantos trabalhadores nacionais e expatriados a Angovidro emprega?

A Angovidro emprega actualmente 45 trabalhadores, dos quais apenas quatro são trabalhadores estrangeiros, que são técnicos especializados e experientes.

Quais são os principais produtos que comercializa?

A Angovidro é uma indústria de transformação de vidro em chapa para a construção civil. O vidro em chapa é sujeito a uma série de transformações industriais para entregar produtos como o vidro temperado, o vidro laminado, o vidro duplo, e o vidro triplo. Estes produtos têm aplicações diversas, por exemplo, vidros para as fachadas dos prédios ou janelas para moradias, portas e montras de lojas ou bancos, divisórias de escritórios, guardas de escadas ou de varandas, vidros de segurança, ou até para fins decorativos, por exemplo, o tampo de uma mesa para reuniões.

Quem são os principais clientes da Angovidro por segmento?

Os nossos clientes são os caixilheiros, que são empresas de construção civil especializadas em soluções de fachadas e vãos, tipicamente em alumínio, PVC ou até em madeira. Como em todos os sectores, há caixilheiros de grande, média e pequena dimensão. A Angovidro serve todos os segmentos de mercado em Angola, desde um vidro para uma janela de uma casa até a uma solução mais complexa de fachada de um aeroporto ou de um prédio. Muito raramente servimos clientes finais directamente.

Como avaliam o processo de importação de matéria-prima no contexto actual, de que forma prejudica ou não a produção nacional?

Desde há uns meses, nota-se uma mudança positiva na atribuição de divisas à indústria, contrariamente aos anos de 2016 e 2017 em que estivemos em risco de fechar por falta de matéria-prima. A nossa actividade industrial, assim como muitas outras, deste ou de outros sectores, depende da importação, quer de matéria- prima, quer de assistência técnica que não podemos dispensar dada a complexidade do equipamento industrial de que dispomos. Além do factor divisas, não existem barreiras de outra índole à importação. Aliás, um dos graves problemas com que nos deparamos é precisamente precisamente a não protecção aduaneira à nossa indústria, já que qualquer caixilheiro que consegue aceder às divisas prefere importar o vidro já transformado. Por diversos factores que posso detalhar, actualmente não é possível concorrer de forma justa com os industriais dos países desenvolvidos, sobretudo da Europa, pelo que é imperativo que a revisão em curso da Pauta Aduaneira confira protecção efectiva à indústria nacional – pelo menos durante alguns anos. A protecção aduaneira deve ser limitada no tempo, mas é imprescindível na fase de arranque de uma Economia ainda muito débil e com enormes desequilíbrios.

Qual a quota de mercado da Angovidro no território nacional?

Não existem dados disponíveis que permitam aferir com rigor as quotas de mercado detidas por cada empresa deste sector. Diria, contudo, que em termos de volume de negócios, a Angovidro deve actualmente estar entre as três maiores empresas do sector, mas é a que cresce de forma mais expressiva. Contamos liderar o mercado de forma expressiva não depois de 2020 com a ambição de deter não menos de 35% do mercado nacional. A nossa estratégia de crescimento tem como principais concorrentes os industriais estrangeiros que têm vindo a vender vidro já transformado para Angola. Teremos sucesso se aliarmos à qualidade certificada dos nossos produtos, os mesmos standards observados nos mercados desenvolvidos, uma adequada protecção aduaneira.

Em que medida a importação de produtos acabados prejudica a indústria nacional?

Agora que existe capacidade instalada em Angola para dar resposta a todas as necessidades do mercado nacional, não há razão para que o Governo não confira protecção aduaneira a esta indústria. Se esta indústria continuar a não ter adequada protecção aduaneira, os empresários não vão investir nem em equipamento nem em know how, não haverá nem mais emprego nem acréscimo de valor em Angola. Quem vai agradecer são as empresas industriais de transformação de vidro estrangeiras que actualmente ganham muito com o cliente bónus (facturação adicional não prevista para essas empresas estrangeiras).

Dado os níveis de importação do produto acabado, quanto é que o país ou a indústria nacional facturaria?

O volume de negócios da indústria nacional iria multiplicar várias vezes, já que todo o vidro que tem vindo a ser aplicado nos projectos de grande dimensão – prédios, edifícios públicos – tem vindo a ser importado já transformado por empresas estrangeiras.

Tem a indústria local capacidade e qualidade para fazer face a demanda do produto?

Sem qualquer dúvida. Só a Angovidro tem capacidade para produzir mais do que toda a quantidade de vidro transformado que foi importado em 2016. E os nossos produtos são certificados pelo maior produtor de vidro do mundo. Outras unidades industriais ou serão já certificadas ou poderão sê-lo se investirem nesse sentido.

Quais são os objectivos da Empresa para os próximos anos: investimento, aumento dos níveis de produção?

Sendo conferida a protecção aduaneira necessária, e com base na expectativa do crescimento económico nos próximos anos, a Angovidro tem planeado diversos investimentos quer em termos de qualidade (Processos e Procedimentos de Produção e Gestão; alargar o leque de Certificações), quer em termos de equipamentos que permitam, por um lado, aumentar a capacidade e, por outro, acréscimo de valor (ex: vidro curvo; pintura; utilização de chapa com 6 metros). O escalonamento do investimento está directamente relacionado com a evolução do mercado por um lado, e com o recurso a financiamento por outro. Contudo, cremos que no triénio 2019-2021 vamos investir de forma significativa, como resultado da protecção aduaneira e do crescimento natural da Economia. E com esses investimentos, vamos aumentar o emprego.

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