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Funcionárias do Hospital da Barra do Cuanza sem salário há oito meses

Os dirigentes apelam à calma, adiantando que, tão logo o processo seja formalizado, a situação das senhoras será resolvida

POR: Alberto Bambi

Os funcionários de limpeza que trabalham no considera – do hospital de referência da Barra do Cuanza, município de Belas, em Luanda, queixam-se de estarem a trabalhar há oito meses sem a devida remuneração. “Quando nos contrataram, em Setembro, nos contrataram para fazermos limpeza no hospital, até hoje não nos deram nenhum salário, só nos dizem para esperar, porque o Governo vai resolver o nosso problema”, disse Eugénia Bernardo Ribeiro, uma das 16 trabalhadoras que se encontram nestas condições. Durante esse tempo, Eugénia Ribeiro esforça-se para manter o negócio de maruvu (bebida caseira) que fazia antes de se inscrever no quadro do pessoal do hospital, a fim de não ver totalmente condicionada a sua vida.

“Há dias em que eu não consigo vender sequer um litro de maruvu, porque só posso estar aqui na bancada no período da tarde e, nessa altura do dia, a clientela é muito pouca”, adiantou a funcionária, tendo assegurado que ela e outras concorrentes do negócio disputam os viajantes, banhistas e turistas que passam pela área onde vendem preferencialmente no período da manhã. Eugénia Ribeiro revelou que, além da dificuldade no sustento diário da sua família, um dos impactos negativos que a privação do salário tem provocado é a falta de capacidade financeira para suportar as despesas referentes às exigências da escola dos seus rebentos.

A par disso, a entrevistada aproveitou a ocasião desta reportagem para revelar que estava com dificuldade para apoiar a sua filha, Teresa Ribeiro Solar, de 11 anos, que frequenta a 4ª Classe, a tirar fotografias que lhe foram pedidas na escola primária local com o objectivo de completar o seu processo individual. “Se eu vendo alguma coisa, são dois ou um litros de maruvu por dia, a 500 Kwanzas, e isso não chega para nada”, lamentou a auxiliar de limpeza do hospital, que pediu para os dirigentes deste estabelecimento de saúde velarem pela causa das 16 senhoras. Para Filomena André Diogo, de 33 anos de idade este é um pedido incessante que dificilmente encontra resposta. Pelo que se lembra, a única vez em que os membros da direcção tocaram no assunto disseram às senhoras que a unidade hospitalar ainda não tinha verbas para tal, não tendo também avançado data para inversão deste quadro.

Ela já pensou em desistir, entretanto recuou na decisão devido aos aconselhamentos de familiares e amigos que, antes dos três meses de serviço, lhe disseram que este era um procedimento normal do Estado. Os recentes rumores de um possível concurso público no sector da Saúde baralharam as contas de Filomena Diogo, ao ponto de a própria se interrogar como era possível haver contratação se ela e as suas colegas estão há seis meses sem salário. Alice Fernandes, uma das funcionárias, que vive mais próximo do hospital da Barra do Cuanza, disse que a situação da deslocação só afecta muito as trabalhadoras residentes, mas, sem se retirar o peso que a falta de vencimento causa diariamente à sua família, sente pelas colegas que vivem no bairro Cabarril, localizado a mais de 15 quilómetros.

Falta de dinheiro nos atrasa

Justina Bimbi e Severina Chambambi integram o grupo das quatro trabalhadoras sem salário que vivem fora da Barra do Cuanza. “Todos os dias, a partir das cinco e meia, já temos de estar aí à beira da estrada para apanharmos boleia, mas nem sempre aparece antes das oito horas. Ainda assim, mesmo tarde, chegamos ao serviço, para o chefe não pensar que nós é que não queremos trabalhar”, explicaram, realçando que o rítimo de vida a que se submeteram já dura há oito meses. O que minimiza o esforço das senhoras são os militares que passam pelo bairro localizado depois do Ramiros, que, quando podem, lhes dão boleia, soube OPAÍS das suas interlocutoras, que desabafaram, em seguida, dizendo que nenhuma ajuda do género compensava a falta de salário.

Nos dias em que têm mesmo de viajar de táxi desembolsam entre 200 e 300 Kwanzas, dependendo da sensibilidade dos taxistas ou dos motoristas dos poucos autocarros que fazem o trajecto Benfica-Cabo Ledo. À semelhança das suas colegas da Barra do Cuanza, as moradoras do Cabarril têm de se empenhar na actividade comercial para ver a sua dor minimizada. Elas contaram que a situação das suas famílias só não se agrava ainda mais porque a zona onde vivem é propensa ao cultivo de melancia e ao crescimento natural de frutos silvestres como maboque e múcua, que, associados à produção de carvão, constituem os produtos mais vendidos nessa povoação.“Outra regra que facilita as trabalhadoras daqui e a das Palmeirinhas, é que nós trabalhamos dia sim e dia não”, salientou Justina Bimbi, referindo- se à agenda de trabalho em dias alternados.

Questionadas se durante o tempo em que trabalham na unidade de Saúde da Barra do Cuanza, a direcção da mesma deu apoio para diminuir as carências, elas acenaram a cabeça de um lado para o outro, em jeito de negação, tendo acrescentado que a única coisa que os enfermeiros disponibilizavam para as senhoras eram as sobras das refeições confecionadas no hospital. Quando Eugénia Ribeiro e Filomena Diogo se referiram a esta suposta doação, asseveraram que, ainda assim, se tratava de troca de favores, pois o grupo de senhoras beneficiário tinha de lavar a louça.

Enfermeiros dizem que ajudam

Os enfermeiros Noé Alexandre e Maria asseguraram que os técnicos de saúde prestam apoio às senhoras naquilo que é possível. Sem detalhar o tipo de apoio, os enfermeiros destacados no hospital da Barra do Cuanza, no Domingo passado, disseram que o director-geral e algumas vezes a Delegação Municipal da Saúde “enviam qualquer coisa”, a fim de diminuir os problemas das suas colegas. Reconheceram que as senhoras se encontram há muito tempo sem salário, o que dificulta para elas sobretudo a assistência da família.

Administrador reconhece a dor

O administrador da comuna da Barra do Cuanza, Tomás Mwanza, reconheceu haver enormes dificuldades na vida das funcionárias de limpeza que se encontram há mais de seis meses sem salário, mas reiterou o seu apelo no sentido da calma. “Estamos a espera da formalização do concurso público já lançado e tão logo se der o aval as trabalhadoras terão a sua situação resolvida”, salientou Tomás Mwanza. O administrador pediu às visadas para não pensarem que os dirigentes não estão a fazer nada para resolver a sua causa, tendo acrescentado que o fenómeno não acontece única e simplesmente no sector da Saúde. Informou também que a Administração, conjuntamente com a direcção do hospital, tem feito “alguma coisa” para minimizar a vida dessas funcionárias, razão pela qual disse terem optado por conceder as vagas dos referidos serviços de apoio ao pessoal local e de comunidades nos arredores.

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