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Marco Pigossi: “O Nonato tem uma verdadeira inclinação pela aventura e pela adrenalina”

“Onde nascem os fortes” é a designação da nova série da TV Globo, que está a ser emitida também no seu canal internacional. Entre os protagonistas está Marco Pigossi que interpreta o personagem Nonato, o actor brasileiro com quem OPAÍS entabulou conversa sobre o seu desempenho e alguns dos meandros desta trama que comporta 53 capítulos

POR: Jorge Fernandes

Como define o seu personagem Nonato?

O Nonato é essa pessoa que tem uma verdadeira inclinação pela aventura e pela adrenalina. Ele pratica desportos radicais e tem necessidade de estar em desafio o tempo inteiro. É uma pessoa sempre em movimento. Apesar disso, é amoroso, de bem com a vida, que gosta das coisas boas, de gente, de festa. É alguém de bem para cima. Ele tem uma irmã gémea, a Maria (Alice Wegmann), e eles têm uma relação muito próxima, muito forte. O George (autor) explora essa relação de uma forma muito interessante porque ela chega no limite da intimidade e esse amor deles quase passa do ponto.

Como assim?

Eles são muito colados, ele brinca com essa coisa de um sentir o que o outro está a sentir, um sentir que o outro está em apuros, passando por uma situação difícil, ou feliz. Ele explora bem essa situação desses irmãos gémeos que vieram do mesmo lugar. Eles não têm esse limite corporal que a gente tem socialmente, não há nenhum bloqueio entre eles. É uma relação muito bonita, e acho que quanto mais essa relação for forte e o público entender esse amor desses irmãos, mais forte é a trama inteira que se desenrola a partir dessa tragédia, que a gente não sabe exactamente o que é, mas que vem a acontecer.

O que vai acontecer entre o Pedro e o Nonato?

O encontro do Nonato com o Pedro Gouveia (Alexandre Nero) é um acidente, um acaso. O Nonato é um estrangeiro naquele lugar, ele é de uma cidade grande, do Recife, ele não é dali e não entende que ali existem regras muito particulares. Sertão é um lugar que tem as suas próprias leis e que ele não conhece nem está acostumado. Dentro dessa curiosidade, dessa vontade de conhecer, de explorar, o Nonato acaba por se meter numa cilada. Ele conhece a Joana (Maeve Jinkings) e ele encanta-se por essa mulher. Parece uma coisa muito simples, eles estão num bar, ele já tomou alguma cerveja, e ela vira o desafio dele.

O que acontece a seguir?

Ele quer ter essa mulher, quer conhecer, aproximar-se de alguma forma. E ele sente que existe um retorno dela, e ele acaba por sentir-se numa aventura, ele quer esse desafio. Só que o Nonato não conhece as regras daquele lugar e ele não tem ideia que aquilo é comandado pelo personagem do Pedro Gouveia, então ele acaba entrando nessa cilada meio sem querer, pelo simples interesse que ele tem por essa mulher. O Nonato é alguém que não sabe responder negativamente a desafios, ele não sabe sair. Quando o Pedro percebe que está a rolar um clima entre o Nonato e a Joana, ele desafia o Nonato, e o Nonato “compra” essa briga. Eles vão discutir, e Nonato é alguém que não leva desaforo para casa – ele vai responder à altura. E aí vai acontecer essa tragédia porque o Pedro tem capangas e por isso mais força. E acaba criando essa confusão e essa violência em cima dele.

Uma vez mais volta a contracenar com o Alexandre Nero. Como está a correr esse reencontro?

É uma delícia. O Alexandre Nero foi o meu pai na novela ‘A Regra do Jogo’, em 2015, e eu adoro repetir parcerias com companheiros, porque acho que acabamos por descobrir intimidade em cena, uma sintonia que é muito interessante, e cada vez que você faz outras obras juntos, você acaba por descobrir ainda mais. Quando a gente fazia ‘A Regra do Jogo’ era uma relação super afectiva, era de pai e filho, alguém carinhoso, apesar de ser o grande vilão da história. E nessa série a gente foi trabalhar no extremo oposto disso, numa relação de violência física mesmo. É muito legal isso. Mas como eu já tinha essa intimidade com o Nero, eu sei que ele é um actor muito intuitivo, ele cria coisas que não estão no ensaio e que surgem na hora, ele aproveita muito dos momentos que acontecem em cena.

Essa sua forma de interpretar deixa os colegas, e o mesmo deverá ocorrer também com Alice e os demais integrantes do elenco?

Isso me deixa ligado em cena para responder, para a gente ter esse jogo, essa troca. É um actor muito interessante. A Alice eu também já tinha trabalhado em 2014, a gente fez ‘Boogie Oogie’ juntos. Ela é uma jóia de actriz, é uma pedra preciosa. Ela tem uma sensibilidade absurda. A gente já se conhecia e foi muito importante para criar essa intimidade, essa relação desses irmãos, da forma como eles se relacionam, como eles se encostam, como eles se abraçam o tempo inteiro. Com a Patrícia (Pillar) é a primeira vez que eu trabalho, e foi uma descoberta muito gostosa porque ela é uma actriz muito generosa no sentido de colocar para dentro, é muito agregadora. A gente gravou pouquíssimo juntos, na verdade foram duas cenas. Um flashback desse filho com essa mãe, que até ao fim do processo a gente colocou eles bem próximos, por conta dessa preocupação constante de uma mãe que sabe do instinto aventureiro do seu filho. E foi muito bonito tentar colocar em poucas cenas um pouquinho do que a gente pensava. A Patrícia recebeu esse filho de uma forma muito generosa. Foi uma alegria. Estou cercado de bons companheiros.

De que forma construiu esse personagem?

Nonato é uma pessoa de bem com a vida, quer viver, quer sentir. É como se ele tivesse uma percepção de que ele tem de viver cada segundo, porque alguma coisa pode acontecer. Não que ele saiba. Mas intuitivamente ele tem a necessidade de sentir e de viver ao máximo. Isso é muito interessante, uma pessoa que tem isso torna-se atraente, essa energia atrai, e a gente tentou colocar isso. Conversamos bastante com o Zé [José Luiz Villamarim], eu até usei coisas pessoais. Perdi um amigo na minha adolescência que era exactamente isso, era o primeiro a ir, o primeiro a experimentar. Parecia que ele tinha de correr atrás do tempo para experimentar. A gente tentou colocar isso no Nonato e isso é gostoso de ver, porque a gente vive com muito medo, a gente tem medo das coisas. ‘Será que vai dar certo, será que eu devo ir, será que eu devo fazer?’. O Nonato não pensa, ele não tem esse medo.

E o Sertão. O que dizer deste lugar?

O grande protagonista dessa série é o Sertão. Você tem uma coisa muito forte ali, imageticamente falando, ele já está ali. Quando você entra com o personagem você tem de entender que ele é apenas uma pequena parte daquele cenário. Aquilo já existe, já é muito presente. Inclusive o meu processo nesse personagem foi um pouco de desconstrução, até porque o Nonato é um estrangeiro e eu podia usar o meu olhar ali de estrangeiro, de conhecer aquele mundo, de perceber como as coisas funcionam e simplesmente existir ali, dentro daquele cenário muito forte e muito presente. E isso é muito marcante, é um lugar que tem uma energia muito particular, um modo de vida muito particular, isso vai estar presente na trama o tempo inteiro. Acho que aquilo já conta, você já tem um impacto visual imediato. Assim como a gente faz uso do figurino para compor o personagem, ou do sotaque, a gente também usa esse espaço que é muito mágico.

Qual foi o grande desafio desta série?

O desconhecido, porque para mim foi tudo uma grande novidade. Eu não conhecia o Sertão, então foi muito interessante sentir a presença da trama. Não é a toa que não somos os primeiros a gravar lá. Foi a primeira vez que eu trabalhei com o Zé. Há muito tempo que a gente já tentava conciliar as nossas agendas. E a primeira vez com o texto do George. Foi um mergulho no desconhecido. Terminei a ‘Força do Querer’ há pouco tempo, não tive tempo de pensar naquilo que estava a acontecer. Apanhei o avião e embarquei rumo ao desconhecido. E o melhor é que isso tem um pouco da energia do personagem, de explorar o desconhecido e ir de peito aberto.

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