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Enfermeiros sem assistência médica em caso de doença

Numa altura em que se comemora mundialmente o 12 de Maio, Dia do Enfermeiro, o secretário- geral adjunto do Sindicato Nacional dos Enfermeiros de Angola (SINDEA) denuncia a forma como os enfermeiros são tratados quando enfermos. Esta classe também carece de assistência médica e medicamentosa

POR: Maria Teixeira

Em entrevista ao OPAÍS, Elísio Magalhães, secretário-geral adjunto do SINDEA disse que para além de o sindicato estar preocupado com a Lei de Base do Sistema de Saúde, a Lei complementar do regulamento de reajuste, com a actual realidade do país surge também a necessidade de se olhar para o enfermeiro como humano. Com os salários desajustados e os materiais gastáveis em falta nos hospitais, “os enfermeiros estão a perecer, porque não têm assistência médica e medicamentosa.

Quem cuida precisa de ser cuidado. Temos enfermeiros que há mais de 20 anos continuam na mesma categoria, sem promoção, e ainda aqueles que atingiram um novo perfil na enfermagem e continuam a ganhar como auxiliares de enfermagem”, disse. Mais dignidade é o que o sindicato em questão pede, para que os seus associados possam prestar aos doentes uma assistência com mais qualidade.

A dignidade também pode ser dada com a aprovação e a publicação dos estatutos das carreiras dos profissionais da saúde. “Juntos podemos transformar esta nobre profissão numa devoção no espírito de Florence Nightingale (o enfermeiro homenageado no dia de hoje), não esquecendo o lema que estamos a comemorar, que é “Enfermagem uma Voz para Liderar, a Saúde é um Direito Humano”. Este direito humano deve afectar a todos, colocando o paciente no centro de todas as prioridades”, frisou. No país, o 12 de Maio, Dia Internacional do Enfermeiro, tem o acto central a decorrer na província do Huambo, onde estão a ser ministrados cursos de refrescamento sobre administração de medicamentos, anotações de enfermagem e infecções hospitalares; bem como as jornadas científicas.

Formados mais de 80 mil enfermeiros

Segundo o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Paulo Luvualo, no país foram formados, de 1975 até 2017, mais de 88 mil enfermeiros, mas, destes profissionais, apenas 63 mil estão registados na ordem, e 25 mil tem a carteira profissional ou estão autorizados a exercer a profissão. Portanto, fizeram um breve balanço dos profissionais formados recentemente e os dados indicam que de 2015 a 2017, em todo o país, foram formados mais de 25 mil profissionais de enfermagem, deste número, 80% estão no desemprego. “Essa falta de emprego condiciona o bom exercício da profissão, porque a maioria dos empregados está na faixa etária dos 45/50 anos, perto da idade de reforma. Isso faz com que a enfermagem seja exercida sob pressão, o que, juntado com as péssimas condições de trabalho, degrada a qualidade da assistência de enfermagem”, explica.

Vagas para enfermeiros é insuficiente

Paulo Luvualo lança um apelo ao Estado para que seja revisto o número de vagas atribuídas para o sector da saúde este ano, pois acredita ser insuficiente. “Para os enfermeiros são apenas 1.311 vagas, uma gota no oceano para as mais de duas mil unidades sanitárias que o país tem. Fazendo as contas, isso dá menos de um profissional de enfermagem para cada unidade sanitária. Assim não vamos a lado nenhum”, reclamou.

Enfermeiras querem mais recursos humanos e material gastável nos hospitais

Nesta senda, o OPAÍ S saiu para uma ronda em alguns hospitais da cidade de Luanda, para constatar in loco o trabalho prestado pelos enfermeiros. Infelizmente, não nos foi permitido trabalhar no Hospital Geral de Luanda e no Hospital Municipal da Samba. Por essa razão, trouxemos histórias de enfermeiras parteiras da Maternidade Lucrécia Paim, a maior de Luanda, que estão há mais de 20 anos nesta profissão e não mostram arrependimento daquilo que fazem, independentemente das condições de trabalho. Maria Mangumbala, enfermeira licenciada e especialista em obstetrícia neonatal, trabalha há 25 anos na área, vê a carreira de enfermagem como de extrema importância e muito bonita quando é bem-feita pelos profissionais da saúde.

“Esse trabalho de enfermagem representa amor ao próximo e é preciso sentirmos que somos prestadores de cuidados, para termos essa obrigação de cuidar dos demais. Não é fácil na nossa cidade, mas todos os dias estamos dispostos a prestar cuidados e a não olhar para o horário de saída, nem para a distância”, disse. Para Maria, ser enfermeira é ser mãe, conselheira e amiga, acima de tudo. E o enfermeiro tem alguns cuidados de prevenção e curativo para a sociedade. “É com o enfermeiro que o doente passa mais tempo, até estar com o médico”, reforça. Por isso, exige mais apoio em termos de recursos humanos, material hospitalar, de formas a facilitar a prestação daquele serviço.

Dada a existência de poucos profissionais de enfermagem, há pessoas que fazem 24 horas a trabalhar, e chega uma altura que não raciocina devidamente, correndo o risco de cometer erros. Já Berlinda dos Santos, licenciada em enfermagem e especialista em partos, nesse momento é supervisora do Banco de Urgências da Maternidade Lucrécia Paim. É enfermeira há 28 anos. “Sempre trabalhei em maternidades e vim ganhando experiencia com o passar do tempo. Já fui chefe do centro materno infantil do Cunge, no Cuíto (Bié), já trabalhei na maternidade central do Cuíto e, por causa da guerra, fui transferida para Luanda”, contou. Aproveitou a ocasião para felicitar todos os enfermeiros do mundo, em especial os de Angola, e dar-lhes esperanças em melhores dias, apesar de tudo. “Nós, como enfermeiros, também temos de estudar e investigar mais, e não ficar limitados apenas a dar picas. Devemos ser profissionais completos”, aconselhou.

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