loader

Angola com taxa de aleitamento materno mais baixa da Lusofonia

O nosso país, com 94,9%, tem o menor índice de bebés da Lusofonia que recebem leite materno, segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Com o agravante de Angola não cumprir a recomendação mundial de estender para seis meses a Licença de Maternidade, nem o Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do Leite Materno

POR: Romão Brandão

Segundo o estudo, intitulado “Amamentação: um presente da mãe, para toda a criança”, a seguir a Angola (94,9%) estão São Tomé e Príncipe 97%, Moçambique 97,3% e Guiné-Bissau 98%. Serviram de base para o estudo dados oferecidos pelos governos locais e revelados pelo UNICEF e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O aleitamento materno é importante para o combate à desnutrição e, sobre esta questão, o jornal OPAÍS contactou, ontem, Maria Futi Tati, responsável do Programa Nacional de Nutrição, que disse ter conhecimento de que Angola e Mozambique são países com baixas taxas de aleitamento materno, mas que este último país evoluiu bastante com a aposta no aleitamento materno.

O aleitamento materno deve ser feito de forma exclusiva até aos seis meses, e depois a introdução dos alimentos complementares, desde que saudáveis, e continuação do aleitamento materno até aos dois anos de idade. O que tem acontecido, entre os angolanos, segundo a doutora, é o não cumprimento deste preceito estabelecido pela OMS. “Quando se fala em aleitamento exclusivo, é não introduzir nem água, nem quiçângua, papa ou outro tipo de alimento. Dar apenas leite materno até completar seis meses de idade”, disse, defendendo que quem deve beber água em abundância é a mãe, bem como alimentar-se em condições, para que o bebé busque tudo o que precisa no seu leite Há uma camada, principalmente na área rural, que não tem problemas de amamentar, só que a introdução do alimento tem sido precoce, uma vez que começa no 15º dia do bebé, ou quando completa dois meses, o que é errado, disse a doutora Futi.

O estudo da UNICEF revela que cerca de 7.6 milhões de crianças pequenas deixam de ser amamentadas por ano, e as oportunidades de os bebés serem amamentados em países de rendas baixa e média são muito maiores do que em crianças pequenas das economias de alta renda. As razões incluem mudanças nas políticas dos governos, apoio social e percepção pública. “Se formos falar das mamãs que estão na área urbana e suburbanas, há problemas de amamentar porque são as que trabalham e as que seguem o modernismo, as que pensam que se der de mamar os seios caem. Convenhamos que os parceiros não ajudam, pois dizem que se o peito cair perdem o gosto por aquela mulher”, sublinhou Maria Futi Tati. “Há ainda as avós da criança, que não ajudam, e insistem em incluir comida e água na altura errada, porque no tempo dela fez e acha que é normal. Por outra, as condições económicas, porque muitas mães vêem-se obrigadas a trabalhar, vender, e dão logo o biberão ao bebé”, citou.

Angola não cumpre recomendações mundiais

Entre as razões que contribuem para as baixas taxas de amamentação em países de alta renda, apresentadas pelo estudo da UNICEF, estão as questões sociais e culturais, mas também a falta de apoio às mães. O estudo cita políticas nacionais que vão desde a falta de assistência no momento do parto e nos centros de saúde a regras sobre venda do leite artificial e a questões relacionadas à Licença de Maternidade. Sobre este assunto, Maria Futi Tati disse que o nosso país tem pecado, ao não cumprir com muitas recomendações internacionais, como, por exemplo, estender a licença de maternidade para seis meses às mães trabalhadoras. A entrevistada disse que participou numa reunião da OMS, na Swazilândia, onde se recomendou isso, a nível mundial, mas o nosso país não coloca em prática. “Nós, os técnicos de saúde, não falamos a mesma linguagem, infelizmente”, lamentou, tendo acrescentado que fez o relatório da referida reunião e espelhou as recomendações, mas engavetaram o documento.

Leites substitutos vendidos sem obediência ao código

Outra recomendação internacional que Angola não cumpre, até agora, é o Código Internacional de Comercialização dos Substitutos do Leite Materno, um documento que já devia estar na mesa, desde os anos 2000, segundo a doutora Futi, que proíbe a venda de alimentação, incluindo os leites artificiais, para os bebés dos zero aos seis meses, a não ser que haja uma indicação médica ou do técnico de saúde. O objectivo deste Código é contribuir para o fornecimento de nutrição segura e adequada aos lactentes, por meio da protecção e promoção do aleitamento materno e assegurar o uso apropriado dos substitutos do leite materno, quando estes forem necessários, com base nas informações adequadas e por meio da comercialização e da distribuição apropriadas.

Os fabricantes destes produtos “põem no nosso país todo o tipo de leite que quiserem, porque não se cumpre o tal código. Nós temos aqui no país leite em quantidades industriais, quando devíamos ter em pequeníssimas quantidades, apenas o necessário. Houve encontros para adaptar- se o referido código, mas Angola não adaptou”, reclamou. Para finalizar, Maria Futi Tati disse que o departamento de nutrição tem pronto o refrido Código e falta ser discutido e aprovado, nos próximos tempos, bem como a Política Nacional Integrada de Alimentação e Nutrição. São instrumentos importantes, porque em cada reunião que participamos fora do país “Angola é chumbada porque não tem tais documentos”.

8 Vantagens do aleitamento materno

1 Proporciona uma nutrição superior e um óptimo crescimento ao bebé;

2 Fornece água adequada para hidratação do bebé;

3 Protege o bebé contra infecções e alergias;

4 Favorece o vínculo afectivo e o desenvolvimento.

5 Protege a saúde da mãe;

6 Ajuda o útero a recuperar seu tamanho normal reduzindo o risco de hemorragia;

7 Reduz o risco de cancro da mama e do ovário a mãe;

8 Ajuda a retardar uma nova gravidez.

‘Muitas mães não sabem dar de mamar’

Elisa Gaspar, especialista em saúde materno-infantil e responsável do programa de aleitamento da Maternidade Lucrécia Paim, também em entrevista ao Jornal OPAÍS, disse que uma das dificuldades que registam é o facto de, apesar de mostrarem vontade, muitas mães não saberem dar de mamar; não saberem posicionar correctamente o bebé, o que causa ferida na mama e, consequentemente, ficam com o receio de dar a chucha. “Quando ensinadas, elas percebem que é muito fácil e retomam a amamentação. As pessoas muitas vezes pensam que, por ser um acto natural, é só pôr a chucha na boca, mas não, é preciso aprender”, alerta. De uma forma geral, para Elisa Gaspar, as mães querem dar de mamar, e quando a maternidade lhes diz que elas se tornarão nas possíveis dadoras para o futuro banco de leite humano, mostram interesse em contribuir. No seu entender, não há muitos mitos, neste campo da amamentação, que afastem as mães de darem o leite aos filhos.

O que se constata, quando vai ao alojamento conjunto para conversar com as mães, é que muitas não estão a dar de mamar porque fazem parte do programa de mães seropositivas, por exemplo. Estas mães não podem amamentar. “Se nos formos referir aos bebés internados nas maternidades, e que não há leite materno nestas unidades, isso é diferente. Nós não temos um banco de leite humano no país, o que dificulta o aleitamento materno para as crianças que internam, caso as mães não estejam por perto”, disse. A propósito do Banco de Leite Humano, voltou a frisar que a Maternidade Lucrécia Paim já tem a estrutura física preparada, bem como técnicos formados, pelo que esperam apenas pelo material especifico para o banco. “Não sei em que se baseou o estudo”, disse Elisa Gaspar, referindo-se ao estudo da UNICEF, “mas se for de forma natural, todas as mães dão de mamar. Agora, quando há caso de internamento, dependendo do hospital, pois que há hospitais em que as mães internam com os bebés, nestes casos pode dar de mamar, mas noutros casos não”, voltou a referir, em jeito conclusivo.

 

Últimas Notícias